Existe uma maioria silenciosa?

Netaniahu (à dir.) e Moshé Yaalon (Foto Kobi Gideon, Flash 90)

Netaniahu (à dir.) e Moshé Yaalon (Foto Kobi Gideon, Flash 90)

Às vezes, me dá um desânimo danado. Sabe por quê? Porque não vejo nada de substancioso em termos de mobilização local no que diz respeito ao conflito israelo-palestino. Claro que existem círculos específicos que trabalham o tema, mas tenho a impressão de que nada repercute suficientemente.

Um confidente opina que a comunidade judaica se torna cada vez mais conservadora e corrente de transmissão inerte do oficialismo israelense. Acato a hipótese com ressalvas.

Meu contraponto opinativo é a “crença” de que exista, usando antigos chavões, uma “maioria silenciosa” que, simplesmente, em vez de pôr a boca no trombone, se afastou de qualquer ativismo na questão e foi cuidar de outros quintais menos pedregosos. No entanto estas questões “fervem” nos EUA, na França. Daqui, praticamente niente. Continuamos uma espécie de Ilha da Fantasia. Um exemplo foi o caso da repercussão da turnê de Caetano e Gil a Israel, iniciada e movida quase toda ela por forças externas.

Fico pasmo quando vejo nos grandes órgãos de imprensa artigos assinados por pessoas que, rigorosamente, desconheço, atacando a política deste governo israelense. Nada a opor, muito pelo contrário, mas onde estão aqueles que serão os galvanizadores de um basta local, um grito efetivo contra a manipulação surrealista da realidade israelense, resumida hoje em impasse, imposta por certos falsos “donos” da voz comunitária?

Fico esperando e nada acontece. O leitor poderia debochar arguindo que  também espera o messias, porém ele não aparece. Mas quantos existem na mesma situação de desengajamento forçado?

Tudo se dá em uma espécie de surdina que se explica em parte devido à neutralização de alguns de nossos entes comunitários, posto que se dividem entre estar “dentro” e “pensar fora”, procurando compatibilizar o que, acredito, a partir de um certo momento, se tornou impossível.

Permanecer submisso, pela omissão ou pela inércia, a falsos porta-vozes de uma unidade que não existe é inócuo. A única forma possível de se quebrar este contexto é se fazer de indesejável alternativo, mas para isto não basta um texto teórico, um artigo ali, uma ilusão acolá. Faz-se necessária a presença de uma grande organização focada no assunto, composta e apoiada por aquelas já existentes.

As facções comunitárias judaicas devem, para o bem ou para o mal, ter lideranças nítidas, que expressem posições. Hoje só vejo, de um lado, uma elite viciada em ser porta-voz escrava e sectária, tipo alinhamento automático, do governo Netaniahu, além de alguns carreiristas oportunistas do baixo clero procurando embarcar no que julgam que mais lhes convém, e de parte do segmento judaico anestesiado, alguns se deixando levar por lemas completamente ultrapassados, demagógicos, por opções violentamente obtusas, repressivas e anti-humanitárias, se não pior, para ser diplomático. Será que não enxergam o óbvio?

Projeto Calendas Gregas

Este raciocínio não é de esquerdistas, extremistas empedernidos, “humanistas” (que em Israel virou palavrão), mas, creio, de pessoas com predisposição liberal e, principalmente, com a lógica da razoabilidade e do bom senso. Este perfil eu acredito que exista em abundância e seja talvez majoritário na nossa comunidade. Quem sabe? Vejamos. Pode-se esperar moderação frente ao extremismo equivalente deste governo israelense? Nós somos os heróis e eles, os palestinos, os bandidos?

Para quem acredita nas versões propagandísticas engendradas pelas agências do atual governo de Israel, nada a declarar. Para quem tem um mínimo de dúvidas e percepção crítica e não anaboliza de primeira tudo que é chutado por aí, o caso parece ir além.

Qualquer um na posição de “eu não disse?” pode apostar, sem temer surpresas, em outra explosão de violência mais adiante, e seguidamente outra e outra, mas ficará somente com a fama de profeta do óbvio. Já são mais de cem anos de experiência comprovada.

E sempre os mesmos bordões gastos. Em vez de se circunscrever a abrangência do conflito, delimitando-o como israelo-palestino, um conflito nacional, desavisados fazem questão de incluir todos os países árabes e todos os muçulmanos, como se já não faltassem impasses. É o típico contrassenso explícito. Parece que querem um apocalipse geral e irrestrito e não uma solução pontual.

Na verdade, se alguém perguntar ao Bibi ou ao Yaalon [ministro da Defesa de Israel] qual é a solução, o plano, A ou  B, receberá respostas fragmentadas, sem nenhum horizonte visível de realização. É o Projeto Calendas Gregas. Nem bantustões, nem fronteira unilateral, nem Estado racista binacional, nem expulsão de todos os palestinos para a Jordânia, nem a morte deles (embora vontade não falte) … Não há objetivo a se alcançar.

Revelo um segredo em primeira mão: não existe plano. O governo de Israel não sabe para onde vai, não tem clareza ou certeza de aonde quer chegar, sua factibilidade e os meios para isto, a não ser construir assentamentos à larga, promover a defesa momentânea e deixar o assunto para as próximas gerações. Ele não nos diz qual o desenho que imagina para o futuro israelense. Só assinala aqui e ali o que não quer, em um empurra-com-a-barriga sem fim.

