Antissemitismo e identidade

Aluno em frente a escola judaica atacada em Toulouse, França, 2012

Aluno em frente a escola judaica atacada em Toulouse, França, 2012

Não escrevo como socióloga. As ciências sociais ensinam que se deve distanciar de um tema para pensar sobre ele, especialmente se este nos é muito familiar. Por isso nunca lidei com o judaísmo como objeto de pesquisa, ainda que sempre tenham me afetado eventos correlatos.

A primeira manifestação pública que presenciei na França, durante o doutorado-sanduíche em 2002, foi uma concentração pró-Palestina na Praça da Bastilha. Não se tratava, sem dúvida, de um encontro político nos moldes de uma discussão pública baseada na argumentação racional em favor da criação do Estado palestino. 2002, aliás, foi um ano de muitas agressões antissemitas registradas na França, cerca de duas centenas, incluindo-se ataques a ônibus escolares.

A partir do ano passado, a Europa vive um momento especialmente delicado para os judeus, associado aos conflitos em Gaza, tendo sido a França o país com mais registros de ataques antissemitas. Mas não se pode atribuir a Israel toda a responsabilidade pelo antissemitismo europeu.

Os eventos no Oriente Médio dão margem ao pensamento e práticas antissemitas preexistentes atualizados em um antissionismo que combina as críticas à política israelense com as generalizações sobre o que sejam “os judeus”. Isto não significa, por outro lado, que o antissemitismo seja eterno, uma sina judaica resistente a todas as formas de combate ao racismo. Deve-se levar em conta, ainda, que além dos conflitos em Israel, a crise econômica se agrava na Europa a partir de 2008, cresce a xenofobia, e partidos ultranacionalistas são fortalecidos.

Segundo o Conselho de Instituições Judaicas da França (CRIF), 851 atos antissemitas foram registrados no país em 2014, quase o dobro dos 453 em 2013. São atos que abrangem insultos, discursos de ódio, agressões físicas e ataques terroristas. Os incidentes antissemitas representariam 51% de todos os atos de racismo na França, embora os judeus componham menos de 1% da população francesa. O ápice das agressões se deu no período do conflito em Gaza, em julho de 2014, com um aumento de 130%. A maioria foi registrada em Paris, Marselha, Lyon, Toulouse, Estrasburgo e Nice.

A atual violência contra os judeus na Europa, como observa Bila Sorj (“Antissemitismo na Europa hoje”, Novos estudos, CEBRAP), expressa “o descontentamento com as dificuldades que parcelas importantes de imigrantes árabes/muçulmanos e seus descendentes têm enfrentado na integração à sociedade francesa, particularmente no sistema educacional e no mercado de trabalho”. Os judeus europeus, especialmente franceses, passam a ver Israel de fato como uma perspectiva, apesar de todo sofrimento que uma mudança definitiva possa acarretar.

Valores do judaísmo

Mas não é o medo das comunidades árabes/muçulmanas que os mobiliza, e sim o trauma do Holocausto, o receio de que o antissemitismo ressurja entre a população francesa. Vale lembrar que a comunidade judaica na França tem entre 500 e 600 mil membros, sendo a maior da Europa e a terceira maior do mundo depois de Israel e dos Estados Unidos.

Ao contrário do que pensa o antissemitismo sobre os judeus, eles adotam como seu o país onde vivem, trabalham, têm família e amigos, e são sempre tão ou mais identificados com sua pátria de nascimento quanto com sua herança familiar. Por isso não se pode subestimar a relevância social, cultural e política deste novo movimento migratório.

A Agência Judaica para Israel estimou que ao menos 10 mil judeus franceses migrarão em 2015 para Israel. Em 2013, foram 3 mil e, em 2014, 7 mil, quando Israel registrou mais imigrantes vindos da França do que de qualquer outro país.

No edifício de poucos andares onde me hospedei com minha família em Tel Aviv, em janeiro deste ano, boa parte dos pequenos apartamentos estava alugada para franceses recém-chegados, jovens e idosos. É provável que os franceses transformem a cultura israelense como os russos nas últimas décadas, e que o francês se torne a quinta língua (hebraico, árabe, inglês, russo, francês).

O antissionismo pinta Israel como um país homogêneo e estanque, porém a democracia israelense, com todos os preconceitos gerados no processo de construção da identidade nacional, não sobrevive sem incorporar as diferenças culturais trazidas pelos novos cidadãos. Pode ser que nem todo antissionismo seja um antissemitismo, mas preconceitos antijudaicos se escondem com frequência no discurso antissionista. Como os judeus, então, poderiam combater o antissemitismo se a aliá em nada contribui para reduzi-lo?

Sabemos que o antissemitismo, como qualquer preconceito, independe da cultura judaica ou do comportamento individual dos judeus. A responsabilidade pelo racismo é toda do racista e não de suas vítimas. De modo nenhum seria justo que os judeus abandonassem a cultura judaica em função do antissemitismo. Pelo contrário, uma boa resposta é não se deixar vencer por ele, evitando incorporar seus julgamentos e afirmando os melhores valores do judaísmo: o humanismo e a responsabilidade.

Este humanismo e senso de responsabilidade ultrapassam as delimitações geográficas e genéticas. Nilton Bonder destaca, em Carta aos Judeus, que o judaísmo se define pela imaginação de um lugar onde todos sejam livres e iguais. Ele se orienta pela utopia, pátria virtual que estrutura o presente, os rituais, valores, práticas, visões de mundo, e guarda os elementos do verdadeiro universalismo capaz de incluir a todos.

Diferente do que pensa o antissemitismo, os hebreus não se dizem eleitos para serem privilegiados; eles teriam sido escolhidos pela responsabilidade de levar adiante um projeto superior: fazer do mundo uma família sem parentesco, terra onde todos sejam uma comunidade definida por vínculos puramente humanos.

Boletim nº 154 – maio/junho de 2015 – Ano 27

Especial para ASA

Samira Feldman Marzochi

Professora adjunta do Departamento de Sociologia da UFSCar – Universidade de São Carlos. É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder maio 1, 2015

    Keyla Belizia Feldman Marzochi , Médica - Doutora em Doenças Infecciosas.

    Creio que com a suspeição que pesa sobre mim, de mãe-judia, não deveria fazer nenhum comentário, por isso só me arrisco a dizer que a temática escolhida pela autora abre uma discussão principal a ser cultivada – da identidade e da utopia judaicas. Neste sentido, a liberdade de pensamento embutida na nossa cultura dá asas ás interpretações, e a que sejam cada vez mais generosas e abrangentes no campo do humanismo. A mim me apraz considerar, nos fundamentos da mensagem final do artigo de Samira, que a máxima herança de Abraão, pela concepção do monoteísmo, foi a da grande fraternidade universal – pela qual, tendo a humanidade um Deus único, Criador e Pai, é feita toda ela de irmãos. Quanto ao artigo, no mesmo espaço de discussão, embora conciso mas consistente, abre uma diversidade de reflexões sobre os dados objetivos que oferece.

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