Depois da ressaca

Sem-teto em Israel

Sem-teto em Israel

As forças de centro-esquerda e principalmente o chamado Bloco Sionista, a partir de duas semanas antes das eleições parlamentares em Israel, estavam exultantes, pois as pesquisas dos três grandes institutos previam sua vitória com uma diferença crescente que chegava a quatro deputados a mais que o Likud.

Muitos articulistas elogiaram a estratégia eleitoral adotada pelo Bloco, que priorizou os assuntos internos e o mal-estar gerado por uma intensa acumulação de renda por parte de uma minoria, ao lado de crescentes problemas sociais. Proporcionalmente o conflito externo mais abrangente com os palestinos ficou em segundo plano,  omitido, de propósito, no pressuposto de que não seria esta a preocupação predominante no eleitorado e também o ponto mais delicado a ser exposto ao público, visto o frenesi vigente em Israel em torno de um falso conceito de segurança.

Na boca de urna, no entanto, o resultado foi outro ‒ empate ‒, e, no dia seguinte, o desastre, uma diferença de seis cadeiras em prol do Likud! Todos enfatizaram o fracasso das previsões eleitorais dos institutos de pesquisa. Isto, é provável, não se deve exclusivamente aos métodos utilizados, mas à própria ambivalência do eleitorado, que se recusou a “abrir o jogo” quando consultado, “despistando”, induzindo assim falsas previsões.

Apesar das flutuações entre os resultados desta e da eleição anterior, o que aconteceu foi mais do mesmo, isto é: somados, não os resultados partidários fragmentados, mas os campos ideológicos, as proporções continuaram quase iguais, com a predominância da chamada centro-direita, direita e extrema direita. Em off, os israelenses disseram sim ao status quo. Até mesmo entre os palestinos israelenses, com a formação surpreendente de uma coalizão entre todas as suas tendências, o resultado quase expressa a mesma soma aritmética das cadeiras que antes possuíam separadamente.

Um palestrante israelense convidado ao Rio de Janeiro para expor os resultados eleitorais, assim os resumiu: a periferia venceu o centro. A camada dos judeus israelenses mais carentes, composta de descendentes dos judeus da África, principalmente dos marroquinos, habitantes de cidades pobres, votou Likud, seguindo um alinhamento tradicional.

Portanto cá estamos no mesmo ponto.

Vozes das comunidades

Com Bibi, desafiando tudo e todos, achando-se com um rei na barriga, é cada vez mais longínqua a expectativa de uma reação produzida pelo eleitorado israelense. A tecla eleitoral mais acionada pelo primeiro-ministro foi o alarmismo e o temor frente aos inimigos externos, âncora principal de sua propaganda, que despertou no eleitorado uma espécie de medo e paralisia confortável, sintoma em que o futuro (a promoção de um apocalipse) trava o presente, promove a inação, a negação de qualquer movimento de mudança em nome de um status quo ilusório. Deste eleitor cooptado nada virá a não ser que haja uma mudança de circunstâncias com características traumáticas.

Resta a possibilidade de as pressões externas exercerem o papel rechaçado pelo eleitorado. Temos aí uma série de pistas convergentes que esboçam a possibilidade de diferentes formas de pressão e um isolamento político crescente de Israel. Agrego a estas possíveis reações não somente as grandes potências, a opinião pública, os boicotes, mas as diferentes comunidades judaicas. A princípio vozes isoladas ousaram dizer ao senhor Bibi que ele ou sua corrente de opinião não representam nem a voz do povo judeu, nem sua única expressão política. Depois se formaram em algumas comunidades, organizações que representam alternativas políticas completamente antagônicas, (como o J Street nos Estados Unidos e o JCall na França) reafirmando que o mundo judaico, nem na modernidade, nem no passado, se expressou por uma voz única, sendo qualquer pretensão a respeito uma usurpação arbitrária.

Então, em vez de assistir, distante, desorganizada e passivamente a esta erosão de um patrimônio comum, faz-se necessário, para aqueles com esta visão política, incorporar-se aos que lutam por Israel, mas igualmente lutam contra este governo de Israel, dado que uma opção implica necessariamente a outra.

Uma das vantagens nesta postura é que não pode ser apresentada como corpo estranho no mundo judaico e nem como quinta-coluna, como propagam demagogos e extremistas de carreira. Os judeus fora de Israel tanto expressam um segmento da opinião pública mundial quanto uma parte constituinte dos grupos de pressão na política interna israelense, dado relevado e combatido quando estes se opõem às posições vigentes, mas abençoados quando constituem um lóbi político a favor.

Em resumo, a pretensão de salvar Israel de si mesma pressupõe também a possibilidade legítima de intervenção do mundo judaico na condução política dos acontecimentos. Isto já sucede, embora desigualmente. Há que se levantar organizações alternativas ao oficialismo cego vigente. Resta desbravar tal opção.

Boletim nº 154 – maio/junho de 2015 – Ano 24

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

1 Comentário

  • Responder maio 4, 2015

    Theodor

    ASA
    Excelente artigo. Artigo lúcido e com boa sustentação política. Parabéns ao jornal.
    Theodor Lowenkron

Deixe uma repost