Bergman: rabino, ministro, operador político?

Sergio Bergman e Mauricio Macri

Sergio Bergman e Mauricio Macri

Sergio Bergman é um rabino argentino. Foi nomeado ministro do presidente Macri para o Meio Ambiente. Fez o juramento sobre um exemplar da Bíblia hebraica. Em 2011, o rabino Bergman foi postulante independente ao cargo de prefeito da cidade de Buenos Aires, mas pouco depois retirou a sua candidatura para encabeçar a lista de deputados do PRO.

Bergman foi o único ministro novo a utilizar esta Bíblia, já que os demais juraram sobre a Bíblia cristã. Acredita-se que seja o único rabino a servir como ministro fora de Israel. A sua nomeação foi elogiada pelas entidades do establishment judaico argentino e também pela Conib, organização que reúne as comunidades judaicas brasileiras.

Bergman não é o único funcionário judeu do alto escalão na equipe de governo. Também o são Claudio Avruj, na secretaria de Direitos Humanos, e Waldo Wolff, deputado. Os três têm em comum o fato de haverem ingressado nos estratos do poder pela mão do PRO ‒ partido conservador, de direita, hoje no governo ‒, além de terem integrado as altas esferas da Delegación de Asociaciones Israelitas Argentinas (DAIA), entidade que se atribui a representação política da comunidade judaica argentina.

Waldo Wolff foi seu vice-presidente; Claudio Avruj foi diretor do Museu do Holocausto, diretor executivo (1997-2007) da DAIA e ligado ao seu ex-titular Rubén Beraja, que está sendo julgado por encobrimento no caso AMIA; Sergio Bergman é o presidente da Fundación Argentina Ciudadana.

Sobre as finalidades desta Fundação pairam dúvidas, pois não se sabe se mantém convênios, acordos ou programas em matéria de segurança com o governo do PRO. Em maio de 2010, a Comuna Metropolitana de Buenos Aires anunciou que o rabino havia firmado um convênio de colaboração para políticas de segurança com a Pasta do então ministro [Justiça] Guillermo Montenegro. O certo é que se soube muito pouco sobre esse convênio porque não saiu publicado no Boletín Oficial, não foi enviado ao Poder Legislativo e não se conhecem os resultados da assessoria ou da avaliação que a ONG de Bergman deveria fazer.

Por enquanto, se desconhece se o acordo implicou um benefício econômico para a Fundação. Esta trabalha sob o lema “queremos mais segurança”, realiza a sua comunicação de forma conjunta com o PRO e se autodefine como uma organização destinada a “contribuir para a construção de um novo modelo político, promovendo valores cidadãos”. Porém, sua campanha mais conhecida é uma coleta de assinaturas para a “ley contra los motochorros” (lei contra os ladrões que roubam montados em motos), que naufragou porque era praticamente inexequível.

A Fundação também participou da campanha Buenos Aires Medita, organizada em 2012 pelo PRO. Foi uma iniciativa gratuita e aberta ao público, realizada no Planetário com a ONG Arte de Viver, do líder espiritual indiano Sri Sri Ravi Shankar, que assinara um convênio com Macri em 2008 para “promover a melhoria da qualidade de vida da cidade”.

Águia

A sua proximidade com o macrismo, e especialmente com Mauricio Macri, levou a Fundação a se envolver em áreas muito sensíveis ‒ como minoridade, prevenção de delitos e mulher ‒, para as quais o governo contrata, sem grandes burocracias, ex-policiais, oficiais e suboficiais, que foram integrantes do partido de Aldo Rico, um militar golpista e autoritário que desfilou no dia 9 de julho passado, nas celebrações do bicentenário da independência. Ele tem reiterado seu apoio a identidades da direita internacional, como os seminários da Fundação Liberdade (FL), que contam com a participação de José Maria Aznar, Marcos Aguinis, Vicente Fox, Mario Vargas Llosa, os Prêmios Nobel de Economia Gary Becker, Douglass North, John Harsanyi, Robert Lucas, James Buchanan, James Mirless, o historiador Paul Johnson, Lech Walessa (Nobel da Paz), Jean Françoise Revel e ex-presidentes golpistas, entre outros, todos imbuídos do credo neoliberal conservador. O apoio explícito da FL ao PRO se manifesta em reiteradas adesões a grupos religiosos dentro desse Partido.

