Kantikas de parida e Kantes de kuna

(COM DIREITO A ELUCUBRAÇÕES GASTRONÔMICAS)

 

canção de ninar 1

 

Já comentei aqui que o repertório sefaradi é rico em canções (kantikas, kantigas ou kantes lirikos) associadas ao ciclo da vida. No artigo passado, examinamos algumas canções associadas ao casamento (kantes de boda) e pudemos observar o quanto são ricas em significações simbólicas.

Vamos continuar com o ciclo da vida e, o mais lógico, já que começamos com o casamento, é que continuemos com a chegada dos filhos.  Os sefaradis têm os kantes de parida, nos quais são dadas as bênçãos à criança e à mãe, estendidas ao pai (el parido), ao rabino, à parteira (la kumadre), ao padrinho e à madrinha. Há várias versões dessas cantigas, porque, como sempre venho dizendo, a transmissão se fez por via oral. Uma das versões é esta:

Oh ke mueve mezes llevates d’estrechura

Vos nasio un ijo kon kara de luna

Biva la parida kon su kriatura

(reflan) Ya es ya es buen siman esta alegria

Bendicho el ke mos ayego a ver este dia

Ke bien empleadas fueron las dolores

Vos nasio un ijo kon kara de flores

Siempre de kontino al Dio demos loores

(reflan)

(Tradução livre: Oh, (depois de) nove meses de aperto, nasceu um filho com face de lua, viva a parida com sua criança// refrão: Já é um bom sinal esta alegria, bendito aquele que chegou para ver este dia// Como foram bem usadas as dores, nasceu um filho com face de flores). É interessante notar que, assim como no espanhol, kriatura/criatura significa “criança”.

Dentro da tradição gastronômica sefaradi não posso deixar de falar das “revanadas de parida”, as nossas tão conhecidas rabanadas. Esta é uma receita que transcrevo em ladino:

Materiales: 
10 revanadas de pan blanko fresko /1 litro de leche/ 2-3 guevos bateados / arope, sirop o miel / azeyte para friyir. 

Preparasion: 
En una sarten grande meter a kaentar la azeyte. Asta ke se kaenta la azeyte, meter kada revanada adientro de la leche, ke se ablande un poko, untarla en el guevo i friyirla de las dos partes, asta ke toma kolor de biskuchada. Aresentar las revanadas en una fayancha i sirvirlas kon miel, arope o sirop por enriva. 

Deke revanadas de parida? Porke se davan a komer a las rezin paridas para ke les venga fuersa i les abashe leche. Dizian ke estas revanadas davan fuersa i salud a la parida i de aki el nombre.

(Tradução: Ingredientes: 10 fatias de pão branco fresco/ 1 litro de leite/ 2-3 ovos batidos/ xarope ou mel/ azeite para fritar. Preparação: em uma frigideira grande colocar o azeite para esquentar. Quando o azeite estiver quente, colocar cada fatia no leite, até que o pão amoleça um pouco; passá-la nos ovos batidos e fritá-la dos dois lados, até que fique com a cor de bolo tostado. Colocar as rabanadas em um prato de louça e servi-las cobertas com mel, “arope” ou xarope. Por que se chamavam fatias de parida? Porque eram dadas às parturientes para que adquirissem forças e que o leite descesse. Diziam que essas fatias davam força e saúde à parturiente e por isso o nome).

Não sei se existe tradução para “arope”, em português; em espanhol se diz arrope e quer dizer o mesmo que em ladino – um líquido concentrado de uvas e passas pretas, bem açucarado. O que traduzi por xarope compõe-se de uma massa feita de açúcar e de água, à qual se acrescentavam amêndoas, pistache ….

Ainda haveria muito o que falar sobre as rabanadas, mas só vou acrescentar que em espanhol as rabanadas se chamam “torrijas” ou “torrejas” (este já pouco usado), palavra derivada de torrar; rebanada, em espanhol, significa “fatia”, especialmente se é de pão. A palavra torrija ou torreja aparece documentada, pela primeira vez, num villancico de Juan del Encina (já falamos dele no artigo de maio-junho de 2015; nesse mesmo artigo explico o que é um villancico), no qual ele cita esse doce como um prato excelente para que as parturientes recuperem as forças: “En cantares nuevos/ gozen sus orejas/ miel y muchos huevos/ para hazer torrejas” (está escrito em espanhol arcaico – gozen, hazer – e, naturalmente as “orejas” para rimar com “torrejas”).

Para ninar

Para fazer o bebê dormir, há os kantes de kuna, as canciones de cuna, do espanhol, as nossas “cantigas de ninar”. Uma característica marcante das canções de ninar é o ritmo suave e relaxante, eu diria também hipnótico, que ajuda o bebê a dormir. Todas as cantigas de ninar – mesmo aquelas que dão medo – estão enraizadas no amor, na ternura e no cuidado.

