Adolf Eichmann, um funcionário exemplar

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Cartaz do documentário O especialista

A celebração dos 70 anos do final da Segunda Guerra – oficialmente encerrada em 8 de maio de 1945 – vem provocando uma bem-vinda onda de revisões, rememorações e reflexões sobre o conflito que ceifou milhões de vidas, entre elas as de seis milhões de judeus. Esses números, tantas e tantas vezes repetidos, geralmente acoplados a imagens de atrocidades, tantas e tantas vezes exibidas, correm o risco de “banalizar” a História e  as  barbáries cometidas contra crianças, mulheres e homens em nome de um ideário e de uma organização que permanecem tão perturbadores hoje como há sete décadas.

Como foi possível acontecer o que aconteceu?

Interpretações, justificativas, tentativas de respostas continuam a desafiar os que insistem em não esquecer, e ainda, em transmitir este penoso mas necessário   legado para as próximas gerações, cada vez mais distantes dos fatos. Os imbuídos da missão de “não esquecer” dispõem de fartas fontes de material e pesquisa – dos registros mais crus e objetivos à ampla variedade de depoimentos, sem falar na vastíssima apropriação de fatos e feitos pela ficção. 

Na transmissão de Histórias e memórias, o cinema desempenhou um papel fundamental, apesar de equívocos inevitáveis diante da vastidão da produção.  Milhares – literalmente milhares – de títulos, entre ficção e documentários de todos os estilos e gêneros possíveis elegeram algum aspecto do nazismo como tema. Casablanca,  A escolha de Sofia, A lista de Schindler,  A vida é bela, O pianista, O leitor  estão entre filmes de “sucesso” que podem facilmente vir à cabeça dos que “aprenderam” a ver ou conhecer o nazismo através do cinema. 

No terreno mais árido dos documentários, apesar da ampla oferta de títulos, a circulação é mais restrita, justamente pela resistência ou “dificuldade” do espectador de estabelecer contato com o real, sem a intermediação de uma narrativa ficcional.  Shoah, de Claude Lanzman,  lançado em 1985, inicialmente com 8 horas de duração, constitui  um clássico do gênero, com sua extensa  lista de depoimentos de sobreviventes dos dois lados – vítimas e algozes. 

Outro documentário, apesar de menos conhecido, também se impõe como peça essencial da História: Um especialista (Un Spécialiste / The Specialist), de 1998. Seu personagem principal também era um sobrevivente, mas da alta hierarquia nazista. Seu nome: Adolf Otto Eichmann, responsável pelo transporte de milhões de judeus pelas ferrovias europeias rumo à morte – da forma mais eficiente possível. Com direção de Eyal Sivan, nascido em Haifa em 1964, Um especialista se baseia no livro  Eichmann em Jerusalém – um relato sobre a banalidade do mal, escrito por Hannah Arendt, uma dos 3 mil jornalistas presentes ao julgamento.

O processo que se estendeu por quatro meses e 360 horas foi cercado por polêmicas – da permissão para as filmagens a questões jurídicas. Exibido no Festival do Rio em 1999, e acessível, pelo menos em parte, em sites da internet, trata-se de um documento obrigatório não para compreender o nazismo e o Holocausto, mas justamente para rever, de forma rigorosamente factual, o inexplicável, o incompreensível, o inaceitável.

Estupefação renovada

O filme começa na sétima audiência, com um forte discurso da promotoria, que define o acusado como “destruidor da Humanidade” e pede sua condenação à morte. A câmera focaliza o alvo das atrocidades: um senhor de terno e gravata, óculos, cordato, tenso mas formal, que ao longo dos 123 minutos do documentário,  e possivelmente ao longo de todo o julgamento, jamais perdeu o controle sobre si mesmo.

A repercussão das teses de Hannah Arendt, a distância no tempo, as conhecidas imagens de Eichmann em sua jaula de vidro não reservam, a rigor, novidades sobre o caso.  No entanto, e talvez justamente por se tratar de tema conhecido, a sensação de estarrecimento ao rever o “material” se repete. Não há como metabolizar a carga de informação transmitida pelo “burocrata exemplar”, que aguentava qualquer acusação menos a de não ter cumprido seu dever. 

Um especialista pode ser definido como um documentário jurídico, em que a câmera não deixa, por nenhum momento, a sala do tribunal. As únicas cenas externas são imagens de campos de extermínio exibidas durante o julgamento. A linguagem formal tanto da promotoria como do acusado contrasta, vez por outra, com o descontrole emocional de testemunhas. Eventuais reações da “plateia” são severamente repreendidas. Em sua cabine blindada, o acusado limpa os óculos, consulta papéis, organiza sua bancada. Muito, muito raramente, discretos tiques nos olhos ou nos lábios sugerem alguma emoção. Remorso? Nem pensar, garante. Além de ser uma questão de foro íntimo, trata-se de um sentimento inútil. Remorsos não ressuscitam os mortos, constata. 

Por mais que detalhes do julgamento sejam conhecidos, ter assistido mais uma vez a Um especialista – desta vez a pedido da ASA para escrever sobre um filme “fundamental” sobre a Segunda Guerra – em nada retirou o impacto inicial da experiência. Ao contrário. A ausência de sentido das atrocidades cometidas – e não apenas contra judeus ‒ é confirmada e reconfirmada em declarações assustadoras e, paradoxalmente, lógicas. Sim. Entre tantos traços perturbadores de Adolf Eichmann, merece destaque a lógica racional com que tenta não defender, mas justificar, sua atuação na engrenagem nazista. 

Entre detalhes macabros de sua rápida ascensão na hierarquia do Partido,  um mote parece justificar tudo: seu juramento de lealdade ao nacionalismo, sua inabalável determinação em “cumprir ordens”.  Sem ódio, sem ideologia, sem paixão. O mal em sua forma banal. Um recipiente às ordens resolvidas, uma gota em um oceano de uma engrenagem complexa.  Uma de suas alegações mais marcantes:  “Eu vivia em uma época em que o crime era legalizado pelo Estado. Esses crimes eram responsabilidade dos que davam ordens.”

Embora esta justificativa tenha sido usada como mote dos perpetradores nazistas, ver/ouvir um deles afirmar que tem a consciência tranquila “pelo cumprimento do dever” é estarrecedor. Um único momento parece tê-lo mobilizado: quando viu uma fonte de sangue jorrar em uma praça, tamanho o número de mortos no local.

Já sua opinião sobre a atuação de Rudolf Hoess, comandante em Auschwitz , desafia qualquer princípio racional. Após alguma hesitação, Eichmann admitiu: “Senti pena dele.” (Atenção: não confundir com Rudolf Hess, vice-líder do Partido Nazista)

A rigor, Um especialista não apresenta novidades. O julgamento foi realizado em 1961, o acusado, enforcado em 1° de junho de 1962.  E incontáveis relatos e abordagens comentaram, interpretaram o fato. 

Nada de novo neste e em tantos outros registros.  Só a renovação da estupefação. Diante do número de mortos e também da força dos sobreviventes, como os que testemunharam contra Eichmann e tantos outros que deixaram seus trágicos legados para a História.  Há cada vez menos. Cabe aos vivos perpetuar essas memórias.

Especial para ASA

Susana Schild é jornalista, crítica de cinema e roteirista.

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