O verdadeiro crescimento da direita*

Em tempos de confusão política e ideológica, como o que vivemos, é comum ressurgir a pergunta: ainda tem sentido que se fale em direita e esquerda?

Como é sabido, essas expressões surgiram na política depois da Revolução Francesa de 1789, quando os membros da Assembleia Nacional que defendiam o aprofundamento das mudanças sentavam-se à esquerda, e os conservadores, à direita.

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A partir daí, direita e esquerda ganharam significado universal. Numa definição simplificada, pode ser dito que quem é de esquerda defende a redução ou a eliminação das desigualdades sociais, enquanto quem é de direita quer manter o status quo (no caso dos conservadores), ou mesmo retroceder e aprofundar as diferenças sociais (no caso dos reacionários).

Apesar da confusão em que se vive hoje – e ainda mais por causa dela ‒, é importante reafirmar a vigência desses conceitos. Quando menos para ajudar a definir os campos. E vale lembrar: em geral quem afirma que não há mais distinção entre direita e esquerda é de direita.

Este artigo vai tratar especialmente da situação no Brasil, mas cabe uma referência à situação internacional. É verdade que os regimes da antiga União Soviética e dos países da Europa Oriental estavam muito longe do que se poderia considerar socialismo. A própria forma como desabaram o demonstra. Ainda assim, aquele bloco representava um contraponto à agressividade que, em muitos momentos, deu a tônica da política externa das potências capitalistas.

Quando ele deixou de existir, os Estados Unidos e os países da OTAN passaram a ter uma liberdade maior para sua política imperialista. Vieram intervenções militares, diretas ou indiretas, em países como Iraque, Líbia e Síria, mas não apenas nestes. Elas atropelaram regimes, que, apesar dos pesares, davam alguma estabilidade à região. A partir daí, se desenvolveram movimentos religiosos fundamentalistas armados, como o tal Estado Islâmico, que estão na origem do gigantesco drama social responsável por centenas de milhares de mortos ou desabrigados.

A existência dos refugiados da África e do Oriente Médio, além de significar, em si, uma gigantesca tragédia, serviu para fortalecer a xenofobia e o racismo na Europa. Mesmo trabalhadores que simpatizavam com partidos de esquerda sentiram seus empregos ameaçados e se inclinaram para a direita.

Assim, se comparado com o de algumas décadas atrás, o quadro internacional mudou. Para pior.

Desmoralização da atividade política

No Brasil, depois de mais de doze anos de governos do PT, paradoxalmente a direita também cresceu. E isso ocorreu não por ela ter reagido ao ver interesses ameaçados. Tal ameaça não existiu. Ainda que se reconheça que, em particular nos primeiros anos petistas, os programas sociais e a recuperação do poder de compra do salário mínimo tenham diminuído a miséria, eles não afetaram os interesses das classes dominantes. Depois, a falta de reformas estruturais numa sociedade injusta como a nossa fez com que, passada a situação internacional favorável, viesse uma crise de vastas proporções.

É preciso que se diga: havia condições para que os governos do PT tomassem medidas mais arrojadas, tanto no terreno político, como no plano econômico. Além da expectativa da sociedade de que eles vinham para mudar, as primeiras administrações petistas puderam surfar numa conjuntura internacional favorável, com o boom dos preços das commodities no mercado internacional.

No entanto, é inegável que, depois de oito anos de Lula e quatro anos de Dilma, a sociedade está mais conservadora, os movimentos populares estão mais fracos, os sindicatos estão mais apelegados, a democratização dos meios de comunicação está mais fora da pauta e as reformas estruturais, mais distantes.

Algumas das figuras mais reacionárias e deletérias da política brasileira foram prestigiadas e fortalecidas, em nome de uma governabilidade que não serviu para implementar mudanças reais.

Os programas sociais do PT, dos quais o mais emblemático é o Bolsa Família, não são mais elementos diferenciadores do partido. Todas as correntes políticas o defendem e o manterão se estiverem no poder, inclusive as de direita. Programas como o Bolsa Família custam pouco, não afetam as relações de poder e têm efeito apaziguador em relação a movimentos potencialmente contestadores da ordem injusta. Não por acaso, antes de implementados pelo PT, já eram recomendados pelo Banco Mundial.

Por conta da manutenção dos juros como os mais altos do mundo, as aplicações financeiras são o melhor negócio hoje no Brasil. A simples remuneração dos rentistas nos primeiros seis meses de 2015 superou o que foi gasto pelo governo em doze anos de Bolsa Família. E isso, sem que fosse criado um só emprego ou fabricado um só parafuso.

