Contexto e causas possíveis dos protestos

Protesto de judeus etíopes,Tel Aviv, 18-3-2015-Foto Judah Ari Gross, Times of Israel

Protesto de judeus etíopes,Tel Aviv, 18-3-2015-Foto Judah Ari Gross, Times of Israel

Os recentes protestos de israelenses de origem etíope surpreenderam a opinião pública e os meios de comunicação por sua intensidade, pela determinação dos manifestantes que levaram as suas reivindicações ao centro do país e também pela dura repressão que sofreram por parte das forças policiais. Os protestos surgiram após a divulgação, através das redes sociais, de um vídeo no qual um policial, sem motivo aparente, espanca brutalmente um soldado de origem etíope, e devem ser entendidos como consequência de fatores de longo e curto prazo, que confluíram para que uma geração de jovens de origem etíope manifestasse o seu descontentamento com a discriminação e a marginalização que sofrem por parte de setores da população judia israelense.

Os protestos foram, talvez, a mais enérgica das manifestações realizadas pela comunidade etíope até hoje, mas de forma alguma foram as primeiras. Na metade dos anos 1980 e nos anos 1991 e 1996, houve manifestações sem resultados importantes. As suspeitas levantadas pelo establishment religioso sobre a idoneidade da identidade judaica dos imigrantes etíopes deixaram neles sequelas que minaram as suas possibilidades de se relacionar de maneira mais simétrica com outros grupos étnicos de origem judaica. As práticas discriminatórias adotadas por órgãos de saúde pública em relação à população etíope também foram sumamente nocivas. A encoberta rejeição a doadores de sangue de origem etíope devido ao suposto alto índice de doenças contagiosas dentro desse grupo acentuou os medos e preconceitos por parte da população israelense veterana e deixou sequelas que não cicatrizaram. Seria um erro subestimar o impacto a longo prazo dessas duas questões no marco das relações da população etíope com o restante da sociedade judia israelense.

Entre os fatores de médio e curto prazo que reforçaram a sensação de discriminação e marginalização da população judia etíope devemos destacar a chegada, nos últimos anos, de milhares de refugiados sudaneses em fuga da guerra e da fome em seu país. Aproveitando-se do descontentamento provocado pela presença dos refugiados entre os setores mais pobres da população judaica israelense, o governo do Likud, em conjunto com outros partidos de direita, procurou obter ganho político apontando os refugiados sudaneses e eritreus como uma ameaça à identidade judaica e ao bem-estar econômico do Estado de Israel. De acordo com diversos testemunhos de judeus etíopes surgidos nos últimos tempos nos meios de comunicação, o clima geral contrário aos refugiados afetou a vida cotidiana de jovens de origem etíope que foram atacados e perseguidos ao serem confundidos com refugiados sudaneses. Se nos anos 1980 e 1990 as dúvidas sobre a autenticidade do judaísmo dos etíopes e os supostos altos índices de doenças contagiosas nutriram práticas discriminatórias que afetaram o cotidiano do grupo, a partir da última década, a cor da pele e a semelhança física com os refugiados do país vizinho conspiram para mantê-lo à margem da sociedade judaico-israelense.

Um último fator que pode ter inspirado, ainda que remotamente, as manifestações dos jovens etíopes tem a ver com os recentes protestos nos Estados Unidos pela morte de afro-americanos, vítimas da repressão policial. A situação da comunidade etíope em Israel difere da condição social dos cidadãos afro-americanos. Sua história é diferente, assim como o seu lugar dentro do imaginário coletivo. Contudo, num jogo de espelhos frequente na História, porém acelerado talvez pela influência das novas tecnologias de comunicação, é provável que os protestos realizados no centro do poder mundial tenham encontrado eco na comunidade etíope local.

Especial para ASA

Nahuel Ribke é pesquisador em Israel nas áreas de História e Meios de Comunicação.

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