O pesadelo de uma família judia

Elias e Estella Bondarovsky recebem o gov. Amaral Peixoto (de óculos escuros) e outros correligionários do PSD, déc. de 1950

Elias e Estella Bondarovsky recebem o governador Amaral Peixoto (de óculos), déc. 1950

“Para quem quiser cortar caminho na busca do motivo por que Geisel e Golbery desmontaram a ditadura, a resposta é simples: porque o regime militar, outorgando-se o monopólio da ordem, era uma grande bagunça… Começa na noite de 30 de março de 1964, quando a democracia brasileira tomou o caminho da breca”, escreve Elio Gaspari, no livro A Ditadura Envergonhada, o primeiro livro da série As ilusões Armadas.

E nessa bagunça, meu pai, Elias Bondarovsky, empresário bem-sucedido, ligado às organizações civis locais, foi chamado para depor no I Batalhão de Infantaria Blindada, então sediado em Barra Mansa, onde morava. Foi depor e ficou preso. A acusação falsa era pertencer ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). O inquisidor levantou histórias remotas, tais como uma palestra dada por Luiz Carlos Prestes na década de 1940 no período em que o PCB era legal, na Associação Comercial da cidade, quando Elias fazia parte de sua Diretoria. Outra acusação era a compra de gravuras de Portinari para fazer finanças para o Partido. E ainda de ser russo.

Estella, minha mãe, a princípio, não acreditou que o depoimento tivesse consequências tão funestas. Avisou-nos que não viria ao Rio naquele fim de semana e me recomendou que fosse a uma festa de noivado de filhos de amigos. Na festa, alguém me disse que soubera que meu pai tinha sido preso. Agi como se soubesse e não demonstrei o pânico que me acometeu. Elias foi transferido para a Academia Militar das Agulhas Negras- AMAN, organização militar de formação dos oficiais combatentes de carreira do Exército Brasileiro. Os jovens cadetes trataram meu pai como prisioneiro da guerra contra o comunismo. Era humilhado nas refeições, quando era chamado de porco comunista, levado ao banheiro que ficava de porta aberta, vigiado pelos cadetes com metralhadoras.  Permaneceu incomunicável por 40 dias, sendo transferido de volta para o Batalhão.

No Batalhão, minha mãe e nós, seus três filhos menores, fizemos a primeira visita, vigiada por um soldado.  Papai chorou o tempo todo. Nós quatro seguramos o choro por decisão da minha mãe. Estella tentou falar com ele em ídish, língua que falava mal, segundo meu pai, mas foi repreendida pelo soldado que julgou ser o idioma russo. Choramos juntos depois da visita no pátio do quartel.

A mulher do comandante

Elias e Estella Bondarovsky inauguram obras no Clube Monte Sinai, 1961

Elias e Estella Bondarovsky inauguram obras no Clube Monte Sinai, 1961

O governo instaurado após o golpe mudava as instituições do país através de decretos, denominados Atos Institucionais (AIs). O AI-1 foi baixado a 9 de abril de 1964, pelos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica. O AI-1 suspendeu as imunidades parlamentares, autorizou o comando supremo a cassar mandatos em qualquer nível e criou as bases para instalação dos Inquéritos Policiais Militares (IPMs) a que ficariam sujeitos os responsáveis “pela prática de crime contra o Estado ou seu patrimônio e a ordem pública ou social ou por atos de guerra revolucionária”. Começaram as prisões e as torturas. No entanto existia a possibilidade de se utilizar o recurso do habeas corpus perante os tribunais e a imprensa se mantinha relativamente livre. Meu pai foi enquadrado num IPM.

Minha mãe temeu que ele fosse morto pelos militares e batalhou com unhas e dentes para tirá-lo dali. Fizemos visita à mulher do comandante do Batalhão. Essa senhora nos atendeu em sua casa, e nos disse que nada poderia fazer, além de enfatizar que seu lema era Deus, Pátria e Família. A senhora se manifestou a favor da Marcha da Família com Deus pela Liberdade, um movimento contra “o perigo comunista” de setores ultraconservadores contra as reformas de base anunciadas pelo presidente João Goulart em março de 1964.

Estella então foi ao Ministério da Guerra e anunciou com a determinação que a caracterizava que queria ver o ministro. Sentou-se na sala de espera e esperou, esperou, esperou, até ser atendida pelo ministro. Saiu de lá com uma ordem de mandar comida para meu pai todo dia, pois ele era diabético e poderia morrer na mão dos militares. Na mesma linha de argumentação e dado que estávamos na fase da Ditadura Envergonhada, levou também uma ordem para o prisioneiro ser visitado pelo médico de família.