Dentro da comunidade judaica, Bergman vem sofrendo sucessivas rejeições. Após ser um dos promotores do Memoria Activa ‒ uma das organizações de familiares das vítimas do atentado à AMIA, em 1994 ‒ abandonou-a de forma intempestiva e unilateral em março de 1996, declarando que a causa AMIA deveria ser enterrada. Embora solicitado a manifestar essa posição por escrito, não o fez.

Em várias eleições da AMIA, a lista por ele encabeçada ou apoiada entregou seus votos para o setor religioso ortodoxo a fim de não dar a vitória àquela em que organizações laicas e progressistas tinham um espaço interessante.

Em 2011, teve grande circulação uma carta com muitíssimas adesões intitulada Conmigo no, Bergman [N.T.: algo como Tô fora, Bergman], na qual eram repudiados diversos aspectos da vida do rabino, como, por exemplo, “utilizar com hipocrisia” o nome do Memoria Activa, “entregar” seus votos na AMIA “à ortodoxia” e substituir a palavra “liberdade” por “segurança” no Hino Nacional. Dizia que “você se calou de forma vergonhosa diante da nomeação, para a chefia da Polícia de Buenos Aires, do Fino Palacios, um dos principais acusados pelo acobertamento na causa AMIA”, entre outras coisas.

Por suas posturas escorregadias, Bergman é chamado, nos corredores da Calle Pasteur, 633 (sede da DAIA-AMIA), “a águia”, embora prefira o mais sóbrio “o rabino”.

Sem conhecimentos técnicos

O caminho iniciado há uma década por Bergman como cabeça de ponte do PRO tem  entre seus seguidores o ex-diretor da DAIA Claudio Avruj (hoje subsecretário de Direitos Humanos do governo), o ex-presidente da DAIA Jorge Kirschenbaum (advogado do ex-presidente De la Rúa) e Waldo Wolff, ex-vice-presidente da DAIA (deputado e um dos que alavancaram o processo contra a ex-presidente Cristina Kirchner por suposta “traição à Pátria” devido ao Memorando de Entendimento com o Irã a respeito do caso AMIA).

Fora do marco comunitário, o desempenho de Bergman à frente da pasta ministerial para a qual foi designado é pobre e tíbio, tendo ele declarado não ter conhecimentos técnicos na área do meio ambiente.

Em janeiro deste ano, relatório de uma equipe técnica ligada ao Ministério de Segurança advertiu que haveria inundações de grandes proporções com a consequente evacuação de milhares de pessoas e com milhões de hectares inundados devido ao arraigado modelo econômico que, entra governo, sai governo, promove a monocultura de soja e o uso de agrotóxicos. Em San Juan, as mineradoras a céu aberto contaminaram cinco rios. Apesar de a mineração a céu aberto e a exploração de urânio estarem proibidas por lei em Chubut, Bergman foi a essa província da Patagônia para incentivar um debate sobre a importância da indústria mineradora. Sobre ele, disse o porta-voz argentino do Greenpeace: “…não tem nada a ver com o cargo, não é idôneo…”.

Até agora, o presidente Macri, a coalizão Cambiemos, o ministro do Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, o ministro de Energia e Mineração e seus funcionários têm demonstrado um compromisso absoluto com as grandes corporações mineradoras, petrolíferas e do agronegócio, em prejuízo da população e do país. Confirmou-se inclusive que prosseguirá a exploração em grande escala de prata em Chubut, de lítio em Jujuy e de ouro em Santa Cruz, com benefícios multimilionários às mineradoras, às petroleiras e ao agronegócio.

Para além da pitoresca quipá multicolorida e de uma retórica rica e expressiva, o seu discurso é repleto de lugares comuns e, consequentemente, vazio de conceitos sérios e profundos. A sua designação para o ministério mais parece um prêmio por seus serviços do que uma nomeação por capacidade e aptidão.

Este é o ministro rabino Sergio Bergman que se reuniu no Brasil com seus pares do Meio Ambiente e de Minas e Energia, José Sarney Filho e Fernando Coelho Filho.

Especial para ASA

 

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

Seja o primeiro a comentar