Quase sem novidades em Israel

Netaniahu vencedor , Foto Menahem Kahana

Netaniahu vencedor , Foto Menahem Kahana

A vitória do Likud e de seu líder, o primeiro-ministro Netaniahu, nas eleições de 17 de março surpreendeu os jornalistas, os pesquisadores, os supostos formadores de opinião e parte do público de oposição, que, consumindo acriticamente pesquisas, comentários, reportagens e editoriais, iludiu-se sobre a possibilidade de uma reviravolta política em Israel.

Revendo os fatos políticos do último ano, não deveria haver nenhuma surpresa. Como resultado da interrupção formal das atoladas negociações de paz com a Autoridade Palestina, do não cumprimento de acordos por parte de Israel e da expansão das colônias em territórios ocupados aumentaram os protestos palestinos, a repressão israelense recrudesceu e aumentaram os atentados palestinos contra israelenses. A espiral de violência se desencadeou nos meses de maio e junho, com sequestros e assassinatos de adolescentes por parte de extremistas de ambos os lados e uma série de represálias militares israelenses contra populações palestinas na Margem Ocidental do Jordão, linchamento de pedestres palestinos por adolescentes judeus em Jerusalém, uma insurreição popular nos bairros palestinos do leste de Jerusalém expressa em choques com a polícia, sabotagens e a destruição de símbolos da presença israelense. Nesse contexto, desenvolveu-se uma escalada de bombardeios mútuos e desiguais entre o exército de Israel e as organizações armadas de Gaza conduzidas pelo movimento islâmico Hamas. O balanço foi espantoso: uns dois mil palestinos, sendo três-quartos civis, morreram em Gaza, dezenas de  milhares perderam suas casas, milhares ficaram aleijados, infraestruturas foram destruídas. Do lado israelense houve dezenas de mortos, a maioria soldados, embora também vários civis tenham sido vitimados pelos mísseis do Hamas. Apesar de sua enorme superioridade militar, Israel não conseguiu nem derrubar o governo do Hamas em Gaza nem impedir a sua capacidade de lançar mísseis sobre o território israelense. A consequência imediata dessa sangrenta escalada foi a generalização e o aprofundamento do ódio e do temor mútuo entre judeus israelenses e palestinos.

Do ponto de vista das organizações pacifistas israelenses posso afirmar que, durante o verão passado em Israel, viveu-se uma crise séria, uma semiparalisia, a perda da capacidade de resposta diante da grave realidade e uma sensação de brecha crescente entre a minoria que denunciava os crimes de guerra e os interesses colonizadores e a grande maioria da sociedade judaica. Por isso, não nos surpreendemos demais quando Netaniahu, no outono, rompeu os compromissos com seus sócios centristas na coalizão de governo e decidiu adiantar as eleições, antecipando a aprovação de um orçamento com cortes dolorosos para arcar com os gastos da escalada bélica. Era melhor ir a eleições fáceis e depois aprovar os cortes.

Tudo jogava a seu favor. O ambiente bélico havia deslocado a maioria da população para a direita. O nacionalismo da opinião pública judaica afetou inclusive o comportamento da centro-esquerda. Tanto que durante as primeiras semanas da escalada em Gaza, o encolhido movimento Paz Agora e o partido Meretz aprovaram as ações de Netaniahu considerando-as prudentes ante as propostas de ações mais drásticas provenientes de setores da direita nacionalista. Sem a capacidade de oferecer alguma perspectiva de paz, Herzog, dirigente do partido trabalhista aspirante a destronar Netaniahu, repetiu durante a campanha eleitoral que um acordo de paz não estava na sua agenda. Girando em torno do descontentamento socioeconômico, o mais adequado para os interesses de Netaniahu e do Likud era que as eleições ocorressem antes da aprovação de um orçamento cheio de cortes.

Virada política

No entanto, a manobra de Netaniahu pareceu fugir ao seu controle. Por um lado, a ultradireita, tanto a sionista-religiosa (Habait Haiehudi) como a laica liderada pelo chanceler Liberman, sentiam que a inclinação da opinião pública para a direita lhes favorecia. O estouro de um escândalo de subornos e fraudes nos orçamentos públicos envolvendo vários deputados de Liberman reduziram as suas aspirações. Pelo centro, duas listas ameaçavam capitalizar o descontentamento pelos altíssimos preços das moradias e pelo alto custo de vida em geral, tanto nos setores médios como entre os mais humildes. Iair Lapid, um jornalista demagogo que representa o mal-estar dos setores médios e médios altos, principalmente judeus de origem ashquenazi, teve êxito nas eleições anteriores e pretendia disputar com Netaniahu a condução da política econômica. Uma lista nova, liderada por Moshé Kahlon, ex-ministro das Comunicações dissidente do Likud por criticar o “capitalismo excessivo” de Netaniahu, reivindicava a sensibilidade social que, décadas atrás, permitiu ao Likud converter-se no lar político de duas gerações de judeus pobres de origem sefaradi e médio-oriental (como o próprio Kahlon) discriminadas durante as décadas de hegemonia trabalhista.

