Berlim me engana?

Ruína Igreja 1945

Ruina Igreja hoje

Ruínas com a igreja ao fundo – 1945 e hoje

Volto de Berlim. Obrigo-me a um relato, pois a cidade não é (ou não deveria ser), para um judeu, somente um ponto turístico. Minha memória sobre o assunto Alemanha-Holocausto consegue regredir até a década de 1950 no Rio de Janeiro, na qual tanto a direita judaica quanto a esquerda rejeitavam o pagamento de indenizações alemãs, mas minha mãe bem que tentou se inscrever no escritório de advocacia de Samuel Malamud. Adiante, aquele estranhamento, desconforto, no encontro com pessoas de origem germânica, dificuldade que perdurou muito tempo. Viajar para conhecer aquele país, nem pensar, era tabu.

Depois de 70 anos da rendição alemã ainda é longo o braço da História, e o capítulo Holocausto e suas consequências ainda estão por aí de diferentes formas. Tomamos ainda conhecimento de casos e mais casos, inclusive no Brasil, de encontros e desencontros de elos perdidos, mas concomitantemente, famílias judaicas requerem, hoje, na Alemanha, uma segunda cidadania, e o país é o lar de centenas de milhares de judeus, inclusive sabras.

Logo que chego a Berlim, observo pessoas que imagino serem de minha faixa etária, acima de 65 anos, e penso: estes são os filhos daqueles que foram partícipes, de uma forma ou de outra, da aventura nazista; será que no âmbito familiar algo foi repassado pelos seus pais? Como se veem os netos, já relativamente distantes daquele período?

Independentemente destas sombras Berlim é, simplesmente, uma cidade superlativa na perspectiva de meu olhar carioca. Tudo nota dez, desde a arquitetura ousada até, ao nível da minúcia, todos os outros aspectos urbanísticos. Claro, sou turista e daí o exagero.

Observo a juventude pela rua e tenho a impressão de uma Alemanha desinibida, alegre, aberta e colorida, mas me pergunto como é possível conviver com um passado tão tenebroso? Respondo a mim mesmo: toda ferida cicatriza e afinal, ninguém é obrigado a pensar nisto obsessivamente. Tento analogias: será que o brasileiro comum se sente responsável pela escravidão ou outras barbaridades passadas? É uma questão de tempo? Existe uma consciência coletiva? Será que a chamada sociedade civil reflete sobre as suas conivências passadas?

Quase não mantive conversa menos formal com os nativos, no caso, principalmente, pessoas trabalhando em serviços, hotéis, restaurantes, museus ou lojas, sempre extremamente solícitas e todas, sem exceção, falando um inglês fluente para lá do básico. Ah, se este fosse um padrão brasileiro…, comento com os botões e suspiro. Além do inglês, me espanto vendo eu e minha esposa desenterrarmos o ídish do fundo de nosso passado e constatar que podemos manter diálogos nesta língua agonizante. E isto também é parte desta história.

Sempre eles, nunca nós

Visitei as referências judaicas ao meu alcance: o polêmico monumento dedicado ao Holocausto com seus blocos assimétricos; o Museu Judaico, seu zigue-zague e emaranhados arquitetônicos que desnorteiam, seu jardim inclinado que desestabiliza o visitante, seus lugares de vazio e ausência. Na mesma região, fui à antiga sede da Gestapo, hoje lugar de uma exposição permanente intitulada Topografia do Terror. Passamos pela velha sinagoga principal da comunidade, em parte destruída na Noite dos Cristais e depois reconstruída, principalmente uma de suas torres douradas; entrei no centro comunitário que ficava em frente à janela de nosso quarto de hotel e que exibia na entrada incorporada a um novo prédio a fachada de pedra da sinagoga destruída no mesmo local, em 1938. Finalmente, percorremos o Museu da História Alemã com uma de suas alas também dedicada ao nazismo, ao antissemitismo e ao genocídio.

Aliás, é fácil identificar um prédio da comunidade: permanentemente guardado, dia e noite, por pelo menos dois policiais e cordões de isolamento. Mais um ingrediente nesta mistura de sensações.

No entanto, o testemunho histórico mais relevante encontrei nas ruas. Nestes 70 anos da rendição alemã a cidade distribuiu em muitos pontos verdadeiras miniexposições sobre aqueles tempos, tirando do baú e reproduzindo, em grande tamanho, fotografias de época que mostram a destruição da cidade e as carências de seus habitantes naquele momento (maio de 1945), mas sempre tiradas exatamente nos mesmos locais de cada uma destas exposições. Vemos a fotografia de época e, no mesmo ângulo e distância, bastando dar um passo para o lado ou esticar a cabeça, nos deparamos, ao vivo, com o mesmo local e sua exuberante situação hoje. Do ponto de vista de planejamento e do foco, é de bater palmas.

