A Argentina na 2ª Guerra Mundial

Em 1930 produziu-se na Argentina o primeiro golpe de Estado. Derrotado o presidente constitucional H. Irigoyen, o governo militar que surgiu impôs em 1932 eleições viciadas estavam ilegalizadas as forças populares, nas quais triunfou o general Agustín Justo. Justo governou até 1938, dando lugar a outro governo espúrio, integrado pela dupla Ortiz (radical de direita) – Castillo (conservador), que deveria governar até 1944. Todo esse período é conhecido na História argentina como “a década infame”, já que esses governos eram produto da chamada “fraude patriótica”. Além da bárbara repressão contra o movimento operário e a esquerda inaugura-se nessa etapa o  choque elétrico contra militantes sindicais comunistas e anarquistas, suas políticas econômicas eram orientadas para favorecer os setores altos da sociedade, em especial a oligarquia criadora de gado bovino, que enriqueceu com a exportação de carne fundamentalmente para o Império Britânico.

Ato em apoio à Alemanha Nazista, Buenos Aires, 10-4-1938

Ato em apoio à Alemanha Nazista, Buenos Aires, 10-4-1938

Tanto assim que, em consequência da crise de 1930, dois anos depois foi assinado o tristemente célebre pacto Roca (vice-presidente argentino) – Runciman (encarregado de negócios britânico), que garantia a exportação de uma cota de carne em condições lamentáveis ante as medidas restritivas tomadas pela Grã-Bretanha em favor de seus domínios e colônias: uma verdadeira entrega. Paralelamente, descobriram-se várias negociatas em torno de carne (em maio de 1935, o senador Lisandro de la Torre acusou de fraude e sonegação fiscal os frigoríficos Anglo, Armour  e Swift), transporte público, terras e loteria, entre outras, envolvendo altos funcionários do governo e gente ilustre, e tingindo essas administrações de uma aura de corrupção.

Simultaneamente, o Exército foi aumentando o seu poder político e de fogo. Político porque, desde a sua incursão para controlar o Estado, era a força que sustentava qualquer governo; militar porque sua capacidade aumentou muito, equipando-se com armamento mais moderno e recebendo assessoria muito especial de militares alemães, o que potencializou as simpatias pró-prussianas já existentes dentro dessa Arma.

Nesse período as elites voltaram a marginalizar politicamente como antes da sanção da Lei Sáenz Peña, de 1912 as classes médias em ascensão. A volta à fraude eleitoral distanciava as maiorias populares da possibilidade de decidir os seus destinos. A sociedade se preparava para as grandes mudanças que se avizinhavam em meados dos anos 1940. Mas ainda faltava muito tempo, muito sofrimento e muita luta. Estavam começando tempos claramente perversos.

Direita e esquerda crescem

Esse cenário foi configurando um panorama muito particular. Setores de tendência nacionalista de direita e de esquerda começaram a ter certa relevância. Por um lado, grupos originários da União Cívica Radical (UCR), basicamente intelectuais, opostos à condução partidária conservadora, constituíram a Força de Orientação Radical da Jovem Argentina (FORJA). Com uma plataforma anti-imperialista, mas fundamentalmente antibritânica, influíram ideologicamente sobre alguns setores políticos, publicando trabalhos de pesquisa econômica e de denúncia da dependência. Por outro lado, os nacionalistas de direita, que já tinham uma base bastante sólida, começaram a desenvolver uma postura germanófila, como a oposição à presença britânica e à penetração norte-americana. A essa postura se somou o ingrediente anterior de um catolicismo retrógrado e antissemita. O conjunto desses elementos resultou numa concepção autoritária e xenófoba, coincidente com os ideários nazifascistas em ascensão.

No lado oposto, verificou-se um avanço constante na organização do movimento operário. Superando a dispersão sindical, fundou-se a CGT – Confederação Geral do Trabalho, marcada fortemente pela disputa político-ideológica entre sindicalistas, socialistas e comunistas, e se multiplicaram os sindicatos de base, especialmente na área industrial.

Além disso, a Guerra Civil Espanhola teve grande influência. Em adição aos mais de mil voluntários que engrossaram as Brigadas Internacionais, constituíram-se centenas e centenas de comitês de solidariedade com a República em uma extensão territorial, social e cultural enorme, a tal ponto que foi preciso organizar a Federação de Organizações de Ajuda à República Espanhola para coordenar tantos esforços.

Assim como a direita, conservadora, nacionalista e filofascista, também a esquerda vinha crescendo. Um fato singular foi o ato do 1º de maio de 1936, que reuniu em poderosa manifestação a CGT, os partidos Socialista e Comunista, e outros, que vislumbraram a possibilidade de criar uma espécie de Frente Popular, semelhante às experiências que aconteciam na França, na Espanha e no Chile.

