As picantes

La adúltera

La adúltera

Sabemos que os sefaradis têm sempre uma música para tudo o que pode ocorrer na vida de uma pessoa. Há canções para cada evento: o namoro, o noivado, o casamento, o nascimento … por que não, então, para o adultério?

Neste artigo, vou mostrar duas cantigas que tratam desse assunto, tão recorrentena literatura de qualquer civilização. Em todas as épocas, houve casamentos combinados, sem o consentimento da mulher. Em geral, a mulher era muito jovem; por isso, os pais davam pouca importância à sua opinião. Nas duas cantigas, não há referência concreta à idade do casal; mas, nas duas, o adjetivo empregado para referir-se ao marido é viejo (velho). Na primeira cantiga, Sos muy ermoza (recolhida na Turquia), o ardor demonstrado pela jovem é bastante evidente:

Sos muy ermoza,
Blanka komo la roza.
L’ora de tu ravia
Me metes en grande apreto.

“Tengo un marido viejo,
No me desha bivir.
De dia el yora,
La noche el kanta,

I komo yo vo bivir?”

(Na primeira estrofe, fala o amante: Você é muito formosa, branca como uma rosa. Quando você está com desejo, eu fico em apuros.

Na segunda estrofe, a resposta é: Tenho um marido velho, que não me deixa viver. De dia, ele chora; de noite, ele canta. Como é que vou viver?) Tradução livre.

No terceiro verso, a palavra ravia (no espanhol moderno, rabia; em português, raiva), está tomada no sentido pouco conhecido de “desejo intenso”, “impaciência”, “irritação”. No quarto verso, a palavra apreto (no espanhol moderno, aprieto) tem o sentido, em português, de “apertura”, “apuro” – é só se lembrar da expressão, “estou apertado”, em qualquer sentido; usemos a imaginação). Coitado do moço!

A segunda canção, recolhida no Marrocos, se chama La adúltera, também conhecida pelo primeiro verso Yo en estando (Eu estava). Esta é bem picante e mostra todo um processo de sedução, que gosto de chamar de safadinha. Conta a história de um jovem que não consegue dormir, porque deseja uma mulher que é casada com um homem velho. Temos três personagens: o sedutor, a seduzida, o marido viejo e mais um narrador que só intervém uma vez. Os termos anana e onono servem como marcadores do ritmo, sem significado, mais ou menos como “olê, olá”. Tradução muito livre:

Sedutor: Yo en estando en la mi kama, anana, durmiendo komo solia

Tomi viguelita en mano, onono, temblila como solia

Donde me fuera temblarla, anana, en kasa de mi amiga

Abre, la dishe, mi alma, anana, abre, la dishe, mi vida.

(Estava na minha cama, dormindo como de costume. Peguei minha violinha e toquei-a como de costume. Onde posso ir tocar minha violinha? Abre, disse-lhe, minha alma; abre, disse-lhe, minha vida.)

Seduzida: El ninyo tengo en los brasos, onono, si abro despertaria

Sedutor: Ponle un iguito en la mano, onono, de suyo se venseria

(Estou com o menino nos braços, se abrir, vai despertar // Põe um figuinho na mão dele, que ele vai se distrair sozinho)

Seduzida: Las puertas tengo i de pinyo, onono, si avro rechinaria

Sedutor: Echale vinagre en los kisios, onono, de suyo se avriria

(As portas são de pinho, se abrir, vão ranger // Coloca vinagre nas dobradiças, que elas se abrem sozinhas)

Seduzida: El mal viejo esta durmiendo, onono, si avro despertaria

Sedutor: Echale trapos al viejo, onono, el suenyo le venseria

(O velho mau está dormindo, se abrir, vai despertar  // Joga cobertores no velho, ele vai dormir melhor)

Narrador: Eyos en estas palavras, onono, el viejo despertaria

Marido viejo: Ke tienes tu, la mi mujer, onono, ke te veo sofokada?

(Estavam assim conversando, e o velho acordou // O que você tem, minha mulher, que está tão perturbada?)

Seduzida: Kon el ijo de la vesina, onono, ke me trusho el pan kemado

Marido viejo: Te vea yo, mi mujer, onono, en un patin ladriyado

(Estou com o filho da vizinha, que me trouxe pão queimado // Estou te vendo, minha mulher, em um chão deslizante)

Seduzida: Te veas tu, el mal viejo, onono, kon las sien hozmas de lenya

Kon las sien hozmas de lenya, onono, al forno vayas kemado!

(Eu é que estou te vendo, velho mau, com cem toras de lenha; com as cem toras de lenha, vais te queimar no forno).

A reação da esposa é de raiva, pois ela percebe que o marido entendeu o que o rapaz estava querendo (tocar a viola, será?)

Assinalei com negrito três expressões que me parecem bastante interessantes. As duas primeiras datam o texto – e isso me leva a pensar que, embora esteja vinculado ao cancioneiro sefaradi, está mais próximo do castelhano falado na Península nos séculos 15 e 16 do que do ladino que foi se formando só a partir do século 17.   A forma do diminutivo não é a do ladino  (-iko) – temos viguelita e iguito. Falo mais sobre a forma viguela / vihuela em seguida.

Viguelita (o u é pronunciado – vigüelita) – creio não ser necessário esclarecer que viguelita ele estava tocando. O interessante é que o instrumento se chama vihuela, que podemos traduzir por viola de mão. Teve seu auge na Espanha e em Portugal, nos séculos 15 e 16, principalmente nas cortes. Mas o que acho ainda mais interessante é o fenômeno fonológico, muito antigo, que acontece em muitas palavras nas quais ocorre o encontro -ua-, -ue e, curiosamente, no espanhol moderno -ui-: whisky se diz güisqui (consta no Diccionario de la Real Academia Española). Então, vihuela > viguela; hueso (osso) > gueso; huevo (ovo)> guevo; buhardilla (sótão)> guardilla, entre muitas outras. A forma com “gue”, permaneceu no ladino; no espanhol moderno passou a ser considerada vulgar, e não se admite na linguagem culta.

Iguito (o u é pronunciado – igüito) – em espanhol higo, higuito -figuinho: seria para substituir a chupeta, que nessa época ainda não existia. Pelo que andei lendo, foi só no século 19 que começaram a surgir as chupetas como hoje as conhecemos. O costume era dar um pedaço de linho embebido em mel ou em água açucarada.

Patin ladriyado (patín ladrillado)traduzi por “chão deslizante” – muito simbólico: o marido percebe que a mulher está em perigo, quase caindo nas armadilhas do jovem. Patin, neste caso, é o patamar de uma escada feita de argila (ladrillo, em português, quer dizer “tijolo”).

Para ouvir:

Sos muy ermoza (com o Grupo Angeles y Malahines de Cultura Sefaradi, do Rio de Janeiro) – convidadas especiais: Karen Sarhon e Liliana Benveniste:

https://www.youtube.com/watch?v=XPGNj0Fs0OY

Yo en estando (Ensemble Sarband) – a frase inicial não tem a ver com a canção – Ea judios a enfardelar, que mandan los reyes que passeys la mar – escrevi a respeito no artigo http://asa.org.br/colunas/ea-judios-a-enfardelar/

https://www.youtube.com/watch?v=YGUzbV6-2hs

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

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