Considerações sobre a história da violência terrorista

Piloto jordaniano é queimado vivo pelo Estado Islâmico (ISIS)

O terrorismo tornou-se novamente pauta do dia com o recente ataque ao Charlie Hebdo. Muitos vieram a público falar dos antecedentes diretos desse caso. Alguns sublinhariam a temática da discriminação e segregação dos “ex-colonizados” e seus descendentes nas periferias do mundo europeu. Outros enfatizariam o próprio caráter excludente do capitalismo – o retorno dos subjugados.

Uma série de posicionamentos tem a marca daquela expressão de Derrida depois do 11 de setembro  – “não se contam os mortos da mesma maneira em todos os lugares do mundo”. Questões sobre os massacres na África, sobre a hipocrisia da reação na manifestação que reuniu Abas e Netaniahu. Muitos ironizaram os parâmetros da democracia existente e tantos outros lembraram os limites da ridicularização do islã, (não há limites para o antissemitismo?), a temática da liberdade e da pluralidade.

Trata-se não de perdoar, como colocou certa vez Hannah Arendt sobre o totalitarismo, mas de compreender. Islamofobia, imigração, colonialismo, subalternidade. Todos são, com razão, elementos envolvidos nesse evento. Minha proposta aqui, para além desse caso específico, é retomar o horizonte mais amplo da discussão sobre a violência terrorista, sua história e seus significados.

Luigi Bonanate mostra que terror e terrorismo são ações distintas. O primeiro está ligado aos agentes de um determinado governo. Refere-se ao terror de Estado. O exemplo mais marcante – quando tem início de fato a demarcação de um período de terror ‒ é a experiência do terror na Revolução Francesa. O terrorismo, por seu turno, teria como elemento fundamental o uso da violência política como meio de desmantelar o terror de Estado. Seus objetivos principais seriam: “vingar as vítimas do terror”, aterrorizar e desencadear um movimento revolucionário para suprimir o terror.

Notemos que, nessa definição, o terrorismo é uma espécie de contraterror e seria, portanto, legítimo na sua atuação contra um terror maior. Terror de Estado não se configura como terrorismo. O atentado terrorista surge como a força do mais fraco; a força que ataca o poder vigente. Em Piratas e imperadores, Chomsky apresenta de modo sintético a questão através de uma parábola de Santo Agostinho que narra a história de um pirata capturado por Alexandre, o Grande. O imperador teria lhe perguntado como ousava molestar o mar. A resposta do pirata era também um questionamento sobre as ambições imperiais de Alexandre. Segundo ele, a diferença entre os dois era que, por ter um pequeno navio, era chamado de ladrão, e Alexandre, com uma enorme marinha, era considerado Imperador. Na leitura de Chomsky, que retoma Agostinho para pensar o terrorismo contemporâneo, o fraco é o terrorista, o forte são as potências e Estados com grandes exércitos. O que está em evidência é o aspecto utilitário do termo terrorismo. O cinismo na história desse conceito que acaba por dissimular a violência dos países ocidentais.

Três momentos

Chomsky nos leva para um dos problemas fundamentais acerca do terrorismo, ao demarcar a disputa política em torno do conceito. Terrorista é sempre o outro, o inimigo, o mais fraco. Domenico Losurdo também vai trabalhar com essa temática da construção lexical, evidenciando como a análise do discurso é importante para entendermos que determinados usos da violência são aceitáveis e outros, não. Na geopolítica atual, a classificação terrorista permite ou legitima intervenções, crimes, prisões de indivíduos e países. Como defende Austin Turk, em Sociology of Terrorism, quando alguns são designados como terroristas, alguém está vencendo uma guerra de palavras. O “terrorista” geralmente se entende como mártir ou revolucionário.

