Como incomodam!

Manifestação de movimento judaico pelos direitos humanos, Buenos Aires

Manifestação de movimento judaico pelos direitos humanos, Buenos Aires

Todo grupo humano transforma a sua composição original. A coletividade judaica argentina não esteve nem está à margem do que ocorre no país. Firmemente enraizada, participa dos acontecimentos políticos e sociais e experimenta todas as suas alternativas.

No começo, a enorme maioria ‒ imigrantes e a primeira geração de filhos ‒ integrava os setores populares: eram operários, empregados, trabalhadores autônomos, camponeses, pequenos comerciantes e industriais.

Metamorfose

O tempo e o desenvolvimento econômico argentino permitiram uma crescente ascensão, modificando a sua condição socioeconômica. Essas transformações influíram em suas concepções políticas e ideológicas.

Dada a essência operária e popular das primeiras gerações, muitos simpatizavam ou militavam em diversas correntes de esquerda e, em alguns ramos de produção (têxtil, madeira, comércio), tiveram papel destacado na formação dos respectivos sindicatos. Quando passaram a integrar os grupos sociais das classes média e média-alta, abandonaram aquelas posições, inclinando-se para o centro ou para a direita.

Dois fatores, em fins da década de 1940, modificaram substancialmente o perfil social, político, ideológico e cultural da comunidade.

a-  Uma progressiva ascensão social e econômica  de vastos grupos.

Clientéltchiques, artesãos, trabalhadores autônomos, pequenos comerciantes, operários, empregados se transformaram em médios e grandes comerciantes e/ou empresários, produto das políticas, fundamentalmente, de expansão do mercado interno do período peronista. Muitos filhos daqueles imigrantes tiveram acesso aos estudos universitários (a Educação argentina é pública em todos os graus, com bom nível acadêmico) e se converteram em profissionais qualificados ‒ de “colarinho branco” (bancários, administrativos, cientistas, docentes, intelectuais) a advogados, engenheiros, médicos, contadores. Outros passaram a integrar a pequena e média burguesia, alguns até subindo mais na escala social e incorporando-se à alta burguesia (como banqueiros, empresários de meios de comunicação e da indústria nacional, funcionários de corporações estrangeiras).

b-  O surgimento do Estado de Israel.

O sionismo ‒ até então ocupava um espaço importante, mas logo entrou em disputa com o progressismo ‒ assumiu a liderança e obteve a adesão de amplos setores comunitários. A realização da utopia redentora da criação de um Estado próprio, reivindicado diante dos massacres nazistas perpetrados durante a Segunda Guerra Mundial, serviu como catalisadora de certas correntes nacionalistas já existentes. E se acrescentarmos que o projeto do Estado de Israel tinha uma certa auréola socializante, de empreendimento pioneiro e heroico, compreenderemos por que certas correntes progressistas abraçaram essa proposta.

Antissemitismo

As classes dominantes argentinas ‒ católicas e conservadoras ‒ tiveram um componente antissemita. O nazifascismo colaborou para a tradicional judeufobia com um argumento racista. A derrota da República Espanhola pelo franquismo lhes deu força e capacidade de ação.

Durante décadas, formações políticas, dirigentes e publicitários fizeram do antissemitismo a sua bandeira através de libelos e grosseiras acusações, como a venda da Patagônia para instalar um Estado judeu (Plano Andínia) e o controle do sistema bancário e dos meios de comunicação.

As Forças Armadas e de Segurança receberam durante muito tempo uma feroz doutrinação política antissemita. O próprio ingresso nas escolas militares estava tacitamente vedado aos judeus. Tais concepções foram incorporadas pelos bandos que perpetraram a repressão ilegal durante as diferentes ditaduras.

Sua expressão máxima foi a ditadura civil-militar de 1976-1983. Em 1976, os judeus argentinos não chegavam a 0,8% da população total. Contudo, uns 2 mil jovens judeus integram a lista de detidos-desaparecidos, representando quase 7% das vítimas do terrorismo de Estado, o que mostra uma sobrerrepresentação dos judeus nesse aspecto.