Também o Partido Trabalhista pretendeu capitalizar o descontentamento socioeconômico. Reunindo propostas social-democratas e neoliberais contraditórias, os trabalhistas não apareceram nestas eleições como uma opção atraente para públicos que não haviam votado neles anteriormente. Contudo, o comportamento correto de seu líder, que demonstrou capacidade de articular aliança com a ex-ministra Livni, herdeira principal do partido de centro-direita Kadima, armado por Sharon, deu-lhe a capacidade de evitar cisões e reunir tudo o que resta do potencial histórico do trabalhismo ‒ 24 cadeiras de um total de 120. Os eleitores trabalhistas são majoritariamente da classe média e média alta, de origem ashquenazi e descendentes dos setores que foram considerados hegemônicos. Os simpatizantes do trabalhismo e de seus aliados são uma clara maioria entre os jornalistas, artistas e formadores de opinião.  Também a grande imprensa comercial e pelo menos um canal de TV atuaram em favor de Herzog. O aberto enfrentamento de Netaniahu com Obama em torno de questões estratégicas do Oriente Médio fez com que boa parte das elites econômicas israelenses desejassem uma guinada eleitoral. Inclusive numerosos generais da reserva se manifestaram contra Netaniahu, a quem consideram  extremista e imprudente.

Nesse ambiente de hostilidade vinda das diversas elites tradicionais, a maior parte da imprensa era favorável à “virada política”. Os diversos escândalos em torno dos maus tratos dispensados pela mulher de Netaniahu aos empregados e prestadores de serviços e dos luxuosos gastos que a família Netaniahu impõe sobre o orçamento do Estado eram tema recorrente em quase toda a mídia. Paralelamente às campanhas eleitorais das diversas listas, desenvolveu-se uma campanha anti-Netaniahu, muito cara, conduzida pela recém-criada ONG V-15, entre cujos principais contribuintes parecem estar alguns milionários judeus dos EUA.

Não faltavam a Netaniahu razões para denunciar uma manobra para eliminá-lo com dinheiro do exterior. Só que seria uma ironia por parte de quem tem a seu favor um grande jornal de distribuição gratuita em todas as cidades do país (Israel Hayom), financiado por Sheldon Adelson, magnata de cassinos e hotéis de luxo em Las Vegas e em outras partes do mundo. Boa parte da hostilidade dos barões da imprensa em Israel em relação a Netaniahu se deve à intenção de frear o processo de crescimento do jornal de Adelson, que, por contar com um enorme respaldo financeiro e distribuição gratuita, ameaça destruir o já reduzido e concentrado mercado de imprensa.

Salvando a pátria

Diante das diversas propostas que pretendiam tirá-lo do poder, Netaniahu respondeu batendo nas teclas mágicas dos profundos antagonismos que atravessam a sociedade israelense. Primeiro, o temor dos judeus israelenses em relação ao mundo árabe e muçulmano. Não há nada mais ridículo do que observar os jornalistas de TV que o ano inteiro e todos os dias incendeiam a paranoia israelense perguntarem indignados, nos últimos dias, como Netaniahu conseguiu, ao meio-dia de 17 de março, convocar milhares de eleitores descontentes por meio da advertência de que “os árabes estão indo votar em massa, pondo em risco o governo nacional”. Netaniahu só colheu o que semearam nos noticiários aqueles que diariamente fomentam a fobia aos árabes e ao islã, supervalorizando atos de extremistas, ocultando as opiniões e atitudes da maioria dos árabes, descontextualizando conflitos e reforçando preconceitos e medos. Com o pano de fundo das realidades de fato preocupantes vividas em países vizinhos e da continuação do conflito sangrento com os palestinos, alguns milhares ou dezenas de milhares de eleitores (nunca saberemos quantos) que, descontentes com Netaniahu não pretendiam votar, acabaram saindo de suas casas para “salvar a pátria”, apesar de tudo.

