A resistência ao Holocausto *

Roosevelt anuncia a entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial

Roosevelt anuncia a entrada dos EUA na 2ª Guerra Mundial

Falar da resistência ao Holocausto, tanto da judaica quanto da não judaica, assim como de qualquer tema ligado ao extermínio de judeus pelo regime nazista, é tarefa delicada, pois emoção e política dão-se as mãos num encontro nem sempre esclarecedor. Para ficarmos em dois exemplos:

1-   Ben-Zion Dinur ‒ ministro da Educação de Israel (1951-55), presidente do Yad Vashem (1953-59) e responsável pela Lei da Educação, de 1953 ‒ foi um dos artífices da centralidade que o Holocausto assumiu na narrativa nacional israelense. Nela, o genocídio se torna mais um episódio, ainda que radical, da inescapável perseguição a que está sujeito o judeu da Diáspora, não apenas destituído de poder, mas a tal situação resignado (o que o historiador Raul Hilberg chamou de “mentalidade da falta de poder”). Israel, pelo contrário, surge como a negação do Holocausto, não apenas por permitir a vivência nacional judaica, como por dotar os judeus de poder e vontade de poder em um mundo inerentemente hostil.

2-    Exceção feita aos Justos do Yad Vashem, a sentença é frequentemente a mesma: o mundo gói foi omisso diante do genocídio. Talvez o principal alvo de tal condenação tenha sido o presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt, acusado de não ter feito o suficiente para salvar os judeus dos campos de concentração e extermínio.   

Ainda que afetos e preferências políticas estejam presentes em quaisquer análises, penso ser fundamental tentarmos olhar para o fenômeno da resistência ao Holocausto em busca de compreensão, não de afirmação ou negação de nossas preferências afetivas e políticas.

É o que faz Benjamin Ginsberg, professor de Ciência Política da Universidade Johns Hopkins, ao sugerir que judeus resistiram ao Holocausto, mas que tal resistência não deve ser procurada entre os que estavam sendo concentrados e exterminados, em grande medida já destituídos de meios e energia para tal, mas entre os judeus dos Estados Unidos e da União Soviética, ou entre os partisans e os maquis. 

Nos Estados Unidos, judeus fizeram lóbi no Congresso e na Casa Branca, lutaram nas Forças Armadas, trabalharam nas indústrias e serviços, nas artes e no entretenimento. Irving Berlin compôs Any bonds today? a pedido de Henry Morgenthau, secretário do Tesouro, e Pernalonga, criação de Leon Schlesinger, vendeu bônus de guerra com forte sotaque do Brooklyn. Roosevelt, por seu lado, não se contentou com menos do que a vitória total sobre o nazismo, ao mesmo tempo em que lutava contra isolacionistas e antissemitas domésticos que o chamavam de Franklin Rosenfeld, e o New Deal, de Jew Deal. Na União Soviética, judeus estavam sobre-representados no Exército Vermelho, os lançadores de foguetes Katyusha foram desenvolvidos por Leonid Shvarts, Moisei Komissarchik e Yakov Shor, e a letra G dos MIG derivava de Gourevich, Mikhail. Os exemplos poderiam se estender. Entre os maquis, para dar apenas mais um, judeus também estavam sobre-representados. O que Ginsberg demonstra é que a contribuição judaica para a vitória Aliada foi enorme. 

Nós, o que teríamos feito?

Ainda assim, parece-me possível, e mesmo desejável, ir além de Ginsberg, questionar Raul Hilberg e recuperar a resistência judaica nos próprios campos, porque ali também ela estava presente.

Ninguém descreveu melhor tal resistência do que Primo Levi. Das páginas de É isto um homem?, Os afogados e os sobreviventes e A trégua, surgem homens, mulheres e crianças que, diante de um sistema que negava a própria humanidade das vítimas, tiveram a coragem, a vontade de poder, de lavar o rosto e as mãos sempre que possível, de modo a se manterem limpos, porque estavam vivos e eram pessoas. Ou de realizar sabotagem, quando submetidos ao trabalho escravo. Ou de não realizar, como o pedreiro que fez um muro perfeito. Criticado, ele respondeu: mas sou um pedreiro! Ou, ainda, de continuar a crer e a esperar pela vinda do Messias.

Seria justo, nas condições em que eles estavam, deles exigir mais? Pois nós, que estamos nesta sala, o que teríamos feito?

É possível que alguns realizassem atos heroicos, como os de Anielewicz e Willenberg em Varsóvia e Treblinka. Creio, porém, que a maioria se contentaria com resistências microscópicas, que, ficando sem registro, seriam depois confundidas com resignação e passividade. Mas alguns, talvez, se tornassem kapos, como Berl Stolpner, protagonista de um conto de Schaie Miller a quem foi dada a chance de optar entre apanhar ou bater, morrer de fome ou viver com fome, ser executado imediatamente ou sobreviver mais alguns dias, ser conduzido ou conduzir para a câmara de gás.

Sinto-me grato a Anielewicz e a Willenberg, ao Primo Levi, que salvou do esquecimento o pedreiro e seu muro, ao próprio pedreiro, que resistiu a seu modo, e aos milhões que reivindicaram sua humanidade em gestos mínimos. No atacado ou no varejo, contribuíram para a vitória sobre o nazismo porque resistiram diante de uma engrenagem que buscava assassinar tanto a pessoa quanto sua dignidade. Mas  o que dizer de homens como Berl Stolpner, que cederam e se partiram, que morreram permanecendo vivos? Pessoalmente, não me sinto em condições de julgá-los. Agradeço, apenas, não ter estado lá onde eles estiveram.

Muito obrigado.

* Palestra proferida  no Seminário sobre os 70 Anos do Fim da Segunda Guerra Mundial, em 23 de agosto, na ASA .

Especial para ASA

Flávio Limoncic

É professor da Escola de História da Universidade Federal do Estado do RJ-UNIRIO.

Seja o primeiro a comentar