A DAIA não fala por todos

Público no evento de 22 de abril de 2015, atendendo ao Chamamento de Argentinos de Origem Judaica

Público no evento de 22 de abril de 2015, atendendo ao Chamamento de Argentinos de Origem Judaica

Estudos demográficos das comunidades judaicas do mundo realizados e dirigidos pelo reconhecido cientista social Sergio Della Pergola (italiano residente em Israel) assinalam que a comunidade judaica argentina tem 185 mil integrantes, bem menos do que se presume numericamente e se percebe socialmente.

De acordo com essas estatísticas, a comunidade judaica argentina é a sétima no mundo (depois de EUA, Israel, França, Canadá, Grã-Bretanha e Rússia; com 97 mil, a do Brasil é a décima), com 1,4% da população judaica mundial e 2,4% da população judaica na Diáspora (ou seja, fora de Israel). A grande maioria se concentra na Grande Buenos Aires, onde vivem uns 165 mil judeus (Mark Ehrlich, Encyclopedia of the Jewish Diaspora – Origins, Experiences and Culture, EUA, 2009).

Um estudo do JOINT também de 2005 indica que os judeus argentinos são uns 244 mil, dos quais 67% se sentem judeus, o que se aproxima bastante do número anterior. Outro trabalho ‒ A demographic profile of Latin America Jewry, da cientista social Judith Elkin     (http://americanjewisharchives.org/publications/journal/PDF/1982_34_02_00_elkin.pdf – sem data) ‒ estabelece que a população judaica argentina seria de umas 249 mil pessoas, embora advertindo que é uma estimativa de “baixa precisão”.

Seja como for, os habitantes judeus da Argentina oscilam entre 180 mil e 250 mil, número consideravelmente menor do que o imaginário supõe, já que representa entre 0,46% e 0,61% da população total.

Essa comunidade judaica tem um tecido institucional muito denso ‒ escolas, cemitérios, editoras, clubes esportivos, associações culturais, jornais, partidos políticos, teatros, entidades beneficentes, financeiras e de saúde, templos etc. ‒ espalhado por toda a sua geografia: de Salta, no norte, a Bariloche, no sul, de Mendoza, nos Andes, à selva de Misiones, no leste, existem organizações comunitárias judaicas, grandes ou pequenas, mas sempre muito ativas. Se considerarmos cerca de duas mil as pessoas de origem judaica desaparecidas durante a ditadura civil-militar de 1976-63, de um total de 30 mil, veremos uma superexposição (6,66%).

Muitas dessas entidades estão representadas politicamente na Delegación de las Asociaciones Israelitas Argentinas (DAIA), que, fundada em 1935, reúne umas 150 instituições de diversos tipos de todo o país. Naquela época e realidade comunitária sua missão era lutar contra o fascismo, a judeufobia e toda forma de discriminação, em defesa da comunidade judaica ante os atos de antissemitismo. A DAIA se apresenta para a sociedade, conforme consta no cabeçalho de todos os seus documentos, como “Representação política da comunidade judaica argentina”.

Por outro lado, existe a AMIA (Asociación Mutual Israelita Argentina). Em 1894,  imigrantes judeus ashquenazis fundam em Buenos Aires, para a função de ajuda mútua, a Chevra Kedusha Ashquenazi, que em 1940 se une ao Vaad Hachinuch (Conselho de Escolas Judaicas), e, em 1949, surge a AMIA. Suas funções incluem serviços sociais (enterros, biblioteca, arquivos), planos comunitários, bolsa de trabalho e outros, que muitas vezes não se limitam a membros da comunidade.

Acusações e rupturas

Até 1952/53, o ICUF (Idisher Cultur Farband – Federação de Entidades Culturais Judaicas, expressão do espaço progressista) integrava a DAIA. Profundas diferenças políticas e dissensões acerca da administração financeira das redes escolares fizeram com que o ICUF se retirasse / fosse expulso da DAIA e tomasse um rumo autônomo e independente.

A partir de então, duas grandes correntes políticas passaram a existir dentro da comunidade: a progressista, representada pelo ICUF, e a conservadora, pela DAIA.

A DAIA , tendo se arrogado a total e absoluta representação política da comunidade, era, até há pouco tempo, a única interlocutora da comunidade com o governo da vez. A AMIA adquiriu presença política em consequência do brutal atentado de 1994.

À primeira ruptura seguiram-se outras. Uma série de fatos recentes da vida política argentina marcou ainda mais as diferenças já existentes. Em primeiro lugar, os brutais atentados contra a Embaixada de Israel (1992) e a AMIA (1994) significaram uma quebra entre  DAIA-AMIA, de um lado, e os familiares das vítimas, de outro. Isso se deveu à inação, falta de iniciativa, quando não cumplicidade ‒ aberta ou não ‒ dos dirigentes com as investigações, inclusive participação no encobrimento destas, resultando numa impunidade já de duas décadas.

