A libertação do Egito no imaginário das gerações

Charlton Heston (Moisés) em Os Dez Mandamentos, 1956

Charlton Heston (Moisés) em Os Dez Mandamentos, 1956

A libertação dos judeus da escravidão no Egito, liderados por Moisés, e os diversos aspectos dessa narrativa, cuja fonte primária é o texto bíblico, povoam há séculos tanto o imaginário judaico como o do ocidente cristão e o do mundo islâmico. Isso quiçá ocorra porque a história, ainda que lendária, de que alguma vez em algum lugar um povo subjugado e oprimido passou da escravidão para a liberdade, ecoa muito profundamente na alma humana através dos tempos. Assim, ao invés de se amarelar com o tempo a libertação do Egito continua inspirando. O último grande evento que usou essa poderosa narrativa para compor seu imaginário foi o movimento pelos direitos civis que agitou os EUA há 50 anos. Naquela década de 1960, conturbada e cheia de esperanças, o movimento negro norte-americano, reivindicando o direito à cidadania plena, tinha um hino que ficou famoso e cujo refrão era Let my people go, “deixe meu povo ir”.

Talvez em parte por uma característica típica das narrativas bíblicas, que é a ausência de muitos detalhes ‒ o que resulta num texto cheio de lacunas, que pedem para serem preenchidas ‒, talvez por isso, quem sabe, o texto se fez receptivo às diversas apropriações que, em diferentes épocas, contextos culturais e lugares, foram feitas dele. Tais apropriações mais falam do espírito de quem leu e utilizou a narrativa do Êxodo do que iluminam alguma exegese do texto em si. Talvez o texto não possa jamais ser interpretado, e mais ainda, jamais tornado relevante, fora da situação de quem o leu e o interpretou num dado contexto histórico, especialmente se esse contexto for de opressão por parte do tirano do momento. Basta lembrar, como exemplo dessas apropriações, as  diversas hagadot de Pessach com suas ilustrações e comentários feitos não apenas por grupos de judeus tradicionais, mas também por membros de kibutz e mesmo por partizans durante o Holocausto. Cada versão ressaltando um aspecto diferente do significado da opressão e da libertação. Essas apropriações são movidas por uma esperança teimosa de que, se aconteceu um dia, ainda que no tempo da lenda, quem sabe possa ocorrer novamente hoje ou no futuro algo semelhante.

Texto conciso

Aliás, a respeito da Hagadá, é interessante como os sábios do período talmúdico foram sutis na escolha do texto bíblico a ser usado durante o seder de Pessach. Em vez de usar a narrativa do Êxodo, que se estende por vários capítulos, eles preferiram colocar na Hagadá uma narrativa paralela e muito mais curta, encontrada em Deuteronômio 26:5-8. Apenas quatro versículos para mostrar o que de fato é essencial na narrativa. Lá podemos ler:

“Arameu, prestes a perecer, foi meu pai, e desceu ao Egito, e ali residiu com pouca gente, porém ali cresceu até vir a ser nação grande, poderosa, e numerosa. Mas os egípcios nos maltrataram e nos afligiram, e sobre nós impuseram uma dura servidão. Então clamamos ao Eterno Deus de nossos pais; e o Eterno ouviu a nossa voz, e atentou para a nossa miséria, e para o nosso trabalho, e para a nossa opressão. E o Eterno nos tirou do Egito com mão forte, e com braço estendido, e com grande espanto, e com sinais, e com milagres.”

Os primeiros rabinos, conhecedores do seu público, sabiamente escolheram um texto sucinto, pois as pessoas podem estar ansiosas pelo jantar. No entanto, escolher uma versão breve da narrativa implica buscar a mensagem mais importante que ela contém, ou seja, sua essência. O importante, segundo a discussão talmúdica, é que a narrativa no Seder comece pela opressão e acabe na libertação. Segundo Shmuel, a opressão começou durante a escravidão no Egito e por isso cantamos Avadim haínu, escravos fomos do faraó no Egito, e mais para a frente cantamos juntos Daieinu, para dizer que apenas a libertação daquela opressão já nos teria bastado. Rav, contudo, entende que a opressão começou muito antes, quando estavam todos imersos na superstição. A superstição seria a causa primeira da servidão humana. Sob esse ponto de vista a libertação é um processo que ainda está para ser concluído.

