Ainda é Israel quem dá as cartas *

Jovens palestinos seguram coquetéis molotov durante confrontos em Jerusalém Oriental, 4-10-2015 (Foto Faiz Abu Rmeleh/Activestills.org)

Jovens palestinos seguram coquetéis molotov durante confrontos em Jerusalém Oriental, 4-10-2015 (Foto Faiz Abu Rmeleh/Activestills.org)

Treze anos se passaram entre a Primeira Intifada, que eclodiu em dezembro de 1987, e o começo da Segunda, em outubro de 2000. Ambas duraram cerca de cinco anos. Passaram-se 15 anos desde o início da Segunda Intifada e 10 anos desde que terminou. Se a História e a experiência nos ensinam algo é que este é o momento perfeito para o surgimento de uma nova geração de jovens palestinos que desejam confrontar Israel ‒ assim como o fizeram seus irmãos mais velhos e, antes deles, os seus pais. Esta teoria também se aplica se observarmos o perfil dos que atacam à faca e dos que têm participado de recentes manifestações ‒ a maioria tem menos de 20 anos.

Os eventos das últimas semanas não são uma intifada. Ataques e manifestações contra símbolos e alvos israelenses, tanto civis quanto militares, ocorrem desde os anos 1970, com frequência variável. As intifadas, por outro lado, caracterizaram-se por um levante que mobilizou em todos os sentidos a sociedade palestina e suas instituições (embora a Segunda Intifada tenha se transformado rapidamente numa luta armada empreendida por um número relativamente pequeno de militantes).

A situação atual é diferente. Até Netaniahu foi forçado a admitir que a Autoridade Palestina não está participando da agitação. Os acontecimentos estão concentrados em Jerusalém Oriental, que se encontra sob o controle direto de Israel, e não na Margem Ocidental. Isso também indica por que Israel fará tudo o que puder para impedir o colapso da Autoridade Palestina e, assim, bloquear o retorno à situação pré-Oslo, algo que está sendo defendido por certos demagogos da direita israelense. A Autoridade Palestina, na qualidade de prestadora de serviços de segurança para Israel, é muito mais eficiente na manutenção da paz do que jamais foram o Shin Bet e as Forças de Defesa de Israel. Israel a descartará só quando ela deixar de desempenhar completamente o seu papel.

 

O colapso da estratégia internacional da OLP

A Autoridade Palestina é uma instituição incomum. Uma parte maciça do seu orçamento ‒ diz-se que 25% ‒ é dedicada à segurança. Não a segurança dos aldeões palestinos contra ataques de colonos. Para isto, eles precisam chamar a polícia israelense.

Durante a última década, a Autoridade Palestina assumiu o papel de terceirizado para assegurar a ocupação, no entendimento de que a calma na Margem Ocidental poderia criar condições para o progresso nas conversações de paz com Israel. Pelo menos, é a promessa que tem sido feita aos palestinos ‒ se a violência parar, nós conversaremos e vocês terão o seu Estado.

Agora, porém, está claro que a dinâmica é exatamente oposta. A calma levou os israelenses a acreditarem que podem gozar de paz e prosperidade sem acabar com a ocupação. O trágico paradoxo é que foram as intifadas que levaram a concessões israelenses (Oslo, a retirada da Gaza), enquanto os anos calmos resultaram em mais posições linha-dura por parte de Israel e na expansão dos assentamentos. Em semanas como esta, é triste lembrar a comoção despertada pela exigência de Netaniahu de que os palestinos reconheçam Israel como um “Estado judeu” e não apenas como “o Estado de Israel”, como se Israel precisasse que a sua identidade fosse definida por Abas. Estejamos certos de que, se Abas tivesse reconhecido Israel como Estado judeu, Netaniahu teria inventado uma nova exigência. Qualquer coisa para não alcançar um acordo.

Quando a liderança da OLP compreendeu que não chegaria a parte alguma com Israel, apostou na pressão internacional, primeiro dos Estados Unidos, depois da Europa. O caso é que Washington nunca pressionará Israel seriamente. Se compararmos o compromisso dos EUA em relação ao acordo com o Irã com a sua frouxa abordagem da questão palestina, perceberemos que o acordo com o Irã era, para o governo Obama, uma questão de interesse americano. O conflito israelense-palestino é pouco mais do que uma irritação.

