Dois beijos

Homework1Já conhecia o menino, de aleatórios encontros no elevador; conhecia a mãe, bela de se ver, mulher atraente de olhos bonitos e pele sedosa, curvas ainda viçosas e bem femininas; conhecia as duas irmãs do menino, moças universitárias cheias de encantos; conhecia o pai, e tinha tido com ele um entrevero por causa de vaga na garagem, anos atrás, tempo em que ainda tinha carro, coisa sem gravidade, bem resolvida pelo César, que era síndico na época.

Morador do quinto andar, aquele pai era major do Exército, era filho e neto de generais, e queria que o seu filho, que tinha custado a chegar, seguisse a linha familiar. E o menino precisava de um apoio para entrar com boas notas no Colégio Militar. Sabia que Benício era aposentado do Banco do Brasil e professor de Matemática. Pediu que desse aulas ao Serginho.

Explicou que não era professor profissional, dedicava-se a dar reforço escolar aos meninos do Salgueiro para encher o tempo com uma atividade nobre e prazerosa. Gostava de ensinar Matemática, obrigava-o a rever e atualizar o talento que teve na juventude. Ensinava também Português e Ciências, e História do Brasil, lia os livros didáticos modernos e tirava horas de felicidade em subir o morro três vezes por semana para alargar a cabeça daquela meninada alegre. Levava jeito, os meninos gostavam das aulas dele. Bem, por que não ajudar também o filho do major? Não faria de graça como no Salgueiro; tinha uma boa aposentadoria, não precisava de mais dinheiro, mas não ficaria bem dar aulas de graça para o filho do major.

Serginho tinha índole mansa, cordato por natureza, talvez um ligeiro hipotireoidismo, um pescoço cheio e redondo e uma consistência macia do corpo inteiro, uma figura agradável no todo, mas evidentemente desajustada para uma vida militar. Oh, não ia dizer isso para o major. Talvez até mais adiante alertasse a mãe para a questão da tireoide. Mas tinha vivacidade de pensamento, não era lerdo de raciocínio, dava para perceber logo nas primeiras aulas. Serginho era cordato, era dócil, era doce de temperamento, e era inteligente. E era belo, um menino de pele sedosa como a da mãe, com os olhos brilhantes como os da mãe, delicado e parecido com a mãe; nada com o major.

Eram duas aulas por semana, encontrava sempre a mãe e sentiu logo uma condutividade especial nas palavras de cumprimento que trocavam. Na terceira semana conversaram um pouquinho mais, ele passou a dona Lélia suas primeiras impressões sobre o aproveitamento do Serginho e sobre a facilidade que encontrava na inteligência e no temperamento dele. Sugeriu um cuidado médico com a tireoide e quase avançou na inadequação evidente para a vida militar. Chegou a sentir que ela quase pedia um comentário dele sobre aquela questão. Impressão. Melhor não se meter. Achava que ela tinha com ele uma afinidade na compreensão da vida, mas não devia se meter em questões de família.

No segundo mês, Benício ousou e avançou no ponto delicado, e sentiu a alma de dona Lélia a jogar-se nos seus braços, a pedir o conselho dele, a expressão de comunhão e confiança nos olhos dela, a respiração entrecortada de concordância com o que ele ia dizendo, as mãos dela a tocar as dele em agradecimento. Estavam ligados afetivamente, pronto, numa ligação que incluía Serginho sempre presente e atento, um sentimento de identificação que cresceu rápido, como se ele devesse ser o pai do menino.

Dona Lélia sempre abria a porta quando ele chegava para as aulas. Havia nos sorrisos um laço de encantamento recíproco, que foi sendo cultivado. Trocavam palavras breves sobre filmes, programas de televisão e acontecimentos do dia. Conversavam e convergiam, abraçavam-se no espaço das palavras e dos pensamentos. Benício depois revia e analisava aquele sentimento, não havia nele desejo sexual, amor de corpo, embora visse em dona Lélia uma mulher bonita e atraente. O que era aquilo, não sabia bem, mas era a coisa mais agradável da vida naqueles tempos.

