Nasceu o Chamamento de Argentinos Judeus

Jorge Elbaum, eleito presidente do Chamamento

Jorge Elbaum, eleito presidente do Chamamento

Um escritor argentino original e criativo escreveu no seu Facebook: “Nasceu o Llamamiento de Argentinos Judíos, cuja sigla é LAJ [em espanhol a pronúncia aproximada é  lar ], em ídish, “ria!”, do verbo larrn, “rir”. Larrn mit trern (Rir com lágrimas) é tipicamente judaico e é justamente o que todos os membros do LAJ praticamos: rimos das dificuldades enquanto choramos pelas injustiças.”

Depois de um processo não muito longo, mas bastante agitado, o Chamamento veio à luz, e como convém: com decisão, força e audácia.

Tudo começou há mais de um ano, quando um jurista de sobrenome Sabsay, apoiado pela dupla DAIA-AMIA,  acusou o chanceler Timerman de “traidor”, em relação ao memorando de entendimento assinado pela Argentina e o Irã. Foi no 50º colóquio do IDEA (Instituto para o Desenvolvimento Empresarial da Argentina, instituição empresarial), em outubro de 2014, no finíssimo Hotel Sheraton de Mar del Plata, onde se reunia o que havia de mais representativo do capital concentrado nacional e estrangeiro junto com os candidatos oposicionistas ávidos de seu apoio. O discurso inaugural propugnava a volta ao passado, ao Consenso de Washington que tanto dano fez ao país, especialmente aos setores populares e médios.

Sabsay lançou um virulento discurso, no qual se pronunciou de forma depreciativa a respeito de diversos aspectos da gestão presidencial e de diversos altos funcionários. Pode-se concordar ou não com o governo. Não podemos, porém, concordar com a grosseria dos ataques, especialmente no que se refere a sua condição de judeu. Ele disse estar “envergonhado do chanceler que temos, um traidor da sua essência. Um ser indigno, que foi negociar com um sujeito como Mahmud Ahmadinejad, que negava o Holocausto. Falo como judeu, tenho vergonha. Não deveríamos permitir a entrada desse sátrapa em nenhum lugar. Esse vagabundo se sentou com quem nega o Holocausto.” Traidor de qual essência? Desde quando os judeus respondem a uma essência? Quem determina qual é a essência? Hoje ninguém duvida de que há diversas maneiras de assumir o judaísmo, e pretender reduzi-lo a uma “essência” é prepotente e perverso e só tem por finalidade manter os judeus amarrados aos ditames do establishment comunitário.

Justamente porque não coincidimos em nada com os dirigentes judeus das instituições majoritárias locais é que se aceitou o convite da Chancelaria para recordar a libertação de Auschwitz, deu-se apoio crítico ao Memorando de Entendimento pela “causa AMIA” com o Irã, rechaçamos continuar tolerando a presença de Ruben Beraja em algumas instâncias comunitárias, nos opomos ao oportunismo de certos rabinos, não aderimos mecanicamente a tudo o que o governo do Estado de Israel decide, reivindicamos a tese Dois Povos = Dois Estados soberanos e seguros e  nos incorporamos com todas as nossas forças à tarefa de construir um mundo justo e livre.

O que está dito acima mais a atitude indigna do establishment comunitário de se somar de maneira acrítica à manifestação de 18 de fevereiro convocada por promotores em franca oposição ao governo, em resultado da morte do promotor da causa AMIA, Alberto Nisman, levaram personalidades e diferentes correntes da comunidade judaica a fazerem ouvir a sua voz discordante dos dirigentes.

Naquele primeiro momento, um Chamamento de judeus, com cerca de três mil assinaturas, afirmava que a dupla DAIA-AMIA não expressava nem de longe os sentimentos do  conjunto da comunidade judaica argentina e não tinha por que arrogar-se a representação política da totalidade, quando era, na realidade, apenas uma parte.

“É um negócio”

Após um encontro em abril, do qual participaram mais de mil pessoas, inclusive do interior do país, formou-se um grupo incumbido de dar uma forma mais orgânica a esse movimento, de modo que não fique somente no grito de protesto, mas que, para a  judeidade argentina, constitua uma alternativa.

