Uma surpresa para nossos olhos

Buscando purificação na fonte de um templo hinduista

Buscando purificação na fonte de um templo hinduista

Calma, gente!  A senhora da foto não é uma nazista empedernida, como pode parecer, nem o moço na estrada, um aprendiz de SS. Ela é provavelmente uma turista australiana, talvez europeia, buscando a purificação nas fontes de um dos principais templos hinduístas do centro de Bali; o homem, vestindo um colete (com a suástica) que identificava sua comunidade, apenas tentava ajudar o trânsito.  Em Bali – literalmente uma única ilha hinduísta, mas com forte influência do budismo, em meio a 17 mil outras que compõem o islâmico arquipélago da Indonésia –, a suástica é um símbolo muito             comum.

Permaneci lá por mais de um mês e me surpreendeu sua profusão em placas, roupas, pingentes de prata vendidos no mercado e até em uma pousada denominada Swastika Bed & Breakfast.  Está presente em agências de automóveis e nos entalhes de portais de museus tradicionais.  Está por toda parte como um dos amuletos – augúrio de boa sorte, prazer, estabilidade e bem-estar – mais antigos e generalizados, usado em cerimônias civis e religiosas hinduístas.

Já constava nas sagas mitológicas escritas em sânscrito, associada à revolução do sol, com os raios apontados nas quatro direções em movimento que representa as forças cósmicas, sem as quais não haveria vida.  Para os hinduístas, portanto, a suástica é santa e auspiciosa e marca a fachada e os monumentos de incontáveis templos da Índia e da Ásia em geral, tanto voltada para a esquerda (traduzindo amor e piedade), como para a direita (força e inteligência).

O que os nazistas fizeram foi associar a suástica à arianidade: seria um símbolo próprio aos ancestrais do povo alemão, proto-indo-europeus ou arianos, invasores brancos que migraram do subcontinente indiano para o norte da Europa.  Sua consagração na bandeira, tornada nacional oficialmente em setembro de 1935, apelaria à sua missão histórica: a luta pela vitória da raça humana ariana.

Mais uma surpresa: em várias partes e culturas do mundo está presente a suástica, até mesmo em um mosaico romano no chão da sinagoga de Ein Guedi, construída ao tempo da ocupação da Judeia pelo império romano, assim como em mesquitas tradicionais do Irã e do Líbano.  Em Singapura, um caldeirão cultural, os devotos de Kuan Yin, a deusa da compaixão e da misericórdia no budismo chinês, levantaram, ao final do século 19, um templo com suásticas na fachada.  Fica praticamente vizinho à sinagoga da cidade.

O escritor britânico Rudyard Kipling, ele mesmo nascido na Índia, adotava a suástica como marca pessoal no frontispício de seus livros, retirada, enfim, nas edições posteriores, quando, no mundo ocidental, esta passou a ser associada à opressão e beligerância dos nazistas.  Antes disso, porém, o símbolo figurou como insígnia inclusive de uma divisão de infantaria do exército americano.

Nos Estados Unidos, aliás, a suástica sempre foi comumente encontrada no artesanato e nas peças produzidas pelos nativos, sobretudo os navajos.  Logo após a 2ª Guerra Mundial, porém, vários povos indígenas norte-americanos, incluindo os próprios navajos, os apaches e os hopis, adotaram a posição comum de não mais utilizar a suástica em sua arte: “O que foi símbolo de amizade entre nossos antepassados foi recentemente profanado por outra nação de homens e hoje simboliza o mal.”

Como explicar?

Como explicar?

Afáveis

Tal preocupação parece passar longe de  Bali.  Os balineses são afáveis, amistosos, sorridentes, estendem seu braço ao turista.  Este dificilmente se dará conta de que a ilha testemunhou um terrível massacre de comunistas e chineses na virada de 1965 para 1966, quando o general Suharto assumiu o poder de fato (do qual só sairia em 1998) na Indonésia.  Praticamente 5% da população da ilha na época – atualmente são cerca de 4 milhões de pessoas – sucumbiu em justiçamentos sumários e  na destruição de casas e lojas.  Mas o turista ocasional verá somente um povo em contínua celebração religiosa, fazendo cotidianas oferendas aos deuses e aos ancestrais, cultivando os bons espíritos e procurando manter à distância os maus.

Quem vai a Bali, costuma ir a Lombok, uma ilha vizinha, com belos redutos naturais e predominantemente muçulmana.  Voltando de lá num domingo, deparei no avião com um homem já maduro, forte, traços indonésios, mas com um cabelo preso atrás, à moda de lutador de sumô.  Portava um casaco impermeável amarelo com uma suástica à altura do peito.  Um esportista, talvez?  Às costas do casaco estava escrito: PELATIH, Seruling Dewata, Bali.  Minha pesquisa me levou a um centro de meditação e ioga.  A esposa e os dois filhos, também mais para gordinhos, foram buscá-lo no aeroporto.  Eu os vi saindo tranquilamente.  Nenhuma sombra de truculência.

Dias depois, andando pelo centro de Ubud – uma referência espiritual e artística em Bali ‒, cidade onde passei a maior parte do tempo nessa viagem à Ásia, encontrei o poste com o letreiro familiar: Shalom.  “Caramba!  Tem gente nossa também por aqui!  Como terá reagido diante de tantas suásticas?”  O letreiro estava numa transversal a uma das principais ruas,  defronte a uma loja que os antigos chamariam de armarinho.  Aqui não houve pesquisa que desse conta de uma explicação.

Boletim nº 154 – maio/junho de 2015 – Ano 27

Especial para ASA

Renato Mayer

É diretor da ASA e colaborador do Boletim ASA.

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