Todas estas exposições, evidentemente, se fazem sob a égide da reconstrução. O expectador é inserido na analogia entre o antes e os 70 anos depois, fazendo do empreendimento não só uma exposição do passado, mas um motivo de orgulho presente. Seria este, para um judeu, o melhor enfoque ou estou sendo um etnocêntrico exigente demais?

Do ponto de vista formal todas as manifestações assinaladas, sem exceção, trazem textos politicamente corretos sem nenhum aparente arranhão no tom antinazista. Mas o período sempre é citado na terceira pessoa, eles, a desgraça que eles praticaram e que eles trouxeram, e nunca com o provocativo pronome nós ou um similar aproximado capaz de sugerir as conivências passadas e talvez abrir espaço para reflexões oportunas.

Um único senão fotográfico, se é que se possa chamar assim, estava exposto no museu da Gestapo. No meio de uma farta exibição visual da selvageria pátria naquele período, uma foto meio perdida mostra dois soldados russos incomodando mulheres locais e, na legenda, a acusação de que o comando militar soviético teria liberado seus soldados para o estupro de alemãs em Berlim durante certo tempo. Nada contra, desde que seja a expressão da verdade, mas reflito baixinho e envergonhado, largando o politicamente correto: não deixa de ser o aleijado falando do coxo.

Memória judaica

A mão do Estado não deixou nenhuma ruína passada sem serventia, esmerando-se tanto na reconstrução exata de cada prédio histórico na cidade a ponto de o visitante não sentir que está vendo não o original, mas, em muitos casos, uma cópia perfeita. A cidade fervilha de intervenções restauradoras, reformando, reconstruindo, modernizando cada centímetro de seu passado. Concomitantemente, vemos o passado nazista horroroso se transformar, de certa forma, em uma possibilidade de atração turística, porém senti, visitando feirinhas de antiguidades, o cuidado em não se expor objetos identificados com este perfil. Só vi, por exemplo, capacetes e uniformes americanos de época. Nenhum capacete alemão, nadinha. Pelo viés das feirinhas, Hitler não existiu. Chego à conclusão de que talvez seja infração expor estes recuerdos.

Perante estas facetas do milagre berlinense procuro alguma forma de interpretação que me envie para uma compreensão totalizante de todos estes aspectos e verifico que não consigo. De nossa experiência judaica trazemos o desprezo pelas acusações coletivas, como aquelas formuladas, por exemplo, contra os judeus de todas as épocas. Pensando nisto, vejo que nos dias atuais, apurados tantos outros genocídios, seus praticantes os negam veementemente ou silenciam a respeito, nunca trazendo o problema para a órbita do remorso e arrependimento formal, do bater no peito, da consciência pesada, muito pelo contrário. Por que os alemães seriam diferentes? Por que manter as mesmas acusações para as gerações alemãs posteriores ao nazismo? Podemos ainda conservar aquela distância e dificuldade somente de ouvir a língua alemã?

Sei que nestes pontos posso estar assinalando algo que possivelmente só é pertinente à minha geração, por sermos de certa forma ainda os filhos do Holocausto, através dos nossos pais, de suas e nossas perdas familiares.

O Holocausto, hoje em dia, tem um peso na memória judaica equivalente ou maior do que o Tanach. O jovem pode não saber nada das narrativas bíblicas e de religião judaica, mas não consegue se desvencilhar deste conhecimento. É uma identidade baseada no trágico. Este deve ser o caminho pedagógico ou um único caminho?

Não podemos e nem devemos querer que atitudes preconceituosas se transmitam adiante. Os jovens alemães não têm que pagar indefinidamente a contabilidade das culpas, mas aprendi que é à luz da exposição de fatos passados que se lhes proporciona a possibilidade de fazer leituras/releituras, elaborar enfoques diversificados, seleções e reflexões sobre caminhos futuros, inventar o que serão, mesmo a partir de heranças sombrias. É aí que o passado encontra o presente.

Não tenho, hoje, remorsos de visitar Berlim, inimaginável em outros momentos. Curti sinceramente sua beleza e dinamismo.

A concepção arquitetônica do Museu Judaico local inclui lugares vazios, escuros, buracos negros para lembrar uma comunidade que se foi, para sempre irreproduzível. Independentemente de nossa expressão maravilhada frente à cidade reconstruída e do reconhecimento de que aquele nazismo caminha para ser História e não somente a memória de um grupo, sentimos, eu e minha esposa cuja mãe, recentemente falecida, foi sobrevivente do Holocausto e teve como seu fardo, depois de Sandomierz, Lodz, Auschwitz, o campo de trabalho forçado de Ravensbruck, no norte da Alemanha ‒, em certos momentos deste passeio, a ainda esmagadora sensação de um vazio que não se apaga. Assim caminha a Humanidade.

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

Seja o primeiro a comentar