Nas reuniões realizadas entre abril e setembro, debateram-se os seguintes temas:

  1. O judaísmo argentino ante a situação nacional
  2. Democratização urgente da comunidade judaica na Argentina
  3. Posicionamento e atuação ante a falta de condenações pelo atentado à AMIA
  4. O Oriente Médio, a situação de Israel e a posição da comunidade judaica argentina
  5. Institucionalização de um espaço alternativo ao dominante na comunidade, sua forma de organização, seus mecanismos de funcionamento e análise para a tomada de decisões.

O intercâmbio e a polêmica enriqueceram substancialmente os documentos originais, até que, em assembleia no  Ídisher Folks Teater ( o mítico IFT), com mais de 200 participantes, nasceu o Llamamiento Argentino Judío.

A comissão executiva transitória eleita para um mandato de um ano será presidida, nesse período, pelo sociólogo Jorge Elbaum, tendo como vices Ana Diamant e Larry Levy, secretário-geral Marcelo Horestein e tesoureiro Dardo Esterovich.

Diz Elbaum: “Constituímos a soma de correntes judaico-argentinas que têm muitos anos de História, fundamos uma organização, mas esta se inscreve numa longa tradição de setores progressistas, comunistas, anarquistas, nacionais e populares.”

O Llamamiento afirma sustentar as tradições cooperativistas dos imigrantes do século 19 e as lutas sociais do século 20. Acrescenta que há muitas formas de ser judeus e não só as postuladas por DAIA-AMIA. “Somos argentinos, latino-americanos e judeus, e não nos sentimos identificados com as políticas colonialistas do governo de Israel. Apostamos na paz e na existência do Estado palestino, dois povos em paz sem colonialismo e com Jerusalém como capital compartilhada.”

Segundo o Llamamiento, os dirigentes da DAIA-AMIA são parciais em sua visão política. Deveriam ter como objetivo lutar contra todo tipo de discriminação, mas se converteram em correia de transmissão do PRO (partido de direita neoliberal encabeçado pelo prefeito de Buenos Aires, Mauricio Macri), e isso não pode ser legitimado, já que, por exemplo, acabaram acompanhando o promotor Alberto Nisman. A DAIA nasceu nos anos 1930 como organização antifascista, mas isso foi-se deteriorando e hoje são sócios do PRO e da Sociedad Rural, lugar onde se costumava proibir a entrada dos judeus.

Após mais de 90 reuniões em todo o país, o Llamamiento se propõe a “retomar o legado nacional, popular democrático e progressista, as lutas de milhares de desaparecidos judeus e militantes populares… somos mais de dois terços da comunidade, queremos ser uma voz alternativa à direita conservadora que vê o judeu como algo mercantil e não como a tradição de luta, por exemplo, dos partisans durante a Segunda Guerra Mundial”.

Repudia o silêncio da AMIA e da DAIA em relação ao acobertamento do atentado à mutual israelita. “Os que fizeram isso nunca pensaram contar com a cumplicidade do então presidente da DAIA, e os atuais dirigentes sequer são parte integrante do  processo contra os promotores, o juiz e os demais encobridores. É uma vergonha, e só se explica como um negócio”, diz Elbaum. O Llamamiento faz um elogio aos grupos Memoria Activa, 16J e Apemia, porque têm sido consequentes na busca da verdade, para além de suas diferenças”.

O Llamamiento conta com a  participação do ICUF-Argentina e de outras correntes progressistas, como Convergencia e AMOS, assim como de indivíduos independentes e personalidades de prestígio.

Na Assembleia Constituinte, a ideia foi articular um espaço judaico, progressista, não sionista, democrático, não sujeito às indicações da Embaixada israelense nem refém do PRO (como são hoje a DAIA e a AMIA).

Saudamos este nascimento, investindo nossa decisão e nossa ação no seu crescimento e fortalecimento.

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder novembro 28, 2015

    Basse Silber

    Daniel, prazer em termos o mesmo sobrenome.

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