Ea judios, a enfardelar,…

judios a enfardelar

…que mandan los Reyes que passeys la mar.

No artigo de maio-junho, terminei dizendo que, “quando falamos de assuntos amorosos, é preciso olhar em várias direções, pois homens e mulheres passam por situações nas quais o amor tem papel fundamental. A continuar, já em terras alheias”. Vamos para terras alheias, mas ainda estamos com os pés em Sefarad. Parece que está sendo difícil sair; seria assim que os judeus obrigados a emigrar, salvo se se convertessem, se sentiam? Com toda certeza, sim.

Em 31 de março de 1492, no Palácio de Alhambra, Granada, a rainha de Castela e o rei de Aragão assinaram o Édito de Expulsão dos judeus de todas as terras espanholas. Foi dado um prazo de três meses para que abandonassem suas cidades ou se convertessem. Era proibido voltar ao território espanhol, sob pena de morte e confiscação de bens. Os bens de cristãos que ajudassem os judeus também seriam confiscados. Foi nesse ambiente de desespero, com todas as dificuldades para preparar a saída, vendendo suas propriedades com dificuldades e a preços baixíssimos (também não podiam levar nem ouro, nem prata), que surgiu uma canção, da qual se conservam só os dois primeiros versos, que, segundo os estudiosos, era cantada em tom de zombaria pelos vizinhos que se alegravam com sua partida (seria por maldade ou por medo de sofrerem punições? Quem pode saber?):

Ea judios, a enfardelar, que mandan los Reyes que passeys la mar…

(Eia, judeus, a enfardelar [fazer trouxas], que os Reis mandam que cruzem o mar… – tradução livre).

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Não se sabe ao certo quantos judeus saíram; os historiadores não conseguem chegar a um acordo. Segundo estimativas mais tradicionais, os que se converteram seriam cerca de 50 mil, e os que preferiram emigrar, cerca de 180 mil. Foram diversos, os caminhos que tomaram – alguns se dirigiram para Portugal (de onde foram expulsos em 1497), Navarra (expulsos em 1498), França. Desses lugares muitos se dirigiram para os Países Baixos; outros emigraram para o norte da África, cruzando o Estreito de Gibraltar. Mas a maioria preferiu dirigir-se para o Oriente. Alguns escolheram fixar-se na Itália e formaram colônias que chegaram a ter grande importância econômica e cultural; outros seguiram caminho em direção ao Império Otomano, que reunia sob sua soberania diferentes povos, línguas, religiões e culturas. Nesse império, a religião, a língua e os costumes trazidos de Sefarad foram respeitados.

O amor à terra que deixaram se reflete numa canção de amor, trazida da Península, recolhida na região dos Bálcãs. Existem diversas versões dessa canção, o que é evidente, já que foi, como a maioria das canções trazidas de Sefarad, transmitida oralmente. No entanto, seu significado foi mudando com o passar do tempo. O que se entendia como o amor entre duas pessoas, passou – com a permanência de apenas duas das estrofes – a ser interpretado como o amor por Espanha, a mãe pátria. Transcrevo uma das versões existentes, completa. As estrofes cantadas para demonstrar o amor à pátria perdida são a primeira e a terceira:

Arvoles

1. Arvoles yoran por luvias

I muntanyas por ayres

Ansi yoran los mis ojos

Por ti kerida amante

Refrão: Torno i digo ke va ser de mi

En tierras ajenas yo me vo murir

2. Enfrente de mi ay un andjelo

Kon sus ojos me mira

Yorar kero i no puedo

Mi korason suspira

Refrão: Torno i digo ke va ser de mi

En tierras ajenas yo me vo murir

3. Blanka sos blanko vistes

Blanka la tu figura

Blankas flores kaen de ti

De la tu ermozura

4. Ven veras i ven veras

Ven i veras veremos

L’amor ke tenemos los dos

Ven mo lo gozaremos

(Tradução livre: Árvores choram por chuvas e montanhas por ares/ Assim choram meus olhos, por ti, querida amante// Volto-me e digo: o que vai ser de mim? Em terras alheias eu vou morrer// Diante de mim há um anjo/com seus olhos me vê/Quero chorar, mas não posso/ Meu coração suspira// tu és branca e te vestes de branco/Tua figura é branca/Brancas flores caem de ti/ da tua formosura// vem e verás/ Veremos o amor que nós dois temos e dele gozaremos).

Essa é uma das mais emblemáticas canções sefaradis. Sua história continua. Esse canto da diáspora e do exílio, verdadeiro hino de amor à terra perdida, foi entoado, adaptando-se à inominável circunstância pela qual os judeus passaram nos campos de extermínio da Segunda Guerra Mundial. Uma das versões dizia, no refrão: “En tierras de Polonia yo me vo murir”. A versão é atribuída ao Koro Saloniko, formado em um dos campos de concentração. A melodia fazia parte também do repertório da Orquestra Feminina de Auschwitz, criada em junho de 1943 por uma professora de música polonesa, Zofia Czajkowska, por ordem da SS. Com o tempo, ela foi substituída no comando da orquestra por Alma Rosé, sobrinha do compositor austríaco Gustav Mahler, que, antes de ser aprisionada em Auschwitz, era maestrina de uma orquestra feminina em Viena. Essa mesma canção foi interpretada por Flory Jagoda, cantora e autora bósnia, durante o descerramento da placa em judeu-espanhol (ladino) no campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, a que assistiram sobreviventes e membros da comunidade sefaradi internacional.

Quantas coisas uma canção pode nos contar!

Para ouvir:

Ea, judios, a enfardelar

Arvoles yoran por luvias

Em judeu-espanhol:

com Françoise Atlan (minha versão favorita)

com Yehoram Gaon

Em espanhol (são cantadas as duas primeiras estrofes acima transcritas, com ligeiras variantes)

com Maria Salgado

Para quem quiser saber mais sobre o universo linguístico nos campos de extermínio:

https://www.um.es/tonosdigital/znum5/estudios/J-infierno.htm

Para quem quiser saber sobre a música nos campos de extermínio (relação de orquestras, músicos, composição das orquestras):

http://claude.torres1.perso.sfr.fr/GhettosCamps/MusiqueCamps.html

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

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