Parar de gritar, começar a agir

Davi Windholz é educador e doutor em Psicologia Social. Mas pratica a arquitetura, e de uma forma nada convencional ‒ procurando nas relações humanas projetar o ambiente propício a uma integração entre jovens palestinos e israelenses que viabilize a ideia de um Estado para cada um dos dois povos.  Vivendo em Israel desde a década de 1970, Davi esteve recentemente no Rio  para estabelecer contato com entidades que se identificam com o trabalho da ONG Alternative for Peace, da qual  é o criador e coordenador. Baixada a poeira após as polêmicas declarações de Caetano Veloso sobre Israel, inclusive com referências ao ativista, Davi deu a entrevista a seguir ao Boletim ASA.

Davi Windholz

Davi Windholz

ASA – Quais têm sido os resultados de sua ONG no trabalho de integração entre jovens israelenses e palestinos? Existe iniciativa semelhante entre os palestinos?

Davi  Windholz – Existem pelo menos dez ONGs que fazem seminários com jovens judeus e árabes israelenses e palestinos. Além disso, há encontros entre jovens de escolas judias e árabes. Mas, em geral, duram de um a três dias. Alternative for Peace, Dialogue and Nonviolent Communication tem uma visão diferente. Acreditamos num trabalho constante, a longo prazo. Acreditamos também que quanto mais cedo colocarmos em contato crianças judias, árabes e palestinas , criaremos uma relação sem estereótipos. Por isso nossos programas começam com crianças de seis anos. Temos atividades de um dia para mais de 6 mil crianças e de quinze a trinta dias para aproximadamente 500 crianças. Os resultados são ótimos. As crianças frequentam anualmentes as nossas colônias de férias, durante quatro a cinco anos, absorvendo um ambiente de tolerância, diálogo, respeito e liberdade. Falta verba para pesquisar sobre os resultados, mas, conversando com os pais e as crianças sentimos que existem muito menos estereótipos, racismo e, ao contrário, uma relação de respeito e amizade. É muito bom vê-los no primeiro dia abraçando amigos do ano passado e já saindo para brincar.  Planejamos criar nos próximos anos cinco centros bilíngues hebraico-árabe em Israel e um na Palestina (Gush Etzion), objetivando uma integração real na vida dessas crianças e jovens, com visitas às casas e amizades duradouras. Esperamos que no futuro parte dessa geração de crianças e jovens assuma lideranças (comunitárias ou políticas) com uma visão diferente do mundo judeu-árabe. Mas precisamos de 50 mil dólares para levantar um centro, e no momento não temos apoio do governo nem de nenhuma organização particular. Por isso estamos criando um crowdfunding. Também realizamos seminários para jovens de Israel, Palestina e Diáspora. No Brasil, temos uma relação muito forte com a Chazit Hanoar, uma vez que venho da CIP (meus avós Ida e Alberto Hofmann foram os fundadores), e com outras tnuot, da época em que trabalhava no Machon LeMadrichim (dando aulas de Educação e Inteligência Emocional). Recriei a Chazit em Porto Alegre. Os seminários buscam um diálogo sincero entre duas narrativas para que judeus e palestinos se conheçam e se humanizem. Em agosto de 2015, pela primeira vez, realizamos com palestinos e colonos judeus religiosos uma colônia de férias em Gush Etzion (Cisjordânia). Foram três dias emocionantes, com 50 crianças. É preciso entender que nossas atividades em Israel são na Galileia, com judeus e árabes que em sua maioria pensam como nós. Na Cisjordânia, até então, não havia nenhuma possibilidade de diálogo. Judeus colonos e palestinos eram inimigos. Foi a primeira vez que criamos um diálogo entre as partes. Apesar de sermos uma instituição educacional, politicamente quem participa nas nossas atividades aceita a reconciliação e a necessidade de dois estados.

ASA – A Alternative for Peace trabalha junto com outras ONGs? Existe uma articulação formal entre estas ONGs?

