COM A OCUPAÇÃO, NÃO HAVERÁ PAZ

EDITORIAL

A ninguém deveria surpreender o recrudescimento da violência entre israelenses e palestinos. Fica muito difícil exigir moderação de um povo submetido diariamente à ocupação de suas terras, à arbitrariedade militar, à humilhação em incontáveis check-points, à cassação do direito de ir e vir, ao desconhecimento de sua cultura e de seu projeto nacional. Há uma nova geração de palestinos desencantada com o fracasso das inúmeras tentativas de se chegar a um acordo com os israelenses. Como dialogar com os desesperados?

Está na tradição dos sábios judeus: “Não faças a teu próximo o que não queres que façam a ti.” Não vamos nos iludir de que o fim da ocupação possa trazer logo a paz, ao menos não no curto prazo. Continuar com ela, entretanto, conduzirá definitivamente a uma guerra civil. Os acontecimentos das últimas semanas são um pequeno exemplo disso.

Estimulando a ampliação dos assentamentos judaicos em terras palestinas, os governos israelenses tornam cada vez mais remota a solução de dois estados para dois povos, com base nas fronteiras anteriores a junho de 1967. Os colonos, que agridem impunemente os palestinos ou destroem suas moradias e olivais, têm peso significativo no parlamento. Recebem verbas privilegiadas no orçamento nacional e, não raro, firmam alianças com setores religiosos ortodoxos, numa poderosa corrente do atraso.

É triste constatar que o colonialismo israelense recebe apoio incondicional de lideranças comunitárias em todo o mundo.  Será que não percebem que há caminhos que levam ao desastre?

A ASA lamenta as vítimas deste conflito. Vidas humanas não podem ser substituídas como quem troca um pneu furado. Insistimos na defesa do diálogo direto entre as partes envolvidas, que possa resultar na criação de um Estado palestino laico e democrático, convivendo em paz com Israel. Dadas as circunstâncias, esta é uma possibilidade cada vez mais frágil. A alternativa, porém, é catastrófica: um Estado judaico militarizado, clone de Esparta, enfrentando ondas intermináveis de revolta legítima, numa guerra que jamais terá vencedores.

2 Comentários

  • Responder outubro 31, 2015

    Clara Goldfarb

    Objetividade e lucidez deste Editorial, traduzem de forma cristalina a política que o governo israelense insiste em adotar e se manter, levando à morte e desespero as vítimas dessa guerra absurda em toda a região , obscurecendo o horizonte que se delinea para aqueles povos.

  • Responder novembro 2, 2015

    Mario S Nusbaum

    Sou contra os assentamentos. Agora, é um absurdo achar que é por causa deles que não temos paz. Uso aqui o termo absurdo no seu sentido lógico, científico. Uma consequência não pode, por definição, preceder sua causa. Simplificando: antes deles também não tínhamos paz. Eu não posso ser culpado por nada que aconteceu antes do meu nascimento.

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