Por gerações as pessoas não duvidaram de que a narrativa da libertação dos judeus do Egito tivesse sido, em linhas gerais, um evento estabelecido. Afinal de contas, por que um povo inventaria uma origem tão humilde para si? Por exemplo, no século 12, Iehudá Halevi argumentava que o testemunho coletivo de um povo inteiro dado através das gerações teria força suficiente para confirmar esse evento diante do rei dos kazares. Mas o fato é que não há provas arqueológicas nem documentos históricos que comprovem cabalmente, sem sombra de dúvida, que os judeus na antiguidade foram escravos e saíram libertos do Egito sob a liderança de Moisés. Interessante é que mesmo na Antiguidade e durante a Idade Média diferentes comentadores interpretavam essa narrativa de modo a reforçar o maravilhoso ou  a sublinhar uma visão mais naturalista. Tomemos, por exemplo, rabi Akiva, que, muito mais imaginativo que Spielberg, ensinava que o mar se abriu em doze avenidas diferentes, uma para cada tribo. Por outro lado, Hiskiahu, um comentador francês medieval, notando que não há mar separando Israel do Egito, interpretou a passagem pelo mar como uma trajetória em meia lua de uma ponta até a outra da costa mediterrânica durante a maré baixa. Nessa travessia, a água chegaria até os joelhos, por isso eles teriam molhado seus pés.  Esses são exemplos do que escreveu Maimônides no Guia dos perplexos: “as portas da interpretação estão abertas”.

Mito

O mito, no sentido da narrativa arquetípica, não é um relato de algo que ocorreu em algum lugar, nem uma história que nunca aconteceu em lugar nenhum, mas uma narrativa que se repete em diferentes épocas e lugares. O mito vivo está sempre, por assim dizer, a reencarnar de modos diferentes. Um exemplo é o do ritual significativo guardado pelos criptojudeus da Serra da Estrela, em Portugal, que no sétimo dia de Pessah vão até um córrego e abrem as águas com ramos de oliveira na esperança de que os caminhos da vida se abram para eles.  A civilização moderna encontrou um suporte muito apropriado para o mito no cinema. E a prova de que mais do que uma lenda ou um evento histórico a libertação do Egito é ainda um mito vivo está nas três superproduções que Hollywood produziu nos últimos sessenta anos, desde o clássico Os Dez Mandamentos, passando pelo desenho animando O Príncipe do Egito e no atual Êxodo: deuses e reis. A escolha narrativa de cada um desses filmes, o que é destacado e o que é omitido em relação ao texto bíblico, expressa o espírito de cada momento e diretor. Ainda que gostemos mais de uma do que de outra, nenhuma delas é a versão definitiva. Nesse sentido todas elas são datadas e lacunosas, mas ao mesmo tempo apresentam algum insight novo sobre o Êxodo.  São exemplos da polifonia daquilo que no jargão rabínico é chamado midrash.

O espantoso é que o mito pode se encarnar em formas inesperadas tanto na vida quanto nas artes. Refiro-me a um filme que assisti recentemente em DVD cujo título em português é “Um Ato de Liberdade”. O filme é baseado em eventos ocorridos durante a Segunda Guerra Mundial na União Soviética ocupada pelos nazistas. Naquele tempo sombrio, no território ocupado, os nazistas e seus colaboradores formaram grupos de extermínio que iam de aldeia em aldeia judaica massacrando através de fuzilamentos coletivos a população inteira. Sabemos hoje que um milhão e meio de pessoas foram exterminadas e depois descartadas em valas comuns como resultado desses massacres.  O filme retrata um grupo de irmãos de um desses shtelach, os Bielskys, que fogem para a floresta, juntam-se a outros refugiados e formam um verdadeiro “quilombo judaico” (não no sentido argentino) e organizam uma resistência partizan contra o inimigo. O que era para ser um grupo guerrilheiro tornou-se pouco a pouco uma aldeia com mulheres, homens, idosos, crianças e doentes. Mas a liberdade é sempre insegura, por isso, além de enfrentar o inimigo, as tensões da convivência humana também ocorrem. O líder partizan, Tuvia Bielsky, que depois da guerra imigrou para os EUA e abriu uma empresa de mudanças, torna-se o Moisés daquele momento. Um dia, os nazistas atacam com aviões e tanques. Eles têm que fugir. E então diante deles está um pântano. O que fazer, Moisés?, pergunta um coadjuvante. O faraó vem ao encalço com seu exército, com carros de guerra que escriba bíblico jamais teria imaginado. E o midrash tinha razão, Deus não abriu as águas sozinho, foi quando eles entraram n’água e tentaram atravessá-la que o caminho se abriu. E foi difícil e eles molharam mais que os pés, como intuiu Hiskiahu. A coincidência com a tradição rabínica é que o nome do líder, Tuvia, forma idishizada do hebraico Tov, é o mesmo nome, que segundo o midrash, a mãe de Moisés lhe deu ao nascer.  A vida imita a arte e o mito. Meu desejo é que a narrativa do Êxodo continue a inspirar-nos a atravessar as águas, se for preciso, pela realização da libertação humana.

Boletim nº 153 – março/abril de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

É rabino da comunidade judaica de Alphaville, na Grande São Paulo, professor da UNISAL e do programa de pós-graduação em Cultura Judaica da FFLCH-USP, pesquisador do Centro de Estudos Judaicos da USP e autor de livros e artigos sobre pensamento e cultura judaica.

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