No seio das discussões marxistas, a questão da legitimidade – que se relaciona com a aceitação popular – é um mecanismo para distinguir a violência revolucionária do mero uso indiscriminado da violência. Em Lênin, como em Lukács, a violência terrorista não passaria de uma violência elitista. Quando lemos o Minimanual de guerrilha urbana de Marighella e analisamos as pretensões dos movimentos terroristas europeus da década de 1960 – como a RAF, as Brigadas Vermelhas, o ETA ‒, encontramos argumentos muito semelhantes. Pretendem obrigar o sistema capitalista a declarar abertamente seu fascismo, incitando a elevação da repressão política até que ela se torne insustentável e a própria população, vivendo em estado de guerra civil, se coloque ao lado dos revolucionários armados. Há, no entanto, uma preocupação moral comum com os atos indiscriminados – com a produção de vítimas aleatórias, que se tornariam, num tempo mais recente, os principais alvos do terrorismo.

Com base nessa diferenciação ‒ a questão da indiscriminação da violência ‒, uma tendência recente da historiografia sobre o terrorismo é distinguir o terrorismo guerrilheiro/clássico do terrorismo internacional. Uma proposição marcante nesse sentido é a de Eric Hobsbawm, que vai cunhar um quadro de desenvolvimento do terrorismo desde a década de 1960 até o século 21. Na sua perspectiva, o apoio popular e a capacidade de executar ações políticas decisivas seriam diferenças fundamentais entre os grupos sessentistas ‒ ETA, IRA, RAF, Brigadas ‒, que atuavam de maneira elitista na Europa ocidental visando derrubar regimes e alcançar libertação nacional, e os movimentos dos anos 1980 – Hamas, Hesbolá, Al-Fatah, Jihad Islâmica, Tigres Tâmeis, Partido dos Trabalhadores do Curdistão –, que cresciam e se popularizavam em sociedades africanas e asiáticas. As duas fases do terrorismo se distinguem ainda mais radicalmente do terceiro e atual momento ligado ao movimento de transnacionalização do terror com o surgimento da Al-Qaeda. Evidencia-se agora a descentralização da organização ‒ que se constitui de células pequenas e isoladas sem base territorial/ nacional fixa ‒, mas, sobretudo, seu caráter sintomático.  Esse terrorismo seria um reflexo da crise no interior dos próprios sistemas tradicionais de autoridade e legitimidade ocidentais e também de uma crise das alternativas. Nas palavras do autor, “Eles são sintomas, e não agentes históricos significativos.”

Imagem

O ataque de 11 de setembro nos Estados Unidos e a proeminência que a Al-Qaeda tomou desde então afetam profundamente os debates sobre o significado do terrorismo. A partir daí, muito irá se falar acerca do aspecto simbólico e sintomático do terror. Muitos autores vão notar a importância da mensagem nesse tipo de violência, que estaria menos preocupada com as vítimas em si e mais com a transmissão da imagem. A cena dramática do atentado vem para o primeiro plano. A forma e a apresentação do massacre importam mais que a eliminação de uma figura política específica, contrariando a ideia de um assassinato político tradicional, onde o importante era eliminar um personagem, uma vítima singular.

Creio que esse é um ponto fundamental do terrorismo e tem grande relevância para compreendermos o processo de especialização – chamo de autonomização – do atentado terrorista no mundo contemporâneo. A divulgação das imagens, a constituição de uma cena de terror bem tramada é o que parece caracterizar de modo mais particular essa nova forma de violência política. Esse aspecto certamente não é próprio da Al-Qaeda. Talvez só no 11 de setembro tenhamos o que veio a ser a ação mais bem acabada – mais exemplar – do atentado terrorista. Seria o caso, portanto, de vislumbrar que entre as diferentes práticas de terrorismo existem rupturas, mas também continuidades. Se as vítimas aleatórias ou os alvos simbólicos se tornaram objetos mais proveitosos para a realização do terrorismo, não podemos esquecer que a preocupação com o caráter espetacular esteve presente desde as primeiras grandes ações terroristas. Basta lembrar a cena do atentado a Carrero Blanco na Espanha pelo ETA ‒ forjada com muito cuidado para que o carro da vítima voasse para o alto de um prédio e uma cratera imensa se abrisse na rua. Não bastava eliminar o possível sucessor de Franco, tratava-se de pôr em andamento uma forma de violência – que precisava ser testemunhada. O terrorismo pretende ser visto – é grandioso, espetacular, explosivo.

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

É doutora em História (PUC-Rio) e professora de História Contemporânea (UFF)

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