La mar, la galana, las kolores i los arvoles

Noiva judia de Tânger, aquarela de Eugène Delacroix, 1832

Noiva judia de Tânger, aquarela de Eugène Delacroix, 1832

Quando escrevi o artigo anterior (setembro/outubro) – As kantikas do ciclo da vida – terminei assim:

“A continuar … pois quero falar mais da água e do que nasce entre a água e a areia nas canções de boda sefaradis.”

Como são ricas de símbolos as canções sefaradis! Vamos, então, seguir o roteiro do título – o mar, a bela jovem, as cores e as árvores. A canção de boda que escolhi se chama La galana i la mar ou Ya salio de la mar la galana. Mostro três versões, com as variações comuns às canções transmitidas oralmente.

Versão com Mor Karbasi:

La espozika esta en el banyo /  Vestida de kolorado/  Echate a la mar i alkanzalo

A la mar yo bien m’echava /  Si la suegra lisensia me dava /  Echate a la mar i alkanzalo

Ya salio de la mar la galana/ Kon un vestido de silma blanka/ Echate a la mar i alkanzalo

Entre la mar i el riyo / Vestida de amariyo/ Echate a la mar i alkanzalo

Entre la mar i la arena/ Kresio un arvol de kanela/ Echate a la mar i alkanzalo.

(Tradução livre – A esposinha está no banho, vestida de vermelho. Joga-te no mar e alcança-o //. No mar eu me jogaria, se a sogra me desse licença, … // A bela jovem já saiu do mar, com um vestido branco adornado com fio de ouro/ …// Entre o mar e o rio, vestida de amarelo, …// Entre o mar e a areia, cresceu uma árvore de canela,  …).

Versão com Ana Alcaide:

Ya salio de la mar la galana / Vestida de al i blanko/ Ya salio de la mar

Entre la mar i la arena/  Mos kresio un arvol de almendra / Ya salio de la mar

Mar, mar Entre la mar i el riyo, echate (refran)

Entre la mar i el riyo/  Mos kresio un arvol de bembriyo / Ya salio de la mar

La novia ya salio del banyo i el novio la esta esperando /Ya salio de la mar

(Tradução livre: A bela jovem já saiu do mar, vestida de vermelho e branco, já saiu do mar // Entre o mar e a areia, cresceu uma árvore de amêndoa, já saiu do mar // Mar, mar, entre o mar e o rio, joga-te (refrão) // Entre o mar e o rio, cresceu uma árvore de marmelo, já saiu do mar// A noiva já saiu do banho e o noivo está esperando por ela, já saiu do mar).

Versão com Liliana Benveniste:

Ya salio de la mar la galana/  Kon su vestido de sirma y blanko / Ya salio de la mar

Entre la mar i el riyo / Mos kresio un arvol de bimbriyo / Ya salio de la mar

La novia salio del banyo/ el novio la esta esperando /ya salio de la mar

Entre la mar i la arena / Mos kresio un arvol de almendra / Ya salio de la mar

(Tradução livre – A bela jovem já saiu do mar, com um vestido de fio de ouro e branco, já saiu do mar// entre o mar e o rio, cresceu uma árvore de marmelo, já saiu do mar// A noiva saiu do banho, o noivo está esperando por ela, já saiu do mar// entre o mar e a areia, cresceu uma árvore de amêndoa, já saiu do mar).

O mar  pode simbolizar o banho ritual, assim como o rio. Penso, no entanto, em algo mais profundo, principalmente no verso que diz: echate al mar i alkanzalo. A noiva não deve simplesmente “entrar” no mar; ela deve “jogar-se” no mar. É a força do verbo echar ou echarse, que, igual que em espanhol, tem sempre o sentido de “lançar” ou “lançar-se”. Ou seja, a noiva deve jogar-se, sem medo, em direção à nova vida que a espera do outro lado – a vida matrimonial.

La galana – referindo-se à noiva, mas elogiando-a pela sua formosura, por sua elegância, por estar vestida com gosto, esmero e perfeição.

As cores – são cores alegres – vestida de kolorado; vestida de silma blanka; vestida de amariyo; vestida de al i blanko; kon um vestido de sirma i blanko – há vermelho, branco bordado com fios de ouro, amarelo. As palavras silma/sirma e al são de origem turca. Estas versões foram recolhidas em Salônica, que esteve sob domínio otomano até 1912.

As árvores com seus frutos – canela, amêndoa, marmelo ‒  kanela, almendra, bimbriyo/ bembriyo/ membriyo (em espanhol, membrillo). Suas formas, seu sabor, o fato de serem geradas pela fertilidade da terra fazem com que sejam associadas ao erotismo e ao sexo. Mas também podem ser símbolos espirituais. Na Grécia antiga, ofereciam-se marmelos (prefiro membrillo, acho mais sugestivo) às noivas, como símbolo de fertilidade. A amêndoa, entre os árabes, é associada à paixão e à fertilidade. Copio aqui o que escrevi quando batizamos esta coluna de Almendrikas: “Almendra, amêndoa, amande, mandorla, almond, mandel, … Seja em que língua for, a amêndoa tem um significado: assim como é preciso quebrar sua casca para chegar ao fruto saboroso, também é preciso penetrar a superfície das pessoas ou das coisas, para perceber a verdadeira joia que elas podem ser. Quebrar a casca resistente e saboreá-la significa descobrir um segredo e dele participar”. Quanto à canela, é grande seu poder afrodisíaco e é muito usada como ingrediente de perfumes e de poções mágicas.

Enfim, La Galana i la Mar está repleta de símbolos. Cabe a cada um de nós decifrá-los.

Para ouvir:

– com Mor Karbasi (cantora e compositora, nascida em Israel, de mãe israelense de origem marroquina e pai persa):

– com Ana Alcaide (cantora e compositora, nascida em Madri):

– com Liliana Benveniste (cantora, compositora e pesquisadora, nascida em Buenos Aires, de família originária de Istambul):

Especial para ASA

 

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

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