Ao longo do período petista, se enfraqueceu o caráter laico do Estado e cresceu a influência do fundamentalismo religioso pentecostal. O fenômeno, além de trazer problemas imediatos para a democracia, representa uma reserva para a extrema-direita e até para o fascismo no futuro.

A atividade política – que pode ser a mais nobre das ocupações humanas, se exercida com espírito público – se desmoralizou aos olhos da sociedade. Passou a ser vista por muitos como terreno de aproveitadores. A corrupção tornou-se sistêmica e para amplas camadas é algo “que todos fazem”. E, pior, em se tratando dos grandes partidos, a impressão não está longe da verdade.

O comportamento de figurões do PT – que não só participaram de esquemas de corrupção para nutrir os cofres do partido, mas também encheram os próprios bolsos – ajudou a fortalecer esse juízo.

Derrota da esquerda

Esse quadro de desagregação programática, ideológica, política e moral é a face mais clara da derrota de um projeto que um dia foi de transformação. Espelha o fim de um período em que as posições de esquerda poderiam ter avançado muito na sociedade, mas, ao contrário, retrocederam. Independentemente de uma ainda possível (embora não provável) vitória eleitoral do PT em 2018, esse quadro trágico já não será revertido. O projeto PT, tal como existiu algum dia, acabou.

Os retrocessos na sociedade são o pior legado do PT à frente do governo. É provável que, depois de seus governos, abra-se um ciclo de conservadorismo relativamente longo na política nacional. Não por conta de um golpe militar ou de algo do estilo. Mas porque a sociedade caminhou para a direita.

E enganam-se os que pensam que a débâcle do PT atinge exclusivamente aquele partido. Aos olhos da maioria, os governos petistas representaram a experiência da esquerda no poder. Sua derrota é uma derrota da esquerda.

As recentes medidas anunciadas pela presidente Dilma Rousseff (na semana em que este artigo é escrito) mostraram, mais uma vez, que a opção é mesmo fazer com que os pobres paguem os custos da crise. Anunciam-se mais cortes na moradia e na saúde e congelamento salarial para os servidores. E continua-se a não se falar em taxação de grandes fortunas ou aumento dos impostos sobre os lucros astronômicos dos bancos, para ficar apenas nesses dois exemplos.

Os números falam por si. Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas), quem tem renda mensal de até dois salários mínimos paga 54% do que ganha em impostos. Já quem tem renda maior do que 30 salários mínimos deixa para a Receita apenas 29% dos seus gastos.

Isso ocorre porque a maior parte da carga tributária (51,3%) incide sobre o consumo de bens e serviços. E, aí, ricos e pobres pagam o mesmo percentual.

Outros 25% da carga total de impostos vêm de salários. Apenas 18% são sobre a renda. E menos de 4% sobre a propriedade.

Alternativas não faltam. Mas foi feita uma opção de que os pobres paguem a conta da crise. Uma opção que é de direita.

A consolidação de uma situação como essa, e não cartazes saudosos da ditadura empunhados por viúvas do lacerdismo em manifestações de rua, é que configura o verdadeiro crescimento da direita no Brasil.

O drama não reside na existência de senhoras eleitoras de bolsonaros da vida, mas no fato de que o conservadorismo cresceu na sociedade, e governos supostamente de esquerda foram capturados pela direita.

* Tema da palestra dada pelo autor em agosto, no  Seminário 70 Anos do Fim da Segunda Guerra Mundial, promovido pela ASA, na mesa dedicada  ao crescimento da extrema-direita nos dias de hoje.

Especial para ASA

 

Cid Benjamin

Jornalista

2 Comentários

  • Responder outubro 31, 2015

    sergio seibel

    apesar de cesar benjamin, militante do PSOL pensar, assim como seus correligionários, alguns deles petistas arrependidos, que sejam oposição de esquerda, na realidade a sociedade não necessariamente se tornou conservadora, na realidade todas o são, como na prática sempre demonstraram todas as assim chamadas vanguardas revolucionárias, não só no brasil, mas no mundo. ao contrário do que benjamin tenta fazer crer no texto, muito bem elaborado por sinal, as sociedades não podem caminhar por uma trilha que sempre mfoi a dela, mas o que vemos é a total incompetência das assim chamadas esquerdas, que aliás não é a do PT, aliadas a atos de banditismo explícito é que vão levar a sociedade a por fim nessa malfadado projeto de poder e nunca de governo.

  • Responder janeiro 10, 2016

    Fanny Cytryn

    Muito bem elaborado.

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