Sabe por quê? Se revelar, vem uma enxurrada de sanções. Aliás, mesmo não revelando elas já se fazem sentir. O futuro é impossível até para eles, pois sabem de sua impraticabilidade pública.

Resta o “isto que está aí”, chamado de status quo ou “administração de conflito”, mas qual seria a reação palestina para cada uma destas especulações acima e para esta corda que não se desenrola? É difícil imaginar?

A Boa Israel

Ora, se quiserem mais violência continuem a fazer o que estão fazendo, mas não reclamem, pois é mais do que sabido que a situação dos palestinos não passaria, nem passará em branco, e apostar no conflito eterno ou nas “próximas gerações” tem implicações devastadoras.

É muito fácil especular que o que está aí é vantajoso quando o fogo está brando. Israelenses só imaginam o status quo como possível quando pouco acontece, quando a dominação parece tranquila. Porém, quando os incêndios pipocam, reclamam. Imaginam que o conflito pode ser administrado com a imposição unilateral de uma tranquilidade forçada. Já os palestinos se veem perante uma ameaça existencial, para usar o jargão bibiano vigente, e a partir daí tudo é factível. É mais do que o óbvio ululante.

Eu não diria que um Estado palestino é garantia certa e absoluta do fim da violência, pois não sou futurólogo, mas garanto que sem ele ela é certa, cíclica, interminável, crescente e trágica. A prova está aí, diante dos nossos narizes, não é previsão.

Condenar as facas unilateralmente está se tornando difícil. Os ingênuos vão dizer que defendo o terror, mas desde a divulgação de que 300 crianças palestinas em Gaza foram mortas e apresentadas como danos colaterais ou escudos atrás dos quais os do Hamas se defenderiam, os bandidos passaram a se equivaler. A abjeta utilização da população civil como refém e objetivo de guerra dos dois lados é fato. A vantagem moral agora é mera propaganda para enganar ingênuos e trouxas. A guerra nivelou por baixo, como todas as guerras. Não é o bem contra o mal. É preciso acordar e ver a demagogia abjeta que esconde a realidade diária. Não fazer nada e manter o tal do status quo é a melhor garantia de que as  coisas piorem, de que a selvageria prevaleça. Perdemos Oslo e não ganhamos nada.

Será que estamos falando ao vento ou as evidências se acumulam? Estamos isolados mundialmente ou isto é propaganda de esquerdista? Não importa o mundo ou há erosão contínua da legitimidade do Estado? A demografia mostra alguma coisa ou é invenção de derrotistas? Existe opressão contra um povo ou isto é balela da oposição?

Quem tem a cabeça no lugar não deve sonhar com nenhuma Grande Israel ou Média Israel, mas com uma Boa Israel. Todas as paranoias megalomaníacas ou terminam em troças e hospício ou terminam em tragédias humanitárias. Chega um momento em que a presunção de se estar fazendo uma realpolitik esperta vira uma podridão só, injustificável, e uma sangueira sem limite. Isto é uma ponderação para lá de razoável, racional e baseada exclusivamente no que temos aí na nossa frente.

Fico pasmo que, diante do atual impasse, haja quem se julgue juiz entre as partes, quando o principal não é estabelecer quem tem razão, este combustível ideológico para a contínua confrontação. Precisamos de moderadores de postura pragmática para sair da mediocridade da soma zero e ver o que se pode conseguir para que haja dois ganhadores mas igualmente dois perdedores, pois a satisfação completa de um é a tragédia, idem, completa, do outro. Não há outra saída, possivelmente tanto para nós, judeus, e israelenses como para eles, palestinos. É isto ou a prevalência do anjo da morte.

A comunidade judaica no Rio de Janeiro e no Brasil produziu uma gama enorme de profissionais liberais, gente da academia, políticos, pessoal das artes e cultura, artistas, que na minha infinita crença, são herdeiros de um humanitarismo de fundo moral, mesmo quando ovelhas desgarradas. Está na hora de esta gente de valor, aproveitando o embalo do que acontece por aí, se incorporar a um bom combate comunitário, que não renegue suas crenças íntimas, mas se insurja contra aqueles que profanam, demagogicamente, estes pressupostos ancestrais. Ouso dizer, utilizando o coletivo nós, que temos, sim ‒ os próximos e os distantes ‒, peso, importância e responsabilidades pelo que acontece no Estado de Israel, e que já passou da hora de dar um basta audível ao que o governo israelense, desgraçadamente, promove e alimenta.

O que espero é simples: repercussão.

 

Especial para ASA

 

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

2 Comentários

  • Responder dezembro 28, 2015

    Clara Goldfarb

    Parabéns, Henrique, pelo corajoso, lúcido e cristalino texto.
    Outros, individualmente ou institucionalmente que, antes de você, fizeram críticas no mesmo diapasão, já foram taxados de antissemitas.

  • Responder janeiro 4, 2016

    Fanny Cytryn

    Infelizmente preferimos cuidar das nossas vidinhas e nos esconder pra nao ver os sofrimentos de todas as guerras onde perdem todos.

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