A bíssale mazl

Capa de disco de Benzion Witler

Capa de disco de Benzion Witler

O nome da canção ídish  A bíssale mazl (um pouquinho de sorte) diz muito do momento e do contexto em que foi produzida: o shtetl, cidadezinha, neste caso da Polônia, no início do século passado.

A fuga em massa dos judeus para o Leste Europeu, vindos da França e da Europa Central entre os séculos 10 e 17, fez daquela uma região de extensa população que falava ídish, os ashquenazim. A palavra ashquenazi se origina de Ashquenaz, que, no hebraico medieval, designava a Alemanha. O idioma passou a se chamar ídish no século 18, mas antes já era a principal língua falada pelos judeus de cultura ashquenazita.

Estima-se que havia 15 milhões de ashquenazim em 1939, a maioria falante do ídish. Dilacerada com o genocídio perpetrado pela Shoá, a língua ídish se espalhou por muitos países, devido à migração dos que fugiram ou sobreviveram ao Holocausto. Hoje, entre 1 e 3 milhões de judeus falam ídish, a metade nos Estados Unidos.

Mas é a formação e a bonita história da língua ídish que marcam o ídishkait. Trata-se de uma língua criada em um contexto de plurilinguismo interno e externo, como diz Benjamin Harshav. De um lado, os falantes do ídish viviam em locais onde se falavam várias línguas. De outro lado, é uma língua de fusão: do alemão (que lhe dá a estrutura e a fonética), do hebraico (alfabeto usado na escrita, e muitas palavras entraram no ídish); de línguas eslavas (muitas palavras e expressões no ídish).

Daí sua riqueza e abertura para outras línguas: um americano, um francês, um falante de língua portuguesa ou de qualquer outro idioma agrega palavras ao ídish na sua conversação informal e mesmo na escrita. Essa riqueza está presente na extensa produção literária ‒  romances, contos, poemas, peças teatrais ‒, nos textos jornalísticos, na cultura popular (sabedoria, provérbios, xingamentos e bênçãos). E na música.

A bíssale mazl revela muito do ídishkait, da alma e da cultura ídish: quem canta pede e acredita em um pouquinho (a bíssale) de algo que é muito (a sorte, a fortuna, a felicidade) e que a roda, ao girar, vai trazer de volta. O que pode um homem? Seu desejo é mais forte que o destino? O mundo gira e se transforma ou tudo roda e se mantém? Qual a interpretação e a força desse texto para aqueles que viviam imersos em extrema pobreza e tristeza?

Chico Buarque

Com letra e música de Benzion Witler, cantada originalmente por ele, A bíssale mazl é considerada uma música folclórica judaica. O lirismo da melodia e a letra com forte carga poética expressam para uns, realismo; para outros, nostalgia e pessimismo.

Benzion Witler (1907–1961) nasceu na Polônia, em Belz, shtetl conhecido pelos versos de outra belíssima canção. Seu nome é por vezes grafado Ben-Tsion Vitler ou  BenZion Wittler. Compositor, cantor e ator, sua família hassídica não apoiava sua inserção no teatro. Mas, com doze anos de idade, ele se inscreveu em segredo no Teatro Popular Livre do Povo Judeu (fundado em Viena em 1919 e dissolvido em 1922). Por certo tempo, trabalhou como jornalista, e em 1926 voltou ao teatro, atuando em comédias, operetas e peças de William Siegel e Scholem Aleichem. Cantor popular, Witler se apresentou no Leste Europeu, na França, Inglaterra e nos Estados Unidos, onde, em 1940, conquistou um imenso público para as mais de 200 músicas que gravou em ídish. Em 1946, na Argentina, conheceu a cantora Shifra Lerer, com quem se casou, viajando nos anos 1950 pela América do Sul, África e Israel.

Mas vamos à letra de A bíssale mazl:

Vu nemt men a bíssale mazl,  Onde se acha um pouquinho de sorte?
Vu nemt men a bíssale glik,    Onde se acha um pouquinho de felicidade?
Er reydl zol zich  iberdreien  A roda já vai girar
Un brenguen dos mazl tsurik.                             e trazer minha sorte de volta.

Di velt iz bashafn far iedn, O mundo foi criado para todos,
Bashafn far iedn glaich.  criado para todos, igual.
Oi, vu nemt men a bíssale,   Oi, onde se acha um pouquinho,
Chotsh nor a  bíssale mazl, a bíssale glik?  só mais um pouquinho de sorte, um pouquinho de                           

felicidade?
Oi, vu nemt men a bíssale chotsh nor a bíssale  

mazl,a bíssale glik?

