Brexit e Breshit

Resgate de refugiados judeus em Naharia, jan. de 1948

Resgate de refugiados judeus em Naharia, jan. de 1948

O Brexit foi mais que um aviso prévio. É o próprio ovo da serpente em nova modalidade, gênesis (breshit em hebraico) de possíveis novas catástrofes humanitárias.

Objetivamente, nada, absolutamente nada será favorável ao Reino Unido e sua população a partir desse recente plebiscito. Nele, o grande vencedor foi o medo de ameaças ilusórias de refugiados e não refugiados (acreditem: de poloneses, romenos e búlgaros) inculcadas pela extrema-direita, por populistas e demagogos em cima das frustrações tanto do operariado quanto dos idosos ingleses.

Mas o que fazer, visto que decisões deste teor são e podem ser novamente legitimadas pelo voto? Como montar resistências frente a uma decisão baseada em pressupostos da soberania popular?

Isto, como judeus, nos diz respeito. Lembra desfechos antigos. Como teria sido possível barrar Hitler em 1933 depois de uma eleição que o consagrou? Sabemos que instâncias internas e externas de então fracassaram nessas tentativas, e assim os judeus daquela época ficaram vagando entre rejeições estatais, portos e fronteiras fechadas, e uma opinião pública hostil aos estranhos inassimiláveis. Depois veio o Holocausto. Os refugiados de hoje repetem, passo a passo, aqueles nossos momentos trágicos.

A mesma pergunta pode ser estendida à atual hegemonia da extrema-direita racista em Israel, na qual fundamentalistas, nacionalistas xenófobos e fascistas usam os mesmos argumentos do medo, ascendem politicamente e são produtores de mais violências explícitas, racismos e sacrifícios humanos: qué hacer?

Não se enganem

Por analogia, União Soviética, França, Inglaterra e Estados Unidos nos pré-guerras da década de 30 do século passado, com seus oportunismos, ambiguidades, recuos e isolacionismos, foram os principais responsáveis pelo avassalador crescimento e expansão do nazismo no continente europeu, fora adesões e simpatias de outras nações menos importantes dentro e fora do continente europeu naquele contexto.

Os excessos de uma ditadura como, por exemplo, no caso da Argentina, são somente assunto interno no qual países estrangeiros não devem interferir, ou são um assunto que diz respeito a todos os países? Por diversas razões e contextos, às vezes as grandes potências se omitem na denúncia. Quando há uma certa convergência (como no caso da África do Sul racista), cria-se uma espécie de consenso de que a política interna de um país é uma ameaça coletiva a todos, o que pode gerar ações  coletivas relevantes  como restrições, boicotes etc.

Não foi outra a resposta, embora tardia, dada na Segunda Guerra Mundial, promovendo a paradoxal aliança contra o nazi-fascismo entre a URSS e os Estados Unidos. Naquele contexto, a atitude de um conjunto de nações e setores da opinião pública mundial foi vital para deter o terror inumano disfarçado de patriotada racista e promovendo perseguições e destruições devastadoras.

Os menos informados podem supor que hoje os tempos são outros e que barbaridades não se repetem. Ora, ora, não se enganem. Examinem a violência dos discursos de certos segmentos europeus e outros não europeus, primeiro estágio destas propensões.

Negociações dissuasórias, pressões internacionais, boicotes, todo o instrumental disponível de sanções e mesmo intervenções, em momentos-limite, são mais do que legítimos com métodos de contenção e dissuasão destas tendências destrutivas porque, do contrário, seu significado último será a morte por atacado. Veja-se o caso do Estado Islâmico.

Um humanismo, este sim ingênuo, acreditou em um progresso sempre para frente e para o alto em uma espécie de autoaperfeiçoamento da nossa espécie. Isto não existe em si, e se temos esta ilusão é porque nós inventamos esta possibilidade e tentamos pô-la em prática em uma constante e imperfeita tentativa de sobrepô-la a obscurantismos de todos os matizes. Mas é uma luta por vezes inglória.

Parece que estes tempos, infelizmente, são um destes momentos ou sua antessala.

Especificamente, para nós, judeus, é doloroso vermos discursos e ações produzidos em Israel cujo conteúdo e finalidades nos envergonham e podem ser enquadrados na mesma onda de extremo-direitismo que assola a Europa, afora grupos judaicos e israelenses que apoiam o Donald Trump et caterva!

Em termos apocalípticos, pode-se perguntar de onde virá a salvação. O que se vislumbra não é uma surpresa provinda de algum ente messiânico e exterior aos atores presentes, e muito menos de um único segmento ideológico.

Usando uma expressão cristã, a esperança está nos “homens de boa vontade” ‒ expressão inexata e perfeita para designar aqueles que têm especial sensibilidade às ameaças de barbárie latentes e presentes em nossos dias.

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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