Organizações como Memoria Activa, Agrupación por el esclarecimiento de la masacre impune de la AMIA (APEMIA) e  Asociación 18J Sobrevivientes, Familiares y Amigos de las Víctimas del Atentado a la AMIA se separaram da AMIA-DAIA por entender que essas entidades não cumprem o papel que lhes corresponde. Entre outras coisas afirmam que “há 20 anos a Justiça trabalha para legitimar a impunidade do atentado à AMIA e também do atentado à Embaixada de Israel …  a muitos dos que hoje  se batem no peito pedindo justiça, sugere-se que procurem o processo e vejam o que a AMIA e a DAIA estão fazendo a respeito do encobrimento ‒ nada, absolutamente nada… para saber a verdade faz falta decisão política…”

A situação piorou quando, em 2013, o governo argentino decidiu assinar um Memorando de Entendimento com o Irã no qual se procurava fazer avançar a “causa AMIA”, concordando com a criação de uma Comissão da Verdade (composta por juristas internacionais para cooperar com a investigação) e estabelecendo que a Justiça argentina (através do juiz Canicoba Corral e do promotor da causa, Alberto Nisman) interrogaria os suspeitos iranianos que tivessem prisão cautelar pedida pela Interpol.

Jorge Elbaum, embaixador argentino na Alianza Internacional por la Memoria del Holocausto; Jorge Schusseim, músico e escritor; Marcelo Horestein, secretário do ICUF;   Beinusz Szmukler, presidente da Asociacion Americana de Juristas; Maira Visacovsky, diretora do Centro Cultural Israelita I.L.Peretz (Lanus)

Jorge Elbaum, embaixador argentino na Alianza Internacional por la Memoria del Holocausto; Jorge Schusseim, músico e escritor; Marcelo Horestein, secretário do ICUF;
Beinusz Szmukler, presidente da Asociacion Americana de Juristas; Maira Visacovsky, diretora do Centro Cultural Israelita I.L.Peretz (Lanus)

Polifonia interessante

A Memoria Activa e a 18J receberam essa decisão de forma positiva, assim como o ICUF e outras organizações, mas a DAIA e a AMIA, pressionadas pelos EUA e por Israel, rejeitaram-na de imediato. A APEMIA a considerou insuficiente. O tom se elevou com as duras críticas feitas pelo reconhecido jurista dr. Daniel Sabsay, que acusou o chanceler Timerman de “traidor”, recebendo a adesão do conjunto DAIA-AMIA.

Diante disso, uma parcela bastante ampla e heterogênea da comunidade se pronunciou a favor do Memorando e em apoio a Timerman, opondo-se com mais vigor ao tipo de representação política única exercida pela DAIA e mostrando que, dentro da comunidade, não existe unicidade, e sim uma polifonia muito pronunciada e interessante. Na esteira dessa questão e de outras (aniversário da libertação de Auschwitz, monumento às vítimas do Holocausto judeu), pela primeira vez foram convocadas à Chancelaria ou a gabinetes oficiais de alto escalão outras entidades que se encontram além do “universo DAIA”.

Finalmente, a morte do promotor Nisman acabou por definir espaços. Ele era duramente criticado pelas organizações de familiares devido a sua passividade e ao reduzido avanço nas investigações, mas sua morte originou, com o pretexto de exigir esclarecimentos, a Marcha de 18 de fevereiro, ato de forte oposição ao governo argentino e do qual a DAIA foi uma das patrocinadoras.

Como resultado surgiu, entre os que não se sentiam representados pelas posturas da DAIA, o Chamamento de Argentinos de Origem Judaica, que contou com a adesão, num primeiro momento, de cerca de 2500 assinaturas de personalidades da cultura, do jornalismo, da política e das atividades cidadãs entre outras.

O denominador comum é rejeitar que a DAIA monopolize a representação política de todos os argentinos de identidade judaica, já que nasceu para combater o antissemitismo e não para representar politicamente todos os judeus. Muitos judeus se sentem totalmente indiferentes ou alheios à atitude dos dirigentes comunitários devido a uma soma de decisões políticas por eles tomadas. As direções da DAIA e da AMIA ignoram que muitos cidadãos de origem judaica não se identificam com o discurso delas ou com as suas posturas a respeito de questões nacionais e internacionais.

O Chamamento não pretende constituir-se em porta-voz da totalidade dos argentinos de origem judaica, mas ser outra voz, que se pronuncie de maneira independente, sem tampouco limitar-se às orientações do governo israelense de plantão.

Seguindo essa trilha, realizou-se uma primeira plenária no dia 22 de abril, por ocasião da comemoração do Levante do Gueto de Varsóvia, e se planeja um ato para o dia 18 de julho, data do 21° aniversário do atentado contra a sede da AMIA.

Boletim nº 154 – maio/junho de 2015 – Ano 27

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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