Laudate Dominum

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Eu sinto falta, nos serviços religiosos judaicos, seja na versão clássica, ortodoxa, na liberal light da Comunidade Shalom e até na liberal pero no mucho da CIP, de um bom oratório, até mesmo uma boa missa, geralmente na versão luterana do cristianismo. No limite, uma missa como a dos beneditinos no Mosteiro de São Bento de São Paulo (já o Mosteiro do Rio, apesar da ótima localização, não faz muito o meu gênero, até o seu odor de santidade me incomoda…).

Já que no mundo judaico me faz falta a missa, o oratório, eu me satisfaço, geralmente aos domingos pela manhã, sintonizando o programa dedicado à música sacra da Rádio Cultura FM de São Paulo, que não faz distinção de credo ou de período estético, da música antiga à contemporânea. Ecumênico na acepção plena da palavra, o programa contempla compositores das mais diversas épocas, nacionalidades e credos religiosos. A apresentação é do Amaral Vieira. Um luxo, recomendo a todos, dá pra ouvir a emissora via internet.

Tradição bíblica

Os Salmos tinham como ponto de referência comum o termo salvação ou termos afins como justiça, verdade, luz, misericórdia, fidelidade etc. Havia nisso uma dupla finalidade: antes de tudo, mostrar que a missa como tal afunda suas raízes na mais genuína oração da tradição bíblica, e lembrar que a oração constitui realmente uma fonte inesgotável que faz desabrochar sempre e de novo a paixão pela vida.

É uma dimensão indispensável, que nasce da surpresa (alguns estudiosos da Bíblia dizem estupor) diante de um Deus que não suporta permanecer isolado em sua sublime solidão, mas que toma a iniciativa de revelar-se dentro dos acontecimentos da história humana, onde estabelece uma relação especial com o povo de Israel.

Através da comunhão de vida, estabelecida pela Aliança, o Deus de Israel manifestou ao longo da História sua constante solicitude, seu “prazer de perdoar” e seu imenso carinho pela vida e pelo destino de todos: de Israel e das nações. O salmo mais curto do saltério, mesmo não falando expressamente de salvação, é o instrumento mais adequado que nos coloca em sintonia com esta magnífica “Melodia infinita”.

Com extrema e absoluta simplicidade (só dois versículos), o salmista consegue envolver em seu canto a totalidade de seus destinatários: “Louvai a Deus todos os povos, aclamai-o todas as nações, pois forte para conosco é a sua bondade, a fidelidade de Deus é para sempre. Aleluia.” É muito fácil reconhecer os dois momentos que marcam o ritmo do salmo: o convite ao louvor e a sua motivação que termina com a exclamação Aleluia.

É bom lembrar logo que bondade/fidelidade = hesed/emet, são termos ligados ao contexto da Aliança. Claríssimo é o contraste entre a dimensão universal do convite ao louvor e a dimensão particular da motivação (para conosco = povo de Israel). Evidentemente a posição central é ocupada por Deus, que se manifestou na História do seu povo e é, ao mesmo tempo, o Deus de todas as nações. Ele é o ponto de convergência onde Israel e as nações superam suas próprias tensões.

Para o povo de Israel, representado pelo salmista, o motivo do louvor é e sempre será “a bondade e a fidelidade” que Deus manifestou ao longo da História. Nesse sentido, vem à tona a sua identidade e a sua missão, que consiste em ser testemunha diante das nações. Tudo isso, porém, faz com que Israel reconheça a sua incapacidade de, sozinho, agradecer por tantos e tamanhos benefícios, e ao mesmo tempo descubra que a solicitude divina não pode ser considerada como um direito exclusivo seu.

Jeová revelou-se a Israel “a fim de que todos os povos da terra reconheçam o seu Nome”. Cabe a seu povo desempenhar a missão de fazer conhecer a “salvação de Jeová até as extremidades da terra”. Isso mostra por que a motivação ao louvor tem, como ponto de partida, a experiência do salmista e do seu povo e tem uma repercussão universal.

Povos e nações, através do testemunho de Israel, são convidados a unir a sua voz a este grande e imenso louvor, pois dessa forma podem constatar diretamente que “a fidelidade de Jeová é para sempre”. Isso, porém, implica a necessidade de aceitar e reconhecer sua soberania e presença no mundo. Finalmente, se todos quiserem participar dessa sinfonia universal e descobrirem em sua vida o segredo da oração que une a humanidade, não podem permitir que, em seus lábios, se apaguem as palavras desse importante e decisivo convite: “Louvai a Deus todos…” porque Jeová está presente com sua “bondade e fidelidade” para além de toda possível opacidade e escuridão dos nossos dias.

Antes que os leitores achem estranha essa minha erudição bíblica, assinalo que bebi, muito, da fonte do professor e padre Sérgio Bradanini, diretor do Pime – Pontifício Instituto das Missões Exteriores.

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

Especial pra ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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