Nosso médico era o doutor Ary Jorge. Papai tinha uma longa estória com o Ary Jorge. Quando ele se formou em medicina e foi morar em Barra Mansa alugou um apartamento em um prédio de nossa família. Contava rindo que um dia meu pai resolveu aumentar os aluguéis que estavam defasados. Ele concordou prontamente. Depois meu pai mudou de ideia, pois os outros inquilinos não concordaram com o aumento e, portanto, não seria justo aumentar só o dele.

Ódio e nojo

Elias e Sandra, Baile de Debutantes, Clube Municipal de Barra Mansa, 1962

Elias acompanha Sandra no Baile de Debutantes, Clube Municipal de Barra Mansa, 1962

Dr. Ary voltou com notícias tragicômicas.  Papai ficou felicíssimo ao vê-lo no quartel, recebendo-o como um amigo, que era. O médico tremia de medo e afirmava o tempo todo que estava lá como médico, pois meu pai contava as acusações constantes dos interrogatórios, inclusive indagando o que era o Grupo dos 11. Tratava-se de uma invenção de Leonel Brizola na Frente de Mobilização Popular formada no final de 1963 que Elias não conhecia e do qual Dr. Ary fazia parte, segundo consta.

Não se sabia ao certo o que queriam os militares daquele quartel com a prisão do meu pai. Uma das suposições é que queriam dinheiro. Mamãe, me levando junto, foi conferir algumas ofertas monetárias para soltar o papai. Pareceu-lhe uma encrenca. Não embarcou nesta canoa. Foi pelas vias legais. O advogado escolhido foi doutor Evaristo de Moraes Filho. Conseguiu a transferência para uma prisão civil em Niterói. Depois de uma rápida passagem por uma cela comum, foi alojado com outros presos políticos em uma casa no interior da prisão, graças ao Diretor, que revelava consideração especial pelos presos políticos.  Nessa casa recebeu assistência de um médico comunista convicto. Estava relativamente bem, conforme constatávamos nas visitas.

Da cela comum contava um episódio engraçado: um preso comum achou-o simpático e ofereceu-se para fazer “um servicinho”, se quisesse.

Em uma das visitas, fui com um amigo da família, o deputado federal Emanuel Waisman. No caminho o deputado foi contando a viagem que estava planejando fazer com sua família aos EUA. Ao chegar à prisão, se ofereceu para levar-me junto com sua família. Papai afirmou que eu iria acrescentando que oportunidades não se perdem, ignorando meu protesto. Dias depois eu embarcava no avião que me levaria à América do Norte na presença de meu pai que disfarçado e com a ajuda do deputado, dera um jeito de se despedir de sua filha no aeroporto. Chegando a Nova York recebi um telegrama que meu pai tinha sido solto por um habeas corpus. Estava em casa, festejei.

Acompanhamos o julgamento no Supremo Tribunal Militar, onde meu pai havia recebido o primeiro habeas corpus concedido pela justiça militar naquele período e anos depois a sentença de absolvição. O pesadelo havia passado, mas meu pai não seria mais o mesmo homem destemido, nem minha mãe ou nenhum de nós. Mais tarde, para desespero de meus pais, engajei-me em partido de esquerda contra a ditadura. Como Ulysses Guimarães, eu também tinha ódio e nojo da ditadura.

Especial  para ASA

Revisão: Renato Mayer

 

 

 

 

 

Sandra Helena Bondarovsky é economista.

2 Comentários

  • Responder julho 5, 2015

    Anna Helena Moussatché

    Brava Sandra
    Contar é uma de suas habilidades.
    Contar a verdade diante de muitos, é ato de coragem !
    Muito orgulho de tê-la entre os meus …
    Anna Helena Moussatché

  • Responder março 5, 2016

    MARCELL CASTRO

    Sra. Sandra, meu nome é Marcell Castro, sou de Barra Mansa – RJ;
    Sou formado em Administração, e na atualidade estudo Direito;
    Associado à Academia Barramansense de História, e ao Grêmio Barramansense de Letras.
    Gostaria de fazer contato, pois os irmãos Elias e Samuel Bondarovsky foram importantes para a história de Barra Mansa!
    Bem haja!

    marcellcastro@msn.com

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