Acrescia a isso tudo o incentivo que a Embaixada alemã dava a grupos nazistas, fornecendo-lhes propaganda e substanciais recursos econômicos. Várias publicações exacerbavam as posturas antissemitas e antiesquerdistas preexistentes, promovendo o tradicional silogismo que identificava judeu com russo e russo com comunista. Publicações como Clarinada, La Fronda, El Pampero, e outras locais difundiam o ideário nazista complementado com escolas, clubes, igrejas e programas de rádio. Em 10 de abril de 1938, um ato de apoio em massa ao 3º Reich teve lugar no Luna Park, em Buenos Aires, o maior desse tipo realizado até então fora da Alemanha. Uns 15 mil nazistas argentinos festejaram a anexação da Áustria pelo regime nazista no mesmo dia em que, na Alemanha, Hitler ganhava um plebiscito com 99% dos votos. Muitos, tomados de fervor naquele Luna Park lotado, gritavam em coro “Heil Hitler!”, em um cenário decorado com bandeiras alemãs e argentinas gigantescas, cruzes suásticas enormes, uniformes nazistas e uma organização quase militar, de acordo com uma crônica publicada na época pelo jornal conservador La Prensa. Enquanto isso, na Praça San Martín, ali perto, grupos de jovens democratas convocaram uma manifestação antinazista, mas a polícia reprimiu, causando mortes e fazendo detenções.

O governador da província de Buenos Aires, a mais importante do país, Manuel Fresco, simpatizava com Mussolini e permitia o desfile público da Legião Cívica Argentina, organização paramilitar fascistizante. Senadores e ministros como Sánchez Sorondo (1932-41) e Martínez Zuviría (1943-44) discursavam sobre a suposta conjuração mundial judaico-comunista, professando abertamente posições fascistas, antissemitas, anticomunistas e xenófobas. Nessa época, milhares de militantes políticos, trabalhadores organizados e estudantes estavam presos, eram torturados ou, caso fossem estrangeiros, expulsos.

É esse o contexto argentino quando, em 1º de setembro de 1939, a Alemanha invade a Polônia. Imediatamente Grã-Bretanha e França declaram guerra, e começa o conflito europeu. A Argentina se declara neutra, diferentemente de vários países latino-americanos, apesar das pressões da Grã-Bretanha. Em 1941, os EUA entram na guerra, que passa a ser mundial, e as tensões aumentam. O chanceler argentino, na conferência do Rio de Janeiro em 1942, continua defendendo a neutralidade.

Perón

Em 1943, o Exército, encabeçado pelo Grupo de Oficiais Unidos (GOU), por meio de outro golpe de Estado, derruba o governo Ortiz – Castillo. Com a desculpa da luta contra a corrupção, o liberalismo e a penetração norte-americana, esse grupo heterogêneo, onde convivem nacionalistas, filofascistas, pró-britânicos e outros, toma o poder e instaura uma ditadura mais uma, que prossegue com a neutralidade. Internamente, acaba com os líderes dos sindicatos, continua com a repressão à esquerda, mas começa a tomar algumas medidas de caráter social que causam forte impacto na classe operária, dando lugar ao que passará a ser o peronismo.  Mesmo havendo sucessivas trocas de cúpula (Rawson – Ramírez – Farrell – Perón) e continuando as simpatias às forças do Eixo, o curso que a guerra vai tomando, especialmente depois de Stalingrado, faz com que, tardiamente, em 1945, a Argentina declare guerra à Alemanha, diante de sua evidente derrota.

Não é fácil responder por que a Argentina se manteve neutra durante grande parte da Segunda Guerra Mundial. Foram partidários da neutralidade setores dirigentes tradicionais, que valorizavam o vínculo com a Grã-Bretanha e a Europa e se opunham às pretensões hegemônicas dos EUA. Também eram a favor da neutralidade alguns núcleos pró-Eixo nas Forças Armadas e grupos civis do nacionalismo católico, assim como os “nacionalistas populares” (FORJA, Amadeo Sabattini na UCR) e grupos de interesse vinculados ao processo de industrialização e ao desenvolvimento do mercado interno. Contra a neutralidade se pronunciaram, dentro das elites tradicionais, algumas figuras relevantes como o ex-ministro da Fazenda Federico Pinedo (filho), que via que o centro do mundo estava se deslocando e era partidário da uma aproximação com os EUA, abandonando parte dos vínculos com a Europa. Também a esquerda defendia a intervenção na guerra como forma de apressar a queda do nazismo e o triunfo dos aliados. Tanto assim que surgiu um potente movimento de massas, as Juntas da Vitória, que enviaram enorme quantidade de ajuda às frentes de luta, especialmente para a União Soviética. A manifestação por ocasião da libertação de Paris reuniu uma multidão e expressou o sentimento de uma grande parte da população argentina.

Contudo, do início de 1944 até o de 1946 a Argentina já não era mais neutra a problemática externa se confundiu com o desenrolar da política interna, e o eixo fascismo-antifascismo teve a ver mais com o surgimento de Perón e do peronismo e com a atitude contra estes por setores de oposição do que com a política externa do país.

Especial para ASA

 

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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