Como tudo começou

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Comunidades Judaicas nos Subúrbios da Central do Brasil

org. por Ana Antabi e Rachel Niskier

Rio de Janeiro, Museu Judaico do Rio de Janeiro e Letra Capital Editora, 2014

       195 págs.

A obra é resultante de um trabalho de pesquisa oral. Focaliza os primeiros moradores judeus estabelecidos em bairros incipientes, como Madureira, Méier, Todos os Santos, Engenho de Dentro, Marechal Hermes, Sampaio, Rocha, Engenho Novo, Pilares, Cascadura, Lins de Vasconcelos, e no município de Nilópolis. São setenta vozes que nos contam como foi o começo de tudo, ao longo de deposições pontuais, concisas e informativas. Elas invocam a existência judaica nos subúrbios, seus problemas, soluções e desenvolvimentos comunitário e individual, com realismo e objetividade. Judeus polacos, russos, alemães, romenos, bessarábios, tchecos, ucranianos, alguns deles escapados por um triz das manoplas nazistas, foram se estabelecendo ao longo da famosa via férrea Central do Brasil, no perímetro do Rio de Janeiro.

Os setenta depoentes selecionados para esta coletânea revivem o passado dos expatriados e dos brasileiros natos e suas famílias. O Museu Judaico do Rio de Janeiro incentivou a publicação do livro, coordenado pelas voluntárias indicadas no cabeçalho, mais Isabela Waga, que não chegou a ver o trabalho impresso. Este se divide por vinte e duas áreas, mais um Glossário e uma lista bibliográfica. A Apresentação inclui artigos de Max Nahmias, presidente do Museu; Arnaldo Niskier, da Academia Brasileira de Letras; um ensaio de Helena Lewin, professora de Estudos Judaicos na Universidade do Estado do Rio de Janeiro; e prefácios de Ana Antabi  e Rachel Niskier. Tais introduções nos levam a entender os entornos histórico, social e político que cercaram e intervieram nas vidas incipientes dos expatriados judeus naquela região fluminense. Seus relatos são agrupados por temas, como “A partida”, “Adaptação/nova pátria”, “Cultura/Lazer”, “Mulheres”, “Preconceito”, “Tradição”, “Pais e filhos”, “Ideologia política/Movimentos juvenis”, “Segunda Guerra Mundial / Uma nova imigração”, e mais outros igualmente descritivos da convivência imigratória nas cidades ao longo da via férrea.

Der Jude

Recortes de algumas das declarações são aqui expostos: “Meu avô paterno e meu avô materno vieram antes das famílias por causa da situação econômica” (Tânia Zaguri, p. 43); “Meu pai era muito conhecido em Madureira. Ele tinha a loja, mas era formado em Odontologia e o consultório era em cima da loja” (Miriam Grossman, p. 53); “Grupos teatrais que vinham para o centro iam se apresentar em Madureira. Isaac Lubeltschik levava para lá todos os artistas idish. Os shelichim que vinham ao Rio eram recebidos pela comunidade de Madureira. Lá estiveram Birtitsky e Leo Halperin, entre outros” (Raul Averbuch, p. 61);  “Em casa eu tinha uma geladeira a gelo, o que já era um luxo na época, e um fogão a carvão. A gente colocava o carvão, botava álcool no meio do carvão e acendia o álcool com um fósforo. Era preciso abanar: quanto mais se abanava, mais depressa a comida cozinhava e ficava pronta. Era 1945, fogão a gás, e de bujão, só anos mais tarde. … Eu cozinhava a comida idish, mas, não usava carne kosher. Não havia shoichet. Eu fazia muitas compras na venda idish do Sr. Koperstik: salame, creme de leite, arenque, pão preto, cevadinha, kashe. Lá havia de tudo” ( Chana Knoplech, p.69). (No Glossário, as palavras em itálico são explicadas.)

“Olga! Der Jude ist gekommen!, a alemã anunciava para a irmã, que o menino judeu havia chegado para a aula particular de Matemática. Foi talvez uma das pouquíssimas vezes em que me vi discriminado em minha condição judaica. Dr. Penna era um engenheiro aposentado da EFCB – Estrada de Ferro Central do Brasil, que dava aulas em casa. Era casado com uma alemã, cuja irmã solteirona morava com eles, e não parecia regular muito bem. Talvez não soubesse que eu entendia. Contei para a minha mãe, que chorou” (Israel Blajberg, p. 79). “Apesar de viver longe da comunidade, as constantes visitas à minha avó materna (os avós paternos moravam em Salvador), que vivia no Estácio e depois no Rio Comprido, não nos deixavam fora do foco do judaísmo. Meu avô sempre lia o Velho Testamento para nós e minha avó tratava de nos ensinar Idish. Além disso, em Santa Cruz e depois em Campo Grande, todos nos identificavam com gringos: pelo sobrenome, e também porque nunca escondemos nossa origem” (Miriam Halfim, p. 90).

Em “Ideologia política/Movimentos juvenis”, com um número maior de depoentes do que as demais seções (também bem preenchidas com deposições),  Sara Neuman revela: “Nossos pais não eram religiosos, mas muito tradicionais e idishistas. Eram também progressistas” (p. 114). Feiga Sara Lewkowicz  conta: “Em 1952, saímos de Cascadura e fomos para o Méier. Foi lá que comecei a participar de atividades culturais, conheci senhoras que eram chaverot da Wizo e senhoras do grupo de mães da Escola Bialik” (p. 119).

Enquanto foi possível, judeus escapavam da Europa para outros países e, entre estes, o Brasil, como declaram na seção “Segunda Guerra Mundial – Uma nova imigração”. São também inúmeras as deposições, visto que cobrem período anterior à guerra, como o de Moses Sender: “Viemos para o Brasil fugindo do nazismo da Alemanha com passagem pela Bélgica, onde ficamos um ano no aguardo da ordem de embarque que seria dada pelo Relief (organização dirigida pelo Barão Rotschild, com o fito de auxiliar os fugitivos do nazismo). Embarcamos no dia 1° de maio de 1934, no cargueiro Astrida  e aqui chegamos a 24 de maio de 1934. Fomos encaminhados à Baixada (Nilópolis) …” (p. 132).  Relatos sobre os efeitos do Holocausto são resumidos no depoimento de Josef Hersz Lewkowicz: “Chaim e Avrum, os dois filhos que ficaram na Europa, sofreram com a 2ª Guerra Mundial. Conseguiram fugir da Polônia para a Rússia, onde trabalhavam costurando uniformes militares. Avrum morreu de tifo, na rua. Chaim, o mais velho, sobreviveu e chegou ao Brasil em 1947” (p. 135)

Nesta obra ressaltam-se espontaneidade das lembranças e o teor pessoal de todas elas.   São deposições isentas de sentimentalismos frouxos pelos bons momentos, ou autopiedade pelos anos duros que atravessaram. Na contracapa do livro, Ester Kosovski observa: “Obras de consulta desta natureza não podem faltar nas estantes de quem se interessa pelo contexto sócio-histórico da inserção dos imigrantes na sociedade maior.”

Em resumo, são valiosos depoimentos que devem ser lidos por todos, visto que nosso passado é território que não pode e não deve ser abandonado.

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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