O antissemitismo não desaparece na Europa

Professor Scalercio em debate na ASA, entre o diretor Jacques Gruman e o cineasta Silvio Tendler, 11-9-2011

Professor Scalercio em debate na ASA, entre o diretor Jacques Gruman e o cineasta Silvio Tendler, 11-9-2011

“A direita europeia apoia Israel na política externa e detesta os judeus em casa.” Assim avalia o professor do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio Márcio Scalercio. Respondendo a perguntas do Boletim ASA depois dos atentados ao Charlie Hebdo e ao supermercado kosher em Paris, Scalercio comenta o antissemitismo e a intolerância às minorias na Europa com possíveis reflexos na América Latina, os limites do humor e uma suposta ligação entre o PCC e o Hesbolá.

ASA Os recentes atentados em Paris, contra o jornal Charlie Hebdo e um supermercado judaico, reforçaram o debate sobre a questão da absorção dos imigrantes e das minorias na Europa. Considera que há uma escalada de intolerância – maior do que em outras partes do mundo – às minorias no continente? Se há, por que as minorias têm tanta dificuldade para serem aceitas e absorvidas pelas sociedades europeias?

Márcio Scalercio – Creio que o problema de integração de minorias na Europa não é novo. Hoje, com os meios de comunicação mais ágeis e o modo instantâneo com que recebemos as notícias, temos a impressão de que piorou. De tempos em tempos pode ser que as coisas realmente piorem. As ações violentas por parte de extremistas muçulmanos aumentam o sentimento de insegurança na Europa, sem dúvida.

Ao lado da islamofobia, observa-se um recrudescimento do antissemitismo em níveis preocupantes. Como explica isso?

O antissemistismo é um componente que igualmente não desaparece do panorama europeu. Seu fortalecimento atual, segundo creio, está vinculado ao crescimento da direita europeia. Às vezes é contraditório – a direita apoia Israel na política externa e detesta os judeus em casa. Mais uma prova de que Israel e a comunidade judaica mundial não são necessariamente as mesmas coisas e nem são percebidos do mesmo modo pelos “outros”.

Um analista político declarou que, desde os anos 1930, nunca os grupos e partidos de extrema direita estiveram tão fortes na Europa. Concorda com isso? Por quê?

Eu não tenho os dados para confirmar ou não tal afirmação. Mas diria que os grupos de direita e extrema direita têm se fortalecido, não só na Europa.

Acredita que os acontecimentos na Europa podem contaminar o cenário político na América Latina em geral e no Brasil em particular?

Acho que sim, pois a mundialização da informação instantânea é real. Outro dia mesmo, participei de um programa de rádio em que o apresentador indagou se o fato de muitos refugiados da guerra na Síria estarem vindo para o Brasil era algo preocupante…

Uma notícia recente dava conta de que o grupo Hesbolá mantém negócios com o  PCC (Primeiro Comando da Capital), em São Paulo. O assunto foi, aparentemente, abafado. Sabe algo a respeito?

Nada, e nem sei se acredito nisso.

Como se posiciona no debate sobre os limites do humor? Em sua opinião, o Charlie Hebdo estimulou o ódio/preconceito contra os muçulmanos ao satirizar o profeta Maomé?

Para mim não há dificuldade alguma na questão, a partir dos princípios que defendo e acredito. O humor do Hebdo era rude, grosseiro mesmo, uma modalidade de iconoclastia vulgar e de profundo mau gosto. Pessoalmente, assim como nunca saí bicando despacho em encruzilhada, recrimino quem o faz. Não aprecio determinadas formas que a crítica pode assumir. Diria até que há algo de posicionamento estético nisto. Mas a minha reação é não comprar o jornal. Desse modo, é inaceitável que pessoas sejam fuziladas por causa disso, por sua grosseria. Definitivamente acredito que o extremismo deve ser combatido, pois é uma ameaça a todos nós. Destaco que, no mundo, quem mais sofre as agressões dos extremistas – agressões letais, veja bem, são os muçulmanos. Ficamos alvoroçados – com alguma razão – quando algo ocorre em Boston ou Paris –, mas mortes por atentados às dezenas são regra semanal – e até mesmo diária – no Paquistão, na Síria, na Líbia e no Iraque, por exemplo. Sem falar da “recém-descoberta” Nigéria. Esses extremistas muçulmanos podem perfeitamente, em termos de ideais, marcar um encontro com a extrema direita europeia – são preconceituosos, odeiam o “outro”, são violentos, amam mortes. Praticam discriminação de gênero, agridem o espaço da autonomia da vida privada e estão sempre muito interessados em quem frequenta a cama dos outros. É necessário também que os governos saiam das meras políticas repressivas e se preocupem em estabelecer estratégias benignas, humanas, interessantes, de incluir os descendentes de imigrantes no tecido social. Finalmente, deveriam deixar o cinismo de lado e discutir claramente essa coisa da facilidade com que se obtêm fuzis de assalto e farta munição em qualquer lugar.

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

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