Mas já três ou quatro dias antes das eleições, nós que vivemos em bairros populares judaicos vínhamos observando que, não obstante o triunfalismo em torno de Herzog e sua aliança intitulada “o campo sionista”, iniciava-se um movimento de regresso de eleitores pobres, judeus orientais e sefaradis ao seio do Likud. É que, para muitos dos que sofreram durante décadas a discriminação por parte do velho establishment trabalhista, o seu eventual retorno ao poder é uma ideia insuportável. A proclamada esquerda sionista, além do mais, sempre tem um pseudointelectual de plantão para soltar alguma expressão pública de desprezo pela cultura e pelas crenças populares, obtendo, como resultado, a reaproximação entre os eleitores de setores humildes e os partidos tradicionalistas, conservadores e religiosos. O elitismo cultural dessa “esquerda” de classe média alta, que em termos latino-americanos não seria considerada como tal, é útil para a direita israelense.

Os que pretendiam forçar uma virada eleitoral com manobras se surpreenderam com os resultados eleitorais, que, analisados em profundidade, não implicam grandes deslocamentos do eleitorado. Sobretudo, fortaleceram-se os dois partidos maiores, que se haviam debilitado muito nas eleições passadas em prol de seus aliados menores. Reafirmou-se um mapa político tribalizado e muito dividido, com partidos que representam principalmente identidades nacionais, étnicas e religiosas. Com todo o seu êxito, Netaniahu conta com apenas 30 de 120 deputados, um-quarto do Parlamento, e continuará dependendo de alianças várias.  Aparentemente, inclina-se agora a criar uma coalizão de direita com os partidos religiosos.  Contudo, o sucesso de Kahlon, com dez deputados, somado às exigências do partido ortodoxo sefaradi Shas, cuja base social é muito humilde, deram muitas dores de cabeça a Netaniahu, que é um liberal fundamentalista. Além disso, falta aprovar um orçamento com cortes para sustentar a escalada bélica passada e as que virão. Não lhe será fácil conciliar uma maior sensibilidade social ‒ é o que exigem os seus aliados e parte de sua base eleitoral ‒ com orçamentos de guerra e com a continuidade de reformas neoliberais que favorecem os grandes interesses econômicos que sustentam as suas campanhas políticas.

Estas eleições foram realizadas depois de uma reforma que aumentou de 2% para 3,25% a cláusula de barreira para estar representado na Knesset. O aumento foi propiciado pelos dirigentes de direita com a intenção expressa de que algumas das três listas baseadas em votos da minoria árabe (uma de esquerda, uma nacionalista e uma religiosa islâmica) ficassem fora do Parlamento. Era mais um empurrão para tirar a população árabe do jogo político israelense. A manobra surtiu o efeito oposto. Com muitas dificuldades e contra muitas previsões, as diversas forças políticas que representam os eleitores árabes em Israel se uniram na denominada Lista Comum, aumentando a participação dos eleitores da minoria árabe e somando 13 deputados (em vez dos 11 obtidos pelas três listas em eleições anteriores). Alguns milhares de judeus não sionistas ‒ minoria que se opõe a todos os conflitos armados ‒ votaram na Lista Comum, que inclui um deputado judeu comunista.

Por outro lado, a esquerda sionista representada pelo partido social-liberal Meretz obteve só cinco deputados, o que demonstra o estancamento político-social de uma alternativa que vem perdendo relevância na população israelense. O Meretz foi vítima do leve crescimento do trabalhismo.

Paradoxalmente foi uma lista de ultradireita religiosa a prejudicada pelo aumento da cláusula de barreira. Mais de cem mil votos ficaram sem representação por atingir apenas 3,1%.

O mapa político de Israel depois das eleições de 17 de março parece anunciar maiores e mais agudos enfrentamentos ‒ um provável governo de direita nacionalista, sem máscaras nem atenuantes, que declara sua hostilidade antiárabe e antimuçulmana, em confronto com Obama e aberto aliado do Partido Republicano nos EUA, disposto a aprofundar a colonização de territórios palestinos e a marginalizar os seus próprios cidadãos árabes. Como se estivesse para ocorrer um novo round de enfrentamentos, ódio solto, derramamento de sangue e tambores de guerra. Tomara que eu esteja enganado!

Especial para ASA

É ativista do movimento árabe-judeu Hithabrut-Tarabut, Tel Aviv.

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