Kaminos de leche i miel

27-4-2013

Esta é uma expressão que se usa em várias situações no cotidiano sefaradi, principalmente nas despedidas ou no início de um novo empreendimento. Se é para uma pessoa, Kaminos de leche i miel ke tengas; ou para várias, Kaminos de leche i miel ke tengash. Essa saudação me veio à cabeça, assim que li as palavras das duas canções que vou mostrar a seguir. Continuamos ainda com as canções de ninar – as kantikas de kuna. O nascimento de uma criança significa o início de um caminho do qual não temos ideia de como vai ser percorrido. Então, é mais do que necessário o desejo de que esse novo ser tenha “caminhos de leite e mel” – que não lhe falte alimento (leite), nem doçura e suavidade (mel).

A primeira kantika é bem tradicional, transmitida de geração em geração ao longo dos séculos:

A la nana i a la buba

Se durma la kriatura

El Dio grande ke los guadre

A los ninyos de los males.

No primeiro verso é interessante notar as duas palavras – nana e buba.

Nana ‒ Em espanhol, é a cantiga de ninar; mas, coloquialmente também se usa para “avó”. Trata-se, repito, de uma cantiga transmitida oralmente. Será que em algum ponto do caminho, em vez de nana, cantavam nona? Em judeu-espanhol (ladino) há várias maneiras carinhosas de tratar a avó – bava, vava, granmama, avuela, nona …. Depende do local onde vive o falante.

Buba – Na primeira vez que ouvi a canção, estranhei a palavra. Uma amiga me esclareceu: significa “boneca”. Mas boneca não é kukla? É que buba é boneca em hebraico. E uma amiga, de Izmir (Esmirna), me escreve: “En Izmir no dizimos ni buba ni kukla, si no ke “kucha” – aksento en la U.)”. Neste ponto, me lembro de jerimum, abóbora, moranga … Tangerina, mimosa, mexerica … Cheguei a pensar no latim pupa,ae (boneca), na pupa (crisálida) que tem forma de bonequinho … Por que não? Boneca, em francês, é poupée! Muita elucubração!

Como traduzir? Minha tradução é, como sempre, muito livre:

Que a criança durma com a cantiga de ninar e a boneca. Que Deus guarde as crianças dos males (das maldades do mundo).

A outra canção é de autor, já do século 21 – El ladino bive! (O ladino está vivo!). As duas autoras são argentinas. Beatriz Mazliah escreveu a letra; Liliana Benveniste, a melodia.

Leche, kanela i miel

Ya tengo el ninyo en la kuna

Ke me lo trusho la luna

Lusero de la manyana

Ke le alelumbra la kara

Su golor de pan caliente

Ke me lo ansia la djente

Ajos, klavos i korales

Ke no lo endenien los males

Los dedos komo almendrikas

Ke son djoyas chikitikas

Los malahines kon el,

Ke es leche, kanela i miel

Ya durme el ninyo en la kuna

Ke me lo kudia la luna

Los malahines kon el

Ke es leche, kanela i miel

Já tenho o menino no berço, foi a lua que me trouxe/ Estrela da manhã que ilumina sua face. / Seu cheiro de pão quentinho dá desejo nas pessoas. /Alhos, cravos e corais/ Que não o machuquem os males. /Os dedos são como amendoazinhas, que são joias pequeninas. / Que os anjos estejam com ele, que é leite, canela e mel. / Já dorme o menino no berço, que a lua cuide dele. / Que os anjos estejam com ele, que é leite, canela e mel.

Nas duas canções, o ponto em comum é o desejo de que a criança não sofra maldades, que não tenha males no seu caminho. Na canção, há uma referência aos anjos (malahines), o que me leva a outra saudação sefaradi: “Andjeles i malahines”, que também se usa dizer nas despedidas: “Que os anjos cuidem dos teus caminhos”, é este o significado. Muito interessante essa frase, que nos mostra a dupla base na qual se apoia a língua: o latim e o hebraico. O ladino costuma adaptar as palavras que não se originam do latim às características desta língua. Malahim, do hebraico, passa a malahines; bülbül, do turco, passa a bilbiliko (rouxinol) …

Como guardar as crianças das maldades? Na primeira canção, o pedido “el Dio grande ke los guadre a los ninyos de los males” tem uma resposta na segunda canção: “ajos, klavos i korales, ke no lo endenien los males”. A crença no ayinarah, o mal de ojo, a ojeadura, o ojo pezgado (olho pesado), o ojo burakado (olho esburacado) possui longa tradição entre os judeus de origem hispânica (atenção para a pronúncia do j, em ladino – é como o j do português!). É o nosso tão conhecido mau-olhado, o olho gordo, também de longa tradição entre nós. De ayinarah ke mos guadre el Dio!, Guadrado de ayinarah!, são expressões utilizadas para afastar o mau-olhado. Ajos i klavos! é uma interjeição muito comum. A relação entre alhos e cravo-da-índia (minha mãe dizia cravo-de-cheiro) é bem conhecida, não só entre os judeus. O cheiro do alho faz com que os entes malévolos fujam (não são os vampiros que têm medo de alho?). Os korales (corais) já eram comuns na Roma Antiga. Os romanos costumavam usar um pedaço de coral num colar, para se proteger contra feiticeiros e demônios. Na Itália é usado como defesa contra o “mal d’occhio”. Não me estendo mais. Mas a hamsa (em forma de mão) e o olho grego ou turco são considerados poderosos amuletos contra o mau-olhado. Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay, diz o antigo ditado.

Na canção argentina me encanta a comparação do cheiro da criança com o cheiro do pão quente, fresco, recém-feito. Leite, canela e mel – já me referi acima ao leite e ao mel. A canela é associada à sabedoria. Também podemos associar o verso ao cheiro gostoso da canela misturada ao leite, tudo adoçado com o mel. Que kantika cheirosa!

Infelizmente, não encontrei no Youtube boas gravações de A la nana i a la buba (as melhores, cantadas pela Fortuna e pela Françoise Atlan, não estão disponíveis).

Há esta versão, com Paula Mendoza e Rodrigo Jarabo:

https://www.youtube.com/results?search_query=a+la+nana+y+a+la+buba+Iarus+Grex

Leche, kanela i miel, com Liliana Benveniste, ao vivo:

https://www.youtube.com/watch?v=O5di-rlfJHo

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

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