Não quero saber

COMANDANTE

General Yair Golan, foto Yair Sagi

As declarações do general Yair Golan, vice-comandante do Estado-Maior do Exército de Israel, estabelecendo ilações entre a ambiência que permitiu o Holocausto e certos fatos e reações contemporâneos na sociedade israelense, causaram manifestações raivosas e um escândalo no governo e naqueles que o apoiam.

Não se pense, entretanto, que estas reações provieram da indignação referente a uma suposta avaliação equivocada ou mentirosa do general. A maior dificuldade hoje em dia no diálogo com os israelenses pró-governo, isto é, com a maioria, não se refere à discussão sobre critérios de verdade. Simplesmente “eles não querem falar disto, agora”.

Quando os partícipes do grupo Shovrei Shtiká, em tradução livre “quebradores do silêncio” [ em inglês, Breaking the Silence ], se manifestam sobre o que viram no seu serviço militar entre os palestinos, a raiva se manifesta porque,  colocado diante do espelho, o israelense médio se vê de forma acabrunhadora, não exatamente de acordo com a narrativa governamental.

Não se dá uma reação de reflexão sobre o quadro apresentado, mas de fuga. Daí ser inútil argumentar frente a quem não quer saber. Em vez de um diálogo, ouvem-se monocórdios slogans e se constrói um muro psicológico para evitar uma real avaliação sobre o que está acontecendo para além do muro de concreto já erguido.

Os sintomas aparecem já permanentemente, apesar de diferentes tentativas de suavizar, nas aparências ‒ via declarações parciais ‒, brutalidades e barbaridades cometidas por civis e militares contra palestinos. Quando alguém do Alto-Comando, com certa cumplicidade do próprio ministro da Defesa (espantem-se), se vê compelido a declarar que o rei está nu ‒ foi obrigado a se desdizer pela metade ‒ e que tem podridão no reino da Dinamarca, independentemente dos motivos que os levaram a tal atitude, eu acrescentaria que, da briga entre bandidos, às vezes emergem verdades.

Ações efetivas

O que realmente atinge as práticas deste governo são aquelas ações que provocam as reações raivosas porque são realmente efetivas. Acusam tais ações de tentar deslegitimizar o Estado de Israel, mas quem deslegitimiza o Estado de forma crescente é a presente hegemonia política. O boicote, por exemplo, é uma delas. No entanto, ele não é uma ação, mas reação aos ouvidos moucos. Partes dos ativistas militantes pela paz local, mesmo dentro do espectro sionista, sabem que na esfera da diplomacia política, na atual situação, pouco resta a fazer.

Sinto que há pouco a se comemorar na próxima data da Independência do Estado de Israel, 12 de maio. Estamos indo do amor para as trevas.

Mas ainda tenho esperança de que o mundo judaico ou parte dele se disponha a enfrentar esses dilapidadores dos ideais sionistas mais profundos identificados com os direitos humanos. O sionismo, de acordo com alguns de seus ideólogos, só se completará como movimento humanista quando também libertar o outro dentro de si. A liberdade não existe para escravizar terceiros, e nossos eventuais escravos nos escravizam, brutalizando-nos, tal como adverte espantosamente o vice-comandante do Exército de Israel.

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

2 Comentários

  • Responder maio 18, 2016

    lucia e jose frota

    TEXTO ESCLARECEDOR NA DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS NO APELO A PAZ E RESPEITO AOS PALESTINOS

    PARABÉNS AO COLUNISTA DO BOLETIM ASA

  • Responder maio 18, 2016

    lucia e jose frota

    TEXTO ESCLARECEDOR NA DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS, NO APELO À PAZ E RESPEITO AOS PALESTINOS.

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