E, como nas músicas e contos populares, há diversas versões. Umas pessimistas:

Iorn fun tsores, iorn fun pain                      Anos de desgostos, anos de dores

Tsaitn vos erguere kein shoin nisht zain.      Tempos piores já não podem ser

Guegangen oif vegn,                                     Andando em caminhos

fardorbn un shlekht                                     de fome e maldade

Guematert di iorn di teg un di necht             Cansados os anos, os dias e as noites

Nit tsebrochn bin ich                                   Não estou quebrado

Un freg ich di frague bay zich                       e faço a pergunta a mim mesmo:

Vu nemt men a bíssale mazl?                      Onde se acha um pouquinho de sorte?

Oi, vu nemt men a bíssale glik?                  Oi, onde se acha um pouquinho de felicidade?

Outras, criticam o desejo de ter.

A mentsh vos hot nor mazl                                   Uma pessoa que só tem sorte

Dos iz doch festgueshtelt                                      Isso é provado

Az du host a bíssale mazl                                      Se você tem um pouquinho de sorte

Gehert dir di gantse velt.                                      O mundo inteiro pertence a você.

Vu nemt men a bíssale mazl?                               Onde se acha um pouquinho de sorte?

Vu nemt men a bíssale glik?                                 Onde se acha um pouquinho de felicidade?

Mentshn, zey shtrebn,                                          As pessoas, elas sonham

bai tog un bai nacht                                             de dia e de noite

Vi azoi tsu machn vos mer gelt,                           como fazer mais dinheiro?,

Ieder einer tracht.                                                cada um pensa.

Men loift un men iogt zich.                                  Se corre e se persegue

Ahin un aher vail                                                 para cá e para lá porque

vifil men farmogt vil men alts mer.                      Quanto mais se tem, muito mais se quer.

Men iz nor mekane.                                              Com inveja

Vos a tsveiter hot                                                 do que o outro tem

Ich ober freg nor eyn zach bai got:                     Eu então pergunto ainda uma coisa a Deus:

Vu nemt men a bíssale mazl?

Vu nemt men a bíssale glik?

Cantada por meu pai, colecionador de músicas ídish que amava entoá-las com sua voz vibrante, A bíssale mazl enchia seus olhos de lágrimas, como os meus aprenderam a se encher. E os versos se encontravam com os de uma conhecida música popular brasileira, cujo sentido político trazia também o tema do destino, da história, da vontade e dos limites da mudança. O reidl – a roda ‒ de A bíssale mazl se mistura em mim com a do Chico Buarque, mas eis que chega a roda-viva e carrega a saudade pra lá.

Cantar e contar. Este espaço Tshiribim trará histórias de músicas ídish e de quem as criou. Quatro notas, antes de acabar. A primeira: há centenas de músicas em ídish. Canções infantis, que falam de amor, de trabalho, festas, da história, de pogroms, de riso, drama ou esperança, músicas de teatro, de rua, de protesto, clássicas ou nacionais, canções sobre o Holocausto, compostas por poetas. Foram gravadas, encenadas, compiladas, filmadas, traduzidas, transliteradas.

E isso leva à segunda nota: sem entrar nos debates sobre a transliteração correta do ponto de vista linguístico, optei por seguir o critério da simplicidade e, em caso de discordância, respeitar a transliteração feita pelo Boletim da ASA.

Convido os leitores a ouvir, ler, recordar ou aprender e cantar junto Vi Nemt Men A Bíssale Mazl. Entre outros sites, um pouquinho de sorte pode ser achada em

http://www.youtube.com/watch?v=4G-1bopsLQU

http://www.youtube.com/watch?v=asu5L8yD2R4

Enfim, meus agradecimentos à Teresa Kramer, minha querida mãe, que sempre me ajuda na tradução do ídish, e à ASA, em especial à Sara Gruman, por me convidar para o Tshiribim, onde posso fazer coisas de que tanto gosto: lembrar, estudar,  escrever e cantar. Em ídish!

Boletim nº 154 – maio/junho de 2015 – Ano 27

Especial para ASA

Sonia Kramer

Professora do Departamento de Educação da PUC-Rio, onde coordena o Curso de Pós-Graduação em Estudos Judaicos. É autora de livros e artigos sobre Educação e temas judaicos. É colunista do Boletim ASA.

2 Comentários

  • Responder junho 2, 2015

    Eliane Pszczol

    Achei uma delícia essa coluna Tshiribim! Também adoro músicas em idish e, quando tenho oportunidade, saio pelo mundo procurando esses CDs. É muito bom saber que vou ficar conhecendo as histórias por trás das músicas! Parabéns à Sonia e ao Boletim.

  • Responder outubro 5, 2015

    Ana Vera Kramer Pontes

    Minha irmã,

    maravilhosa a coluna, estarei sempre lendo e ouvido, e trazendo de volta tantas memórias de nosso pai e de nossa infância!

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