Aquele abraço, Luiz

Luiz e Hilda Goldberg

Luiz e Hilda Goldberg – 21-6-2010

Vale a metáfora futebolística: aquele casal jogava por música. Uma palestra programada para durar uma hora durou exatamente esse tempo, como se cada página lida tivesse sido escrita com um cronômetro invisível, como se estivéssemos na Suíça. Luiz Goldberg exibia fartura de dados sobre um tema amplo – a história do movimento judaico progressista mundial – e depositava as sucessivas laudas nas mãos carinhosas de sua esposa, Hilda. A plateia ouvia atenta e, no meio dela, dois ouvidos assombrados. Os meus.

Corria o ano de 1989 e, naquele já remoto dia, eu era batizado na herança cultural e política da ASA. Vinha de uma separação litigiosa com o judaísmo e procurava, não sem certa desconfiança, uma reaproximação. Luiz acabou chancelando, sem perceber, esse processo. Mais adiante, já integrado na diretoria da ASA, aproximamo-nos institucional e pessoalmente.

Luiz correspondia, na imagem romântica que eu pintava dos judeus de esquerda que saíram da Europa, ao militante dedicado, disciplinado e centralizador. Exercia clara liderança sobre seus contemporâneos e tinha amplo domínio sobre a administração da ASA. Sua energia desafiava o tempo e, para quem não estava acostumado com aquele estilo de trabalho, criava, não raro, incompatibilidades e afastamentos.

Creio que ele viu em mim uma perspectiva de continuidade. Em meio a uma grave crise de participação comunitária e ao desmoronamento das primeiras experiências socialistas na Europa Oriental, é possível que acreditasse que eu poderia influenciar as novas gerações e trazê-las para o espaço progressista que ele ajudara a fundar e consolidar (eu tinha, em 1989, menos de 40 anos). Não sei se o frustrei, mas garanto que peguei o bastão da geração fundadora e, até hoje, ajudo a conduzi-lo com grande orgulho.

Luiz, entretanto, não é apenas um marco institucional. Foi, em diversos e difíceis momentos, um amigo generoso, que me ofereceu seu conhecimento profissional desinteressadamente, para descascar grandes e ásperos abacaxis. Tivemos muitas diferenças de opinião, mas esses gestos estão acima delas. Não se esquecem.

Houve um tempo em que a esquerda cultivou ídolos e modelos. Cometeu, por isso, erros graves. Olhar somente para essas mazelas, entretanto, é empobrecer a percepção histórica. O socialismo injeta no imaginário dos povos a expectativa de sociedades mais solidárias e justas. Gerações de ativistas carregaram e carregam esse projeto. Luiz fez parte deste turbilhão complexo, que mistura, tão ao gosto da natureza humana, certezas, inseguranças, paixão, generosidade, autoritarismo, beleza, violência e esperança. Não é, definitivamente, um retrato em branco e preto. Eu tenho o privilégio de tê-lo conhecido.

No dia 10 de maio, Luiz Goldberg nos deixou. Teve um final de vida bastante difícil, seguramente inesperado. Neste momento de tristeza – todas as perdas são difíceis ‒, recordo sua saudação predileta: Como vai, moço? Não importava a idade, era moço mesmo. De alguma forma, misteriosa, ainda o ouço, com o sotaque musical dos imigrantes, perguntando: Ô Jacques, tudo bem? Hoje, respondo: Tudo bem, Luiz, as ideias teimam em brotar, esposa, filhos, netos e amigos andam por perto, a vida ainda tem graça. Só que tem um detalhe, Luiz: tenho saudade das nossas jornadas, das discussões que nunca levavam à ruptura, da presença segura, da calidez dos pioneiros.

Essa é a palavra. Saudade.

JACQUES GRUMAN

Boletim nº 155 – julho/agosto de 2015 – Ano 27

Especial para ASA

Jacques Gruman

É diretor (licenciado) da ASA.

1 Comentário

  • Responder julho 2, 2015

    Clara Goldfarb

    Bela homenagem ao velho companheiro.

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