D.W. – Além do trabalho com crianças, temos cooperação com mais de vinte outras ONGs nas áreas de juventude, mulheres (principalmente no que se refere a combater a violência contra a mulher), direitos humanos, empowerment comunitário, diálogo judeus-árabes-palestinos, Dois Estados, Uma Pátria e educação. Trabalhamos também com organizações e pessoas cujo objetivo seja a reconciliação entre o povo judeu e o povo palestino e a criação do Estado palestino ao lado do Estado de Israel. Outra cooperação é com o projeto “lado a lado”, planejado pelo atual embaixador do Brasil na ONU e levado adiante (sem o nome lado a lado) pelo JUPROG (Judeus Progressistas) no Brasil e pela Alternative em Israel, apoiado pelos embaixadores do Brasil em Israel e na Palestina. Temos projetos relacionados com futebol, música e artes plásticas, envolvendo  ONGs de Israel e da Palestina, numa triangulação com o Brasil. A vinda de Caetano, que causou tanta polêmica na comunidade judaica no Brasil, e a minha ida ao Brasil fazem parte destes projetos. Aproveito a oportunidade para declarar que Caetano em nenhum momento disse que iria se integrar ao BDS [boicote, desinvestimento, sanções contra Israel]. A sua postura é igual à de centenas de milhares de israelenses, contra a ocupação. Nosso trabalho é justamente criar uma terceira voz, entre o boicote dos palestinos através do BDS e a manutenção do status quo. Essa voz exige uma atitude pró-ativa de Israel e da Palestina no que se refere à reconciliação, à retirada dos territórios ocupados e à criação do Estado palestino ao lado do Estado de Israel. As três vozes são legítimas, mas duas delas são totalmente contraproducentes.

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Davi e um grupo de crianças israelenses e palestinas

ASA – Como a sociedade israelense reage ao tipo de trabalho de sua ONG?

D.W. – Em geral, de forma positiva. Principalmente na Galileia, onde mais trabalho, a população entende que não é só uma questão ideológica, mas uma necessidade.  

Mas a maioria ‒ infelizmente mais os judeus do que os árabes palestinos ‒ não quer colocar seus filhos em contato com o outro lado. A minha proposta é educativa ‒ humanizar o inimigo através da educação e da reconciliação ‒, e isto exige o reconhecimento do Estado palestino. Logicamente, existem setores que não gostam do meu trabalho e da minha proposta.

ASA – Pesquisas recentes mostram um sentimento crescente de desencanto entre os israelenses, que duvidam cada vez mais de uma paz com os palestinos. Como analisa esta situação?

D.W. – O atual governo vem há mais de seis anos infundindo o medo na população. Sendo formado por partidos de direita e extrema-direita e tendo maioria na Knesset, que anexe os territórios, que use da força para controlar a atual intifada, que imponha as leis anti-democráticas e nacionalistas que declararam antes das eleições. Por que não cumpre a sua plataforma política?  Porque sabe que este não é o caminho. Está na hora de pararem de gritar como se estivessem na oposição e começarem a agir, a ser pró-ativos, a propor algo e não só recusarem. Esta situação criou uma frustração muito grande na população. Por outro lado, a Autoridade Palestina não ajuda em nada. Também não toma iniciativas. Ao que parece, não fazer nada é positivo para os dois governos.

ASA – Em quê iniciativas como a da sua ONG, que atua numa área restrita, poderiam contribuir para reverter o quadro?

D.W. – A minha ONG atua num processo de baixo para cima. Faz trabalho de formiga, a longo prazo. Tentamos criar um ambiente de reconciliação, de aproximação entre o povo de Israel e o povo da Palestina. Trabalhamos em tudo que é contra a violência. Esperamos criar uma massa crítica, com todas as ONGs que trabalham de baixo para cima. Paralelamente cooperamos com organizações que trabalham de cima para baixo, principalmente com 2 States 1 Homeland (Dois Estados, Uma Pátria), que atua como movimento político e não como partido, tentando influenciar e criar um processo que ponha  fim ao conflito. Existe um Israel que trabalha em prol da paz. E estamos, pela primeira vez, tentando fazer um chamado às comunidades judias e palestinas na Diáspora para se unirem e caminharem juntas em projetos pelo fim do conflito, pela paz e pelo Estado palestino.

ASA – Em sua recente visita ao Brasil, você manteve contato com comunidades judaicas de vários estados. Como avalia a percepção que os brasileiros judeus têm sobre o Oriente Médio? 