Esquisitíssimo

E corriam as aulas, Serginho mostrava bastante aptidão, respondia e acertava quase sempre, resolvia equações e problemas com desenvoltura, tinha boa visão de Geometria, ia bem, prestava atenção, olhava para ele diretamente, em silêncio, olhava com admiração, com um certo enlevo que o tocava. Diferente. Benício se desvencilhava, refugava aquela atenção que lhe perturbava a concentração, sacudia o pensamento e buscava novas questões, folheava o livro. Em casa, pensava também naquele estranho comportamento que estava virando outro enlaçamento. Esquisitíssimo. Revia na imaginação os braços de Serginho, a pele alva e macia, suas mãos delicadas apalpáveis, as faces suaves e a boca de Serginho, tão feminina, igual à de dona Lélia. Era grande a perturbação que lhe traziam aquelas aulas. Crescente.

Aquilo findou por dominá-lo, a mulher perguntava aflita o que ele tinha, e não era nada, não era nada, era a perturbação inconversável. E quando Serginho solucionou bem o sistema complexo de equações e ficou olhando para ele, como a pedir que lhe beijasse, Benício descontrolou-se beijou a boca do menino demoradamente, silenciosamente, prazerosamente, e correspondidamente. Terminou e não soube mais o que fazer; pediu desculpas a Serginho que continuou olhando-o com o mesmo significado indizível, arrumou os livros na pasta e disse que tinha de sair, que não se sentia bem. Bateu a porta sem se despedir de dona Lélia.

Nunca mais. Estava decidido, nunca mais, ia pensando, procuraria o major e diria que Serginho não precisava mais, sabia o bastante para levar fácil o Colégio Militar, e que ele, Benício, havia sido chamado para ajudar e dar aulas a um sobrinho, não podia negar e não podia atender aos dois. O major compreendesse, claro ia compreender, até porque não tinha outro jeito.

E dona Lélia? Ah, o problema maior.

Se pudesse mudar de casa, nunca mais vê-la, fugiria sem pestanejar. Mas tinha de enfrentar. Pensou dois dias e subiu ao apartamento dela de manhã, no horário de colégio e faculdade dos filhos. Sereno e cuidadoso, e carinhoso, verdadeiramente carinhoso, não precisava fingir nada, construiu a sua explicação, disse do seu amor por ela, tirou da alma aquele amor, era fácil dizer algo que poderia sentir perfeitamente, seu amor incontrolável, e impossível para ambos, não ousava, nunca ousaria pedir a correspondência dela, ambos tinham famílias indestrutíveis. Pediu perdão pela decisão de fuga que tinha tomado, e vinha lhe dizer com o coração dilacerado. Não chegava a ser fingimento, não era difícil dizer aquilo tudo no tom de verdade convincente.

Dona Lélia não disse nada; sentada na poltrona de frente para ele, escutou, e os olhos lhe foram marejando, uma lágrima escorreu, Benício levantou-se, percebeu que tinha de sair, sem saber como, pediu que desculpasse, mas não podia mais ficar ali, deu-lhe a mão para que ela se erguesse e se despedissem. Ela se levantou e ficou olhando-o de frente, o olhar de amor franqueado e desatado. Abraçaram-se. Beijaram-se. Silenciosamente. Demoradamente. Não voluptuosamente, mas muito amorosamente.

Teve ainda a conversa com o major Sérgio. Curta e objetiva. E sincera, não foi difícil. Benício lhe disse cordialmente, quase fraternalmente, que achava que Serginho tinha grandes talentos, inteligência e sensibilidade, mas não para a vida militar. E o major Sérgio escutou. Com interesse, não com revolta. Deu para perceber que ia pensar honestamente no assunto.

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

Roberto Saturnino Braga

Foi prefeito do Rio e senador da República. É colunista do Boletim ASA.

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