Os dramáticos acontecimentos no mundo árabe, particularmente na Síria, acabam de vez com a estratégia internacional da Palestina. A Síria passou de uma guerra por procuração iraniano-turco-saudita para uma americano-russa, com consequências para toda a região e além ‒ e como se isso não bastasse, os norte-americanos estão preocupados agora com a estabilidade da Jordânia. Dadas estas condições, a estratégia de Israel de manter e fortalecer o status quo nos territórios ocupados de repente parece razoável para os EUA. Hillary Clinton, que ainda é considerada a favorita do Partido Democrata, afirmou que o conflito israelense-palestino provavelmente terá que esperar, e é claro que nenhum candidato republicano sequer aventaria a hipótese de pressionar Israel a acabar com a ocupação. A estratégia internacional da OLP entrou em completo colapso este ano, e Abas nunca teve um plano B.

 

Conflito só de um lado

Não sei quanto os jovens palestinos que protestam na Margem Ocidental e em Jerusalém Oriental pensam a respeito ou se importam com considerações geopolíticas amplas. O que está absolutamente claro é que, ao longo dos últimos dois anos, os acontecimentos diplomáticos despertaram nada além de total desânimo nos territórios ocupados. Isto é o que ouvi de cada palestino com quem tenho conversado ‒ uma incapacidade de sequer imaginar qual cadeia teórica de eventos poderá um dia resultar no fim da ocupação. Diante de tais circunstâncias, alguns se agarram ao seu cotidiano em Ramala ou Jenin, que se recuperaram um pouco na última década, enquanto outros preferem adotar medidas desesperadas.

Os israelenses adoram falar em “incitamento” nos territórios ocupados, o que fornece uma explicação reconfortante para a violência que explode periodicamente. O senso de justiça apenas se reforça com o sentimento de que os palestinos apoiam a violência e de que o lado israelense só quer paz e calma ‒ um pouquinho de normalidade, comércio, retirada de alguns postos de controle aqui e acolá como sinais de boa vontade, etc.

Mas a situação, claro, é inteiramente diferente. Os palestinos estão sempre sujeitos à violência da ocupação, diária e arbitrária, enquanto os israelenses, antes de mais nada, gozam de calma e prosperidade. O “conflito israelense-palestino”, na maior parte do tempo, existe apenas e unicamente para um dos lados.

Os palestinos são prisioneiros em sua própria terra. Não podem movimentar-se livremente, não podem entrar e sair de seu país. Receber visitantes depende da boa vontade do regime militar israelense. O mesmo vale para manter as estradas abertas e para construir novos bairros e mesmo casas individuais. Dependem inteiramente da boa vontade de Israel para se protegerem contra ataques de judeus, e o Exército israelense nunca considerou proteger a população palestina como parte de sua missão de controlar os territórios palestinos. Eles são julgados em tribunais militares israelenses, podem ser presos sem acusação formal ou julgamento e assim por diante. E, obviamente, não têm direitos políticos como o voto ou a representação política.

A política sempre foi um substituto para a violência na administração das relações entre populações diversas, e aqueles que não têm direito de participar da política deduzem rapidamente que nada têm à sua disposição a não ser a violência. Mesmo que o último post contra Israel, os judeus ou os sionistas na mídia social fosse deletado da internet, a violência prosseguiria. Do mesmo modo, ainda que se destruísse completamente cada órgão e rede do Hamas, a organização não cessaria de brotar uma vez atrás da outra.

Devemos lembrar-nos sempre de que a ocupação é a infraestrutura terrorista máxima. É preciso estar cego para pensar que a extrema desigualdade e mais de meio século de opressão poderiam ter algum outro resultado. Tampouco devemos iludir-nos quanto ao contrário: acabar com a ocupação pode não trazer a paz, certamente não a curto prazo, mas continuar com ela conduzirá definitivamente a uma guerra civil, da qual temos tido um pequeno exemplo nas últimas semanas. É verdade que não chega nem perto da Síria ou da Iugoslávia. Mas mesmo a Síria e a Iugoslávia começaram de mansinho. A situação em Israel ‒ duas populações misturadas com posições distintas, um lado tendo todo o poder e direitos e o outro, só migalhas ‒ é o problema fundamental.