D.W. – No Brasil, trabalho principalmente com o JUPROG, uma espécie de JStreet nos EUA ou JCall na Europa, com os quais também estamos em contato. A ideia é criar uma segunda voz na Diáspora que seja a favor do Estado de Israel, mas não necessariamente a favor do governo de Israel. Com a carta de Caetano, houve um turbilhão na comunidade, e eu fui acusado de dar armas aos inimigos, principalmente aos antissemitas. A comunidade exige que se lave roupa suja em casa e se adote para fora uma postura monolítica. Tenho todo o direito de discordar, e não, como alguns afirmaram, que, por não viver no Brasil, não conheço a realidade e a ameaça antissemita. Faz mais de trinta anos que trabalho com a comunidade brasileira, como sheliach, como palestrante. Vou constantemente ao Brasil e estou bem informado do que acontece no país. Acredito que a postura monolítica é a raiz dos nossos problemas de hasbará [propaganda oficial]. Não podemos seguir defendendo cinquenta anos de ocupação, da corrupção que está havendo em Israel, das falhas morais do Exército nos territórios ocupados, da colonização em massa da Cisjordânia, de movimentos terroristas como Tag Mechir [etiqueta de preço], de atitudes antidemocráticas que certos setores do governo querem nos impor. Existe uma relação simbiótica entre Israel e as diásporas. De acordo com a minha postura sionista, acredito que Israel é o centro do mundo judaico e que existem satélites (alguns desaparecerão, outros se fortalecerão) criativos e participativos na vida e na criação judaica. Uma postura multifacetada da comunidade judaica brasileira aumentará a sua credibilidade em relação à comunidade maior. Em minha estadia no Brasil dialoguei com a comunidade judaica, com meios intelectuais-acadêmicos, com a esquerda (partidos e organizações sociais), inclusive com o BDS. Palestinos estiveram em meus workshops e em palestras, como participantes ou debatedores. Em nenhum caso senti antissemitismo e nem pessoas incapazes de escutar e pensar. A minha postura crítica ao governo de Israel, mas também às autoridades palestinas, respeitando pelo menos duas narrativas, tornou  meus argumentos confiáveis. Não posso esperar que, ao dialogar, todos terminarão concordando comigo. O que, sim, consegui é que todos queiram prosseguir com o diálogo, se a comunidade se preparar e se organizar para tal, propondo uma outra forma de hasbará que não seja a monolítica. A Diáspora não é só um talão de cheques e um calar a boca. Ela é criativa e ativa. Fora do trabalho político, fiz uma série de workshops com educadores do sistema formal e não formal nas áreas de inteligência múltipla e emocional e sistemas educativos alternativos, principalmente voltados às áreas judaicas. Está na hora de a comunidade judaica brasileira entender que precisa criar processos próprios. Os modelos globais têm que se adaptar à realidade local. Já existem alguns eixos na CONIB e em escolas que se estão definindo como progressistas. Isso é muito bom. Eu vivo em Israel e trabalho por uma melhora, por tikun olam. Israel é um milagre, se pensarmos que em cem anos criamos uma sociedade com fortes bases democráticas, tecnológicas, científicas, econômicas. Mas temos que aceitar que os erros cometidos nestes cem anos criaram conflitos entre setores do nosso povo (ashquenazis-sefaradis, laicos-religiosos, etíopes) e entre nosso povo e o povo palestino, parte por culpa deles e parte por culpa nossa. Cinquenta anos de ocupação e domínio sobre outro povo, sem entrar na discussão de quem é o culpado, criam uma plataforma ideal para corrupção, perda de valores morais, perda da bússola sionista, o movimento de libertação do nosso povo. Para libertar-nos temos que libertar o povo palestino. Tudo isso a comunidade judia brasileira pode e deve influenciar. Todá por me receberem de braços abertos na maioria dos lugares. Àqueles que se interessam pelo nosso trabalho e acreditam que centros bilíngues hebraico-árabe para crianças judias, muçulmanas, cristãs e druzas podem criar uma nova realidade sugiro que entrem em nosso site-projeto Merchavim:

http://www.jumpstarter.co.il/project.en.asp?pid=25E8F995-6221-4BE1-B285-0EADD0CE242C

 https://youtu.be/11r51pP7pLw

Especial para ASA


 

Jacques Gruman

É diretor (licenciado) da ASA.

2 Comentários

  • Responder dezembro 28, 2015

    Clara Goldfarb

    Entrevista importantíssima. Necessário divulgá-la o máximo possível.

  • Responder dezembro 29, 2015

    Raul Guelman

    Parabéns. Entrevista muito oportuna.

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