A hierarquia eclesiástica não apenas não se manteve à margem, como ofereceu potente suporte a esses critérios. Muitos sacerdotes manifestaram uma judeufobia primitiva e cínica verbalmente e por escrito, defendendo disparates como “a conspiração universal judaico-comunista”.

Também o Poder Judiciário participou desse tipo de discriminação. É muito difícil encontrar juízes judeus nos  tribunais superiores e na magistratura.

Crise e emigração para Israel

Alguns grupos halutsianos foram para Israel em diversos momentos, entusiasmados com o projeto que, para eles, sintetizava judaísmo + socialismo.

No entanto, algumas ondas coincidiram, não por acaso, com circunstâncias históricas concretas na Argentina. No início dos anos 1960, o grupo católico de direita Tacuara ‒ e sucedâneos ‒ atuou com muita violência contra a coletividade judaica, fazendo  pichações injuriosas, jogando  bombas em instituições, provocando enfrentamentos de rua  e chegando ao sequestro e tortura da jovem Graciela Sirota e à morte do estudante comunista Daniel Grinbank. Esse período registra um bom número de emigrantes rumo a Israel.

Com a ditadura de 1976-1983, muitos jovens judeus vinculados a organizações de esquerda encontraram refúgio em Israel; algumas vezes com colaboração diplomática, outras, como uma saída individual.

Finalmente, com a brutal crise do neoliberalismo (fins dos anos 1990 e início dos 2000), muitos judeus, uns jovens e outros nem tanto, também foram para lá, por motivos basicamente econômicos. A debacle destruiu grande parte das pequenas e médias empresas, nicho ao qual  esses grupos estavam estreitamente ligados.

Atualidade

A maioria dos judeus argentinos não está institucionalizada, mas, sem ser sionista nem religiosa, tem um senso de identificação muito forte com o Estado de Israel, o que faz com que aceite de forma acrítica quase tudo o que diga e/ou estabeleça o seu governo.

Os atentados contra a Embaixada de Israel (1992) e a AMIA (1994), ainda impunes, foram um verdadeiro divisor de águas dentro da comunidade. Os dirigentes da DAIA optaram por se acumpliciar com os acobertamentos e outras manobras dolosas, o que levou grande parte dos familiares das vítimas a se organizar (Familiares 18J, Memoria Activa, APEMIA) para exigir o esclarecimento dos fatos, contando com o apoio e adesão das entidades fora da DAIA.

As ações do governo de Cristina Kirchner (Memorando com o Irã) aprofundaram as diferenças, agravadas com a morte do promotor Nisman, que, encarregado de investigar o atentado contra a AMIA, em quase uma década não produziu quase nada e terminou denunciando uma suposta intenção governamental de conceder impunidade aos presumíveis acusados.

O establishment comunitário incorporado pela DAIA se autoatribui a totalidade da representação política da comunidade judaica. As suas posturas conservadoras (em relação aos cemitérios, à Educação e ao Estado) e servis às políticas do Estado de Israel a fazem descambar para a direita.

Junto com o ICUF surgiram outras correntes e agrupamentos de esquerda, alguns como produto de divisão, outros, de gênese própria. Em um vasto e complexo processo de unidade, coordenação e disputa, organizações, personalidades e independentes constituíram o Llamamiento Argentino Judio, cujo propósito é dar visibilidade e presença a um amplo setor que não se identifica com a DAIA e que, inclusive, não se vê representado por nenhuma instituição.

Conclusão

A coletividade judaica argentina, apesar de seu número reduzido ‒ estimado em 180 mil a 200 mil ‒, é muito dinâmica e ativa. Uma certa bonança econômica lhe permitiu evoluir dos setores populares para os médio-altos (ainda que existam judeus pobres). Ela está presente em quase todos os aspectos da vida social. Como dizia um velho militante judeu comunista: “Tão poucos, e como incomodam!”

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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