As kantikas do ciclo da vida

Mariée juive du Maroc Benjamin Derry , aquarela,1998

Judia casada do Marrocos, aquarela de Benjamin Derry, 1998

O repertório sefaradi é rico em canções (kantikas, kantigas ou kantes lirikos) associadas ao ciclo da vida: a maioria está associada ao casamento (kantes de bodas) e, em menor medida, ao nascimento (kantes de kuna) e à dor pela morte de uma pessoa querida (endechas). Kuna se traduz por “berço”; são as canções de ninar – as canciones de cuna, em espanhol. Em espanhol também se diz endecha, mais usual no plural: las endechas – canção triste ou de lamento. Só como curiosidade: o termo endecha vem do latim indicta, que significa “anunciada”. Nem há necessidade de explicação…

Assim, as kantikas expressam sentimentos de amor e ciúme, pena e dor. Essas canções foram transmitidas de geração em geração; houve tempos em que foram quase esquecidas, mas foram sendo recuperadas a partir de finais do século 19, graças a vários pesquisadores que estudavam o cancioneiro medieval espanhol. As versões, às vezes, são diferentes umas das outras já que, como sempre repetimos, foram transmitidas oralmente. Tudo depende do país onde nasceram e cresceram os que as cantam.

Os cantos de boda são sempre alegres e, algumas vezes, maliciosos, com duplo sentido, com símbolos claramente sexuais. Mas não são vulgares – são frescos e espontâneos. Cada etapa da boda tinha suas canções: o anúncio da boda, a preparação do enxoval (ashuar), a exposição do enxoval, o banho ritual, e assim por diante. Começamos com dois kantes de boda: Ashuar muevo/El banyo de la novia (Enxoval novo/ O banho da noiva). O termo ashuar vem diretamente do espanhol ajuar, mas com a pronúncia típica sefaradi (com o j pronunciado como em jardim, do português, ou como o ch, também do português).

Ashuar muevo

Ashuar muevo/ delantre vos lo pondri

Suegra i kunyada/ no tengash ke dezir.

La muestra novia/ mucho lo velo al kandil

I el muestro novio/ seno i se echo a dormir.

Anoche, mi madre,/ kuando me eche a dormir

Sonyava un suenyo,/ tan dulse era de dezir.

Ke me banyava/ i a las oriyas del Sil

Venia la ola/ i a mi me keria yevar

Es muestro novio/ ke a ti vino a demandar

Kon amor, madre,/ kon amor me ire a dormir.

(Tradução livre: Enxoval novo/coloquei-o diante de vocês/ para que vocês, sogra e cunhada, não tenham o que dizer// A nossa noiva/ o velou muito à luz do candeeiro/ e o nosso noivo jantou e se pôs a dormir.// Ontem à noite, minha mãe/ quando me deitei para dormir/ sonhava um sonho/ tão doce de contar.// Que me banhava/ às margens do Sil/ A onda vinha/ e me queria levar// É o nosso noivo/ que veio  te reclamar (exigir)/ Com amor, mãe/ com amor eu vou dormir).

Pode-se perceber que há três falantes: a noiva, um narrador (La muestra novia mucho lo velo al kandil/ i el muestro novio seno i se echo a dormir) e a mãe da noiva.  A mãe da noiva (es muestro novio ke a ti vino a demandar) interpreta o sonho – a onda representa o noivo que vem reclamar a sua noiva para levá-la com ele. O rio em que a noiva se banha, eu interpreto como o lar de onde ela vai sair, e de onde efetivamente sai, em busca de uma vida nova, com seu amado. As letras das canções sefaradis são cheias de simbolismos. É claro que se conta uma história, e podemos vê-las simplesmente assim – uma história que se conta. No entanto, quantas coisas se escondem por trás dessa história! Elucubrei demais?

Só como curiosidade: o rio Sil banha a Galícia (ou Galiza) e é o principal afluente do rio Minho.

Tanto Ashuar muevo quanto El banyo de la novia (que vamos ver a seguir) foram recolhidos no Marrocos.

El banyo de la novia

La novia se banyava/ el novio se alegrava/ Banyavase, banyavase (refran)

Lo ke meresen las novias/ Yo vos dire: un pan blando, una kama de rozas, una gayina ermoza, yo vos dire.

Lo ke meresen las viejas/ Yo vos dire: un pan duro, una kama de espinas, una negra sardina, yo vos dire.

(Tradução livre: A noiva se banhava e o noivo se alegrava, banhava-se, banhava-se (refrão)

O que as noivas merecem? Vou dizer: um pão macio, uma cama de rosas, uma bela galinha, eu vou dizer.

O que merecem as velhas? Vou dizer: um pão duro, uma cama de espinhos, uma sardinha ruim, eu vou dizer).

Ora, ora, fico aqui pensando: coitadas das velhinhas!  A respeito da galinha e da sardinha – há outra canção que manda que se dê à noiva uma galinha, e ao noivo, uma sardinha. Também foi recolhida no Marrocos. Há uma gravação com a cantora Fortuna, mas não está disponível no You Tube (está no CD La Prima Vez).

Encontrei uma versão com o Grupo Alquitara Folk, que a canta em espanhol (versão recolhida na região de Castilla y León, Espanha). Só uma mostra: Daile a cenar al desposado. Daile a cenar que no ha cenado// Daile a cenar al desposado, daile a cenar sopa de nabo// Para la novia una gallina, y para el novio una sardina// Para la novia pan sobado y para el novio pan de salvado. (Tradução livre: Deem o que jantar ao recém-casado. Deem o que jantar, porque não jantou. // Deem o que jantar ao recém-casado, deem-lhe sopa de nabo// para a noiva, uma galinha; para o noivo, uma sardinha// para a noiva, pão sovado e para o noivo, pão de farelo).

Ou seja: Tudo de bom para a noiva, para os demais, o que sobrar …

Uma observação gramatical, a respeito do imperativo dai (que no espanhol padrão é dad): Daile a cenar al desposado ‒ aqui se trata do dialeto leonês, que usa essa forma para o imperativo.

Vou continuar a procurar uma versão em judeu-espanhol.

A continuar … pois quero falar mais da água e do que nasce entre a água e a areia nas canções de boda sefaradis.

Para escutar:

Ashuar muevo/El banyo de la novia – com a cantora e pesquisadora argentina Liliana Benveniste:

Daile a cenar – com o Grupo Alquitara Folk:

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

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