O contexto histórico da participação brasileira*

O Globo noticia torpedeamento do navio Buarque por submarino alemão

O Globo noticia torpedeamento do navio Buarque por submarino alemão

A participação do Brasil na coalizão anti-hitleriana durante a Segunda Guerra Mundial é hoje um dado da História. A contribuição do país, na medida de suas limitações, ao triunfo da aliança militar encabeçada pelos Estados Unidos e pela União Soviética apresenta-se como uma realidade irrefutável. Setenta anos depois do maior conflito bélico vivido pela Humanidade, o engajamento brasileiro no esforço de guerra dos aliados pode parecer um desenvolvimento lógico, ou mesmo natural, de nossas históricas ligações com os Estados Unidos, França e Inglaterra ‒ já que o mesmo não se pode dizer sobre a Rússia e a União Soviética. Porém, o processo que conduziu o Brasil a optar pela adesão àquela aliança foi mais tortuoso do que parece à primeira vista.

A complexidade vem logo à luz quando consideramos o caráter ditatorial e repressivo do governo brasileiro que declarou guerra à Alemanha e seus aliados em 1943 e no ano seguinte enviou tropas para lutar na Europa. Tratava-se de um governo centrado na figura do líder Getúlio Vargas e sensivelmente influenciado por aspectos da estrutura fascista do Estado chefiado por Benito Mussolini. Um governo apoiado e influenciado por uma corrente de intelectuais autoritários, radicalmente antiliberais e anticomunistas, interessados no organicismo social e nas soluções corporativas para a organização do Estado, de modo a evitar as lutas de classes e a desagregação do corpo social. Nomes como Alberto Torres, Oliveira Viana, Francisco Campos, Azevedo Lima e Cassiano Ricardo, que não ocultavam o seu desprezo pelas “democracias parlamentares” e suas simpatias pelos “Estados fortes” como  Itália, Alemanha, Portugal, Espanha e Japão.

Integravam os altos escalões da administração pública brasileira germanófilos como Filinto Müller, Góes Monteiro e Eurico Dutra. Alguns entre eles haviam se integrado a programas de intercâmbio junto ao exército alemão e, como participantes ativos na repressão ao Levante Aliancista de 1935, recorreram, sem quaisquer considerações éticas, à cooperação da polícia política do 3º Reich para arrancar, sob tortura, confissões dos assistentes políticos e assessores militares estrangeiros enviados pelo Komintern ao Brasil.

A influência da Ação Integralista Brasileira, importante movimento político inspirado no fascismo europeu, ainda se fazia sentir no interior da sociedade, não obstante a interdição e repressão ao movimento depois da tentativa frustrada de assalto ao poder no putsch do Palácio do Catete em maio de 1938.

Possuidor do maior contingente de população germânica fora da Alemanha, o Brasil acolhia em seu seio também a maior seção do NSDAP (partido nazista) no estrangeiro. Além disto, os agentes do serviço de inteligência do Estado alemão (Abwehr) circulavam sem inibições pelas principais cidades brasileiras, municiando as autoridades germânicas com um fluxo intenso e valioso de informações sobre a economia e a sociedade daqueles anos.

É no plano das relações interestatais, porém, que a convergência entre o Estado Novo varguista (1937-1945) e a Alemanha hitleriana (1933-1945) apresenta suas manifestações mais importantes. Através da fórmula do chamado comércio de compensação (intercâmbio de mercadorias por mercadorias, sem a mediação de moedas-fortes), os dois países estabeleceram uma ampla e intensa parceria comercial, baseada na importação de máquinas, produtos químicos e equipamentos industriais pelo Brasil, que por sua vez exportava café, cacau, algodão e minério de ferro para a Alemanha.

Movimento pendular

Entretanto, o governo brasileiro não limitou seu relacionamento internacional ao comércio bilateral com a Alemanha. Desde meados da década de 1930, governo, setores empresariais e a diplomacia brasileira elaboravam e implementavam uma agenda internacional pautada por um projeto de afirmação da soberania nacional e elevação do país à condição de potência emergente. Faziam parte deste projeto:

  1. a) rearmamento e modernização das Forças Armadas brasileiras;
  2. b) ampliação e diversificação das parcerias econômicas, de modo a minimizar o ônus de uma dependência unilateral a este ou aquele parceiro;
  3. c) direcionamento das parcerias econômicas ao atendimento do desiderato de contribuir para o esforço “proto-desenvolvimentista” de aceleração da industrialização brasileira através da implantação, no país, de uma indústria pesada (siderurgia). Este projeto, por suas especificidades, foi posteriormente caracterizado pela historiografia brasileira como um projeto de busca da “Autonomia na Dependência”.

Não obstante as afinidades existentes nos terrenos político e ideológico entre os estados do Eixo Roma-Berlim-Tóquio e integrantes e colaboradores do governo brasileiro, a diretriz emanada daquele projeto sugeria uma abordagem pragmática no processo de tomada de decisões no campo da política externa brasileira, conduzindo o país a uma movimentação pendular entre os dois grandes blocos de poder existentes no mundo de então.

Com a deflagração das hostilidades na Europa, em 1939, o governo dos Estados Unidos desencadeou uma ampla ofensiva político-diplomática e econômica no sentido de unificar os Estados americanos sob sua liderança e combater a influência dos Estados do eixo na região. O governo brasileiro, que até aí negociava o apoio econômico e tecnológico para o estabelecimento da siderurgia no Brasil simultaneamente com os governos alemão e estadunidense, teve suas solicitações acolhidas tempestivamente por Washington após anos de protelação e evasivas. Mais que isto, o governo Roosevelt se dispôs a atender, também, às reivindicações brasileiras de reequipar e modernizar as Forças Armadas em troca da denúncia dos acordos comerciais com a Alemanha, do fornecimento de matérias primas estratégicas para os Estados Unidos (que incluía a borracha e as areias monazíticas, utilizadas em seu programa nuclear) e da cessão de portos brasileiros às forças militares dos EUA.

Esta guinada no relacionamento internacional do Brasil determinou o rumo seguido pelo país na Segunda Guerra Mundial. Com a entrada dos Estados Unidos no conflito ‒ depois do ataque japonês a Pearl Harbour, em dezembro de 1941 ‒, o Brasil, como aliado dos Estados Unidos, já participava dele indiretamente. O torpedeamento das embarcações comerciais brasileiras pela marinha de guerra alemã nos meses seguintes desencadeou o clamor popular, o qual, combinado aos compromissos assumidos com o vizinho do norte, determinou o envio das tropas brasileiras para os campos de batalha europeus, inserindo, concretamente, o país no campo da aliança vencedora.

Neste último aspecto, um importante papel foi desempenhado pelos comunistas. Depois de um curto período de hesitação correspondente à vigência do acordo Ribbentrop-Molotov, eles voltaram a combinar o seu decidido ativismo antifascista com a participação ativa nas mobilizações pela entrada do Brasil na guerra ao lado dos aliados (EUA, França, Inglaterra e URSS). Materializando sua convicção anti-hitleriana, militantes e dirigentes do PCB converteram suas palavras em ações lutando na FEB e praticando a política de União Nacional contra o fascismo e a guerra. Destacaram-se nesta ação importantes quadros da comunidade judaica brasileira, como o baiano Jacob Gorender e o carioca Salomão Malina.

* Tema da palestra do professor Muniz Ferreira no Seminário 70 Anos do Fim da Segunda Guerra Mundial, no dia 16 de agosto, na ASA.

 

Especial para ASA

 

Muniz Ferreira

Professor da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro

Seja o primeiro a comentar