As duas cantigas que reproduzo em seguida têm as letras praticamente iguais: a mãe fala do futuro da criança:

Durme, durme, ermozo ijiko / Durme, durme kon savor / Serra tus luzios ojikos/ Durme kon sabor // A la skola tu te iras/ I la Ley te ambezaras.

(Tradução livre: Dorme, dorme, formoso filhinho/ Dorme, dorme com gosto/ Fecha teus olhinhos brilhantes/ dorme com gosto // Tu irás à escola/ e aprenderás a Lei).

A Nana de Salonika diz assim:

Durme, durme, chikitiko/ Durme sin ansia i dolor/ Serra tus lindos ojikos/ Durme, durme kon savor // De las fashas tu saliras/ I a la skola tu te iras/ I ayi, chikitiko/ Alef Bet ambezaras.

(Tradução livre: Dorme, dorme, pequenino/ Dorme sem ânsia e dor/ Fecha teus lindos olhinhos/ Dorme, dorme, com gosto // Tu sairás das fraldas/ e irás à escola/ E aí, pequenino/ alef bet aprenderás).

Nesta outra canção, Durme, durme, mi andjeliko, há um fundo de tristeza, bem característico de algumas canções de ninar ‒ o que vale é a repetição, como já disse acima, quase hipnótica da melodia, já que a criança ainda não entende o sentido das palavras:

Durme, durme, mi andjeliko/ Ijiko chiko de tu nasion/ Kriatura de Sion/ No konoses la dolor// Por ke nombre ah me demandas/Por ke no kanto yo/ Ah kortaron las mis alas/ I mi boz amudisio// Ah el mundo de dolor.

(Tradução livre: Dorme, dorme, meu anjinho/ filhinho pequeno de tua nação/ Criança de Sião/ Não conheces a dor// Por que nome, ah, me perguntas/ Porque eu não canto/ Ah, cortaram as minhas asas/ e minha voz emudeceu// Ah, o mundo de dor).

Nesta outra, na primeira estrofe, a mãe fala com o filhinho; nas seguintes, ela fala com o marido traiçoeiro. Coitadinho do neném! Mas é este o momento em que a mãe, triste, pode se queixar. É mais um canto para si mesma, do que para a criança (felizmente, nessas canções sefaradis, não encontrei nenhuma de meter medo, das que citam entidades más que querem levar o neném).

Nani, nani/ nani kere el ijo/ el ijo de la madre/ de chiko se aga grande// Ay ay durmite mi alma/ke tu padre viene/kon muncha alegria// Ay ay avrimesh mi dama/ avrimesh la puerta/ke vengo kansado/de arar las guertas// Ay avrir no vos avro/No venish kansado/ si no ke venish de donde muevo amor.

(Tradução livre: Nana, nana/ o filho quer dormir/ (meu desejo é) que o filho de sua mãe/ cresça// Ai, ai, dorme, minha alma/ que teu pai vem/ com muita alegria// Ai, ai, abre-me, minha senhora/ abre-me a porta/ que venho cansado/ de arar as hortas// Ai, abrir não a abro/ (porque) não vens cansado/ mas vens da casa do teu novo amor).

Existe outra versão, na qual o marido não é traidor:

Ay, avrimesh la puerta/ ke vengo cansado/ de arar las guertas // Ay la puerta yo vos avro/ ke venish cansado/ i veresh durmido. (Ai, abre-me a porta, que venho cansado/ de arar as hortas// Ai, abro a porta/ porque vens cansado/ e o verás adormecido).  

A continuar … que os caminhos sefaradis são infinitos.

Para escutar

Durme, durme – com a cantora paulista Fortuna:

https://www.youtube.com/watch?v=hFCb5MU6VZ4&list=PLpC2yg6sWKwAcu1URgj1g7JpWuHZVHZP6&index=6

Nana de Salonika – com Fortuna e os monges beneditinos do Mosteiro de São Bento (São Paulo):

https://www.youtube.com/watch?v=PcNHfoaeUzo

Durme, durme mi andjeliko – com o cantor israelense Yerohan Gaon:

https://www.youtube.com/watch?v=JkAz3KtOu1g

Nani, nani – com o Ensemble Antequera:

https://www.youtube.com/watch?v=JV0oYTyejRk

Para quem quiser reler o artigo de maio-junho de 2015 (Juan del Encina e villancico):

http://asa.org.br/colunas/o-cancioneiro-sefaradi-elucubracoes-peninsulares/

Especial para ASA

 

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

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