Nesse contexto, o fenômeno mais preocupante vem sendo a violência espontânea cometida por cidadãos comuns em ambos os lados. Parte da razão é que cada lado enxerga apenas o terror promovido pelo outro. Os judeus assistiram ao vídeo de Adelle Bennett clamando por ajuda e recebendo apenas deboche de comerciantes de Jerusalém Oriental. Os árabes assistiram à multidão caçando Fadi Alloun, um dos supostos esfaqueadores de Jerusalém, até a polícia executá-lo a sangue frio. Talvez esta seja outra explicação para a pouca idade dos esfaqueadores: eles são os mais expostos à mídia social, onde circulam todos os vídeos e posts.

 

A calma tem um preço

A má notícia é dupla. Em primeiro lugar, é muito mais difícil atingir soluções políticas na ausência de estruturas centrais de poder. Em segundo lugar, em rodadas passadas, levou de quatro a cinco anos de recíproco derramamento de sangue ‒ pelo qual Israel pagou um preço alto, e os palestinos, muito mais ‒ até que se formou um consenso israelense considerando concessões reais (Oslo e a retirada de Gaza). Não há no momento perspectiva de uma solução temporária ou permanente. Não há respaldo público nem políticos que nos conduzam nessa direção.

O líder da oposição, Itzhak Herzog, pediu que o governo sitiasse territórios ocupados, punição coletiva que não nos aproximaria sequer um centímetro de qualquer solução, militar ou diplomática. O ministro Naftali Benet propôs instalar novos assentamentos na Margem Ocidental. O ex-ministro do Exterior Avigdor Liberman exortou a população a se vingar dos árabes. Iair Lapid propôs ativar uma política de “cortador de grama” (só Deus sabe o que isso significa) e expressou apoio a colonos judeus residentes em bairros árabes de Jerusalém Oriental. Netaniahu parece mais racional e cabeça-fria do que todos os que querem destroná-lo, mas está evidente que não será ele quem há de nos conduzir a um grande avanço.

E mesmo assim não há como justificar o sentimento de desânimo e vitimização que satura as ruas de Israel. A nossa situação atual não é uma “tragédia”, mas uma realidade em cuja direção a liderança política de Israel, com o respaldo da vasta maioria dos eleitores judeus, marchou diretamente, de olhos bem abertos.

As cartas ainda estão nas mãos de Israel, e são poderosas. Israel pode iniciar novas conversações de paz com alguns gestos simples. Pode até decidir com quem: o Fatah ou um governo de unidade palestino. Pode organizar uma coalizão internacional para apoiá-las ‒ dos estados árabes à Turquia, Rússia, EUA e União Europeia. O nosso é um dos poucos temas no mundo pelos quais todos esses estados dariam alegremente sua cooperação. Israel poderia encerrar unilateralmente o regime militar na Margem Ocidental. Em resumo, Israel tem uma gama de ferramentas à sua disposição que, a médio e longo prazo, poderia alterar fundamentalmente as relações entre judeus e árabes nesta terra. Mas fazê-lo tem um preço: encerrar a construção de assentamentos, soltar prisioneiros, e todos os demais passos que não só a liderança política, mas também a maioria do público judeu, rejeita de cara neste momento.

* Este artigo saiu originalmente na revista + 972 e está sendo publicado com autorização dos editores.

Noam Sheizaf

Jornalista independente, com matérias publicadas no Ynet.co.il e nos jornais Ha-Ir (Tel Aviv), Maariv, Haaretz, Yediot Ahronot e The Nation entre outros.

3 Comentários

  • Responder outubro 19, 2015

    Ivo Korytowski

    É tudo muito lógico, e claro que um dia a paz terá de ser alcançada (como foi alcançada na Europa após milênios de guerras). Mas e se, depois de fazer as concessões necessárias (devolver territórios, etc.), o outro lado, em vez da paz, se aproveitar da nova fragilidade israelense para fazer aquilo que desde a criação do Estado judeu faz: atacar??? Difícil equação.

  • Responder outubro 20, 2015

    Mauro Band

    Bastante lúcida a análise do comentarista. Ótimo texto.

  • Responder outubro 21, 2015

    Sandra Helena Bondarovsky

    Bastante elucidativa a visão do jornalista, pois aponta caminhos.
    É penoso assistir a falta de opção para os jovens palestinos.

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