A mãe aconselha … a filha obedece?

sefaradiO cancioneiro é, hoje em dia, o gênero de maior vitalidade entre os sefaradis. Trata-se de um repertório rico e variado, que a pesquisa e a gravação sonora vêm colocando à disposição de quem queira conhecê-lo. No cancioneiro sefaradi convivem canções criadas e transmitidas dentro da própria comunidade ou trazidas da Península em épocas diversas. Venho comentando sempre que essas canções foram transmitidas de geração em geração e expressam vários sentimentos: amor, ciúme, pena, dor … Houve tempos em que foram quase esquecidas, mas foram sendo recuperadas a partir de finais do século 19, graças a pesquisadores que estudam o cancioneiro medieval espanhol. As versões, às vezes, são diferentes umas das outras já que, como sempre repetimos, foram transmitidas oralmente. Tudo depende do país onde nasceram e cresceram os que as cantam. Um dos temas mais interessantes é o da preocupação da mãe em relação aos amores da filha. Duas canções me agradam particularmente: Una matika de ruda (Um raminho de arruda) e Ija mia (Minha filha).

Na primeira estrofe de Una matika de ruda, a mãe pergunta:

Una matika de ruda

Una matika de flor

Ija mia, mi kerida,

dime a mi ken te la dio.

(Um raminho de arruda, um raminho de flor. Minha filha, minha querida, diz-me a mim quem te deu).

Na segunda, a filha responde:

Una matika de ruda

Una matika de flor

Me la dio un manseviko

ke de mi se enamoro

(Um raminho de arruda, um raminho de flor, quem me deu foi um jovenzinho, que de mim se enamorou).

Na terceira estrofe, a mãe aconselha:

Ija mia, mi kerida

No te eches a la perdision

Mas vale un mal marido

ke es mejor ke un muevo amor.

(Minha filha, minha querida, não caias em perdição/desgraça/tentação, mais vale um marido ruim, que é melhor que um novo amor).

Mas a jovem sabe muito bem o que deseja:

Mal marido, la mi madre

No ay mas maldision

Manseviko de amor, la mi madre

La mansana i el buen limon

(Marido ruim, minha mãe, não há maior maldição. Jovenzinho de amor, minha mãe, a maçã e o bom limão).

Como sempre, procuro nas canções sefaradis as simbologias aí ocultas (ma non troppo). A arruda é uma erva mágica – todos sabemos que é usada para afastar o mau-olhado (el ayinarah, el mal de ojo, el ojo burakado, el ojo pezgado). Na canção, o namorado oferece um raminho de arruda à jovem, como um convite ao amor. Sim, as folhas da arruda têm o poder de atrair o amor, além de afastar as energias negativas e os maus espíritos; aliviam as dores de cabeça, revertem feitiços e maldições, protegem a casa, afastam os invejosos … No entanto, cuidado! As grávidas não devem tomar infusão feita com a planta, porque age como uma espécie de anticoncepcional e abortivo. A arruda também é chamada “a planta do perdão”, porque os antigos diziam que quem a cultiva ou bebe sua infusão perdoa as traições e os maus sentimentos.

No último verso, a jovem se refere à maçã e ao limão, quando fala do manseviko de amor. A maçã simboliza a vida, o amor, a fecundidade, a juventude, a sedução, o desejo … Quando falamos em maçã nos vêm à mente a árvore do bem e do mal, a maçã da Branca de Neve, as maçãs que Hércules teve de pegar no Jardim das Hespérides, a maçã mordida da Apple, e por aí vai. Além disso, o formato esférico representa o mundo, e as sementes, a fertilidade e a espiritualidade. Quanto ao limão, sabemos de todos os seus benefícios. É também considerado símbolo da pureza e da fidelidade. No judaísmo, o etrog, uma das quatro espécies, é considerado um símbolo do coração.

Já que estamos falando de simbolismos, gosto demais do simbolismo explícito da canção Ija mia.

Na primeira estrofe, a mãe adverte:

Ija mia, mi kerida,

Aman, aman

No te eches a la mar

Ke la mar esta en fortuna

Mira ke te va yevar

(Minha filha, minha querida, ai, ai, não te jogues no mar, porque o mar está revolto, olha que vai te levar).

Na segunda estrofe, a filha responde:

Ke me yeve i ke me traiga

Aman, aman

Siete funtas de ondor

Ke m’engluta el peshe preto

Para salvar del amor.

(Que me leve e que me traga, ai, ai, sete braças de fundura, que o peixe-preto me engula, para me salvar desse amor).

O mar revolto, como representação do mundo conturbado (sempre foi assim, não importa a época) que a filha quer enfrentar, amedronta a mãe. La mar esta en  fortuna – no espanhol arcaico, “la mar en fortuna” significa “tempestade no mar”. Em oposição, também arcaico, “la tierra en fortuna”, significa “temporal”.

Aman é uma interjeição de origem turca e pode ser traduzida por “ai, meu Deus”, “ai de mim”, “ai, ai”. Sempre demonstrando preocupação, dor, angústia …

A palavra funta (siete funtas de ondor) é motivo de estudos de muitos linguistas. Há quem diga que deve ser punta ou punto. Achei um texto em inglês que traduz por fathoms, ou seja, braças. A braça é uma medida náutica que corresponde a mais ou menos 13 metros. Há quem diga que corresponde ao italiano arcaico fonda (âncora). Em italiano moderno, quando o navio está ancorado no porto se diz “nave ala fonda”.

O peixe-preto (ke m’engluta el peshe preto) é um tipo de peixe, como a rêmora, que acompanha outros peixes maiores (como o tubarão) e que vai se alimentando dos restos de comida deixados pelo peixe maior. Conclusão: a jovem queria mesmo desaparecer de tanta dor de amor. Acho que não pode ser mais expressivo.

É interessante assinalar que as palavras “negro” e “preto”, têm, em ladino (judezmo, judeu-espanhol) significados distintos: para a cor, se usa preto; negro significa “trágico”, “mau”, “maldade”. Há uma canção que fala de mi suegra, la negra e vai descrevendo as maldades da sogra. Há um ditado que diz: Ken negro aze, negro topa (Quem faz o mal, encontra o mal). Outro ditado: Pan ke ayga en el sesto, ke sea blanko, ke sea preto (Não importa a qualidade do pão, contanto que haja pão no cesto – branco ou preto).

Para ouvir, escolhi as versões que prefiro das duas canções. Quem interpreta é a cantora e compositora brasileira Fortuna (Fortunée Joyce Safdié).

Una matika de ruda está no CD Mazal (de 2000) – em 26:19 (só encontrei no CD completo):

https://www.youtube.com/watch?v=xI2AgGeWmJA

Ija mia está no CD Novos Mares – o show de lançamento do CD está marcado para 3 e 4 de setembro deste ano, em São Paulo. Quem canta a primeira estrofe é Sabrina Shalom; a segunda estrofe, canta Fortuna:

https://www.youtube.com/watch?v=0w_-L__iA-I

Para saber mais sobre Fortuna –  http://fortunaoficial.com/

 

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder agosto 31, 2016

    Fortuna Safdie

    Cecilia
    V além de ter muito conhecimento , inspirar e despertar boas reflexões, é uma querida!

    Obrigada pelo post!

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