Estudo de caso

Ariel Sharon foi considerado pela Comissão Kahan indiretamente responsável pelo massacre de Sabra e Shatila

Ariel Sharon foi considerado pela Comissão Kahan indiretamente responsável pelo massacre de Sabra e Shatila

Apesar de aparentemente perdido o timing para algum tipo de intervenção comunitária sobre a questão da nomeação do embaixador de Israel no Brasil, já que o Netaniahu desistiu do intento, vale a pena voltar a ele como um estudo de caso.

De sua evolução na esfera diplomática, sabe-se que a comunicação pública da nomeação foi feita pelo governo israelense antes do agrément brasileiro, e o deslize, talvez não tão deslize e sim pressão indevida, serviu de pretexto formal para o governo brasileiro rejeitá-lo, através do silêncio.

Na esfera da opinião pública, a movimentação contra a nomeação no âmbito judaico, dentro e fora de Israel, começou no próprio ministério do Exterior israelense, entre funcionários e embaixadores revoltados, alcançou brasileiros lá residentes, contrários ao governo de extrema direita e aos assentamentos (meio do qual recebi a informação) e fez manchetes nos principais jornais lá e cá.

Aqui, no Brasil, além da correia de transmissão local promovida por entidades e figuras da comunidade a favor da proposta israelense, foram produzidos alguns poucos artigos de judeus brasileiros contrários a nomeação em jornais de grande circulação, mas nenhuma manifestação pública coletiva e mais ampla. Esta falta de protagonismo incomoda. O que o impediu?

A última grande manifestação de indignação coletiva judaica no Rio de Janeiro relacionada com atos patrocinados pelo governo israelense, ao que me lembre, foi por ocasião do massacre de Sabra e Chatila, lá se vão 34 anos.

Desde então, apesar do rolo compressor dos oficialistas da comunidade, nunca deixaram de estar presentes opiniões divergentes, expressas em artigos de jornais, nas redes sociais, sites ou mesmo em e-mails e posturas individuais. No entanto esta resistência não alcançou uma difusão mais ampla, ficando restrita a diversos grupos de amplitude limitada.

Abram meus olhos

Sabendo da densidade, representatividade de nomes que poderiam dela participar, sabendo da experiência organizativa de muitos deles neste tipo de manifestação, me assaltam dúvidas. Medo? Cautela? Alguma contraindicação estratégica?

Caso haja estes vetores, que explicitem suas razões para que não fique a impressão de que se fez cara de morto, de paisagem, para a questão.

Existem outros aspectos não menos importantes. Para aqueles que julgavam não ter a opinião judaica na dispersão peso na política interna israelense, esta questão seria um prato cheio para a prova em contrário. Tomemos o exemplo das próximas eleições americanas: as indicações, mobilizações e apoio financeiro de lá e de cá na comunidade dependem da posição dos candidatos no conflito israelo-palestino e nas questões dele derivadas. Claro que o exemplo deve ser adaptado, nas devidas proporções, às condições locais de todos os países, mas é perfeitamente válido.

Nada melhor que a questão do embaixador para se ter, no Brasil, uma oportunidade de exposição pública da diversidade de opiniões no segmento judaico e de contestação àqueles que pretendem monopolizar a opinião pública judaica em favor de um oficialismo israelense intragável.

Tendo como exemplo o manifesto dos ex-embaixadores brasileiros negando ser uma manifestação ideológica partidária, algo poderia ser feito pelos ‒ copiando a terminologia cristã ‒ homens de boa vontade na comunidade, agregando e não dividindo.

Poderia me estender infinitamente sobre o assunto, mas o contraponto é a amarga sensação de que estas ponderações “não pegam”, a repercussão parece ser nenhuma e o desinteresse evidente. Mudei eu ou mudou a comunidade?

O que pareceu a mim óbvio pode não sê-lo, e talvez eu não tenha percebido outras implicações. Então faço um apelo e um desafio: abram meus olhos, possivelmente míopes, respondam à questão posta.

Para requentar outros tempos, reproduzo abaixo a manifestação contra Sabra e Chatila.

Jornal do brasil

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

1 Comentário

  • Responder março 1, 2016

    Clara Goldfarb

    Essa é mais que uma matéria sobre um dos casos políticos da maior gravidade com repercussão internacional. É um libelo contra a omissão comprometedora das comunidades judaico/brasileiras. Oportuna e corajosa lembrança do criminoso episódio de Sabra e Chatila, ainda hoje tema tabu nas referidas comunidades. Parabéns, Henrique. Parabéns ao Boletim.

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