Rua São Clemente, 155

Fachada do Casarão (1920) comprado pela ASA em 1964

Fachada do Casarão (1920) comprado pela ASA em 1964

O Casarão na frente do terreno onde hoje se situa a sede da ASA tem uma história bastante curiosa. Apesar de ser desconhecido o proprietário na época de sua construção, o Casarão abrigou durante mais de 40 anos a Casa de Saúde Dr. Abílio. Hospital especializado em psiquiatria, tornou-se uma das mais importantes instituições da sua época, tendo sido adquirido pela ASA em 1964, dos filhos do doutor Abílio Carlos de Carvalho, que mantiveram a unidade em pleno funcionamento desde a morte de seu fundador, em 1936.

A história do doutor Abílio foi muito conhecida na cidade do Rio de Janeiro na década de 1920, em virtude de uma disputa judicial pela posse de um terreno onde ele havia construído sua Casa de Saúde, no morro de Dona Marta, onde hoje existe a favela. Cada argumentação das partes envolvidas, cada decisão judicial e as discussões subsequentes eram acompanhadas pelos jornais como se fossem novela.

Nascido no Rio em 1887, de uma família ligada à Marinha do Brasil, formou-se em Medicina pela antiga Faculdade Nacional de Medicina, hoje UFRJ. Recém-casado com dona Arminda Brás da Cunha, mudou-se para a cidade de Paraíba do Sul, em Minas Gerais, fundando a primeira Casa de Saúde Dr. Abílio. Após um bem-sucedido tratamento na esposa de um rico fazendeiro da região, foi-lhe cedido pelo latifundiário agradecido um terreno de sua propriedade para a construção de um novo hospital e retorno da família Carlos de Carvalho à sua cidade natal.

Após a construção do novo Hospital, o doutor Abílio havia conseguido realizar todos os seus sonhos: retornara à sua cidade, possuía a mais moderna instituição psiquiátrica do país, gozava de grande prestígio na comunidade científica e havia constituído uma família exemplar com quatro filhos. Nada podia dar errado!

Prisão

No final da década de 1910 morre o proprietário do terreno no morro de Dona Marta, que havia cedido o espaço para a construção do hospital. Já instalado definitivamente no imóvel, o doutor Abílio é surpreendido pelo desejo dos herdeiros do fazendeiro mineiro de retomarem a posse do terreno. Como resolver essa questão, se havia agora um hospital construído onde antes havia apenas mato?

Retrato do Dr. Abílio, 1935

O processo judicial arrastou-se por mais de uma década. Sem condições de permanecer no imóvel, o doutor Abílio comprou o casarão da Rua São Clemente, 155 no início da década de 20, fez as adaptações necessárias a uma casa de saúde e se estabeleceu no local. Ao final da disputa judicial, Abílio perdeu a causa. Em fúria, ofendeu dois desembargadores que julgavam o caso e acabou preso em 1929. Na prisão, onde permaneceu por mais de um ano, adquiriu tuberculose e morreu em junho de 1936, após longo período de doença. Os proprietários do terreno nunca tomaram posse e a área transformou-se em favela.

Modelo

Na época em que abrigava a Casa de Saúde, o Casarão tinha um aspecto bem diferente do atual. O prédio principal foi mantido em sua estrutura básica, mas a escadaria e a varanda lateral em ferro, com quase dois metros de largura, que dava acesso a todos os cômodos do segundo andar e terminava nos fundos dessa sede principal, foram retiradas. A funcionalidade do imóvel enquanto hospital era garantida pela distribuição das diversas alas. Assim, no andar térreo ficavam a enfermaria masculina, o refeitório, a copa e a cozinha; no segundo andar, com acesso através da varanda, situavam-se os consultórios, o escritório administrativo, os quartos da família e dos médicos residentes, uma grande biblioteca que ocupava toda a frente do prédio, bem como a sala de jantar e uma pequena copa ao fundo; o terceiro andar abrigava a enfermaria feminina.

Os Carvalho, 1932

Os Carvalhos, 1932

Em sua época, a Casa de Saúde Dr. Abílio representou uma instituição modelo no tratamento das doenças mentais. Possuía instalações consideradas então bastante incomuns: sala de cinema para exibição dos últimos lançamentos de Hollywood, quadras de esportes polivalentes, centro de terapias ocupacionais com equipamento completo para todas as artes plásticas, incluindo farto material para pintura a óleo, aquarela, telas, pincéis, etc.

O aproveitamento do terreno da Casa de Saúde foi planejado para atender as necessidades de um hospital psiquiátrico moderno. Pode-se observar que a estrutura do Casarão original está disposta à direita do espaço. Na ocupação inicial, foi construído um anexo nos fundos que abrigava a copa, a cozinha e a despensa. O galinheiro ‒ não havia frango congelado naquela época ‒ ficava em frente à porta de saída lateral da cozinha. Seguindo a partir do final desse prédio principal, sempre pelo lado direito, em sequência, tínhamos: o jardim feminino (à esquerda, o masculino), o centro de terapia ocupacional e artes plásticas, o cinema / teatro, a grande lavanderia e o incinerador ao fundo. Do lado esquerdo, em sequência: o jardim masculino, uma estrutura coberta com duas mesas de ping-pong e a quadra poliesportiva ao fundo. A propriedade era muito arborizada com mangueiras, pitangueiras, goiabeiras, etc., e junto à parede do lado esquerdo do terreno havia um longo canteiro, belíssimo.

Tratava-se de uma instituição moderna e humanizada, que se relacionava com os pacientes com muito respeito e carinho. Além disso, os membros da família Carlos de Carvalho participavam diretamente do dia a dia e das atividades dos internos, tirando-lhes a impressão de se encontrarem num frio ambiente hospitalar. Esse perfil familiar fazia da Casa de Saúde Dr. Abílio uma instituição sui generis, conhecida por todos na cidade.

A família Carlos de Carvalho se sente muito honrada com a ocupação pela ASA desse fantástico imóvel, que até hoje é motivo para nosso orgulho.

Especial para ASA

Paulo Roberto Carlos de Carvalho

Tem 60 anos e é neto do doutor Abílio. Médico especialista em Acupuntura, cresceu na Casa de Saúde até os nove anos de idade.

5 Comentários

  • Responder dezembro 28, 2015

    Clara Goldfarb

    Recuperar a história do casarão da ASA, com fotografia, detalhes da ocupação, dados biográficos dos primeiros proprietários e ocupantes, é o que considero um verdadeiro tesouro. Incrível é que só agora, após 51 anos essa matéria nos chega às mãos.
    Lembro bem dessa escada lateral na época da inauguração da ASA.
    A ASA está de parabéns.

  • Responder dezembro 28, 2015

    Paulo Roberto Carlos de Carvalho

    Agradeço a Sara Gruman, responsável pela realização dessa reportagem, pelo carinho, interesse e respeito.

  • Responder janeiro 1, 2016

    Lucia Carlos de Carvalho

    Foi um imenso prazer ler essa matéria, tão importante para mim, já que lembrei
    da minha infância; dos almoços de Domingo em família, dos jardins belíssimos ,
    de festas de final de ano e uma festa caipira quando completei 5 anos.
    Foi uma alegria relembrar esse momento tão importante da minha história.
    Adorei ler!!!!

  • Responder janeiro 3, 2016

    Renato Mayer

    Belo levantamento histórico ! Saber que estamos cuidando de um patrimônio da cidade nos deixa orgulhosos da história da ASA!

  • Responder março 7, 2016

    Basse Silber

    Foi com imenso prazer e curiosidade que li a história do casarão da ASA!

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