Um pouco do judeu no cinema argentino

El abrazo partido

El abrazo partido

É ampla a presença de atores e personagens judeus na cinematografia argentina, desde o seu começo. O cinema argentino nunca ignorou temáticas próximas ao judaísmo. No entanto, durante muito tempo, a imagem dos judeus foi a de perseguidos ou acossados pelos nazistas. Podia-se observar, também, de forma colateral, a imagem estereotipada do imigrante pobre, carente de meios e sofredor.

Paralelamente, o imigrante judeu, especialmente nesses primeiros tempos, foi às vezes tratado de forma depreciativa (o clássico comerciante avarento), às vezes não e, de vez em quando, de forma neutra.

Foi só nos últimos anos que um número grande de jovens realizadores, muitos com origem na comunidade judaica, pôs em cena o lugar do judeu na sociedade argentina atual. Diferentes filmes falam do judaísmo na Argentina em suas distintas visões, desde os que marcaram uma época no cinema nacional – como Los gauchos judíos – até os primeiros filmes de Daniel  Burman e filmes contemporâneos – como Judíos en el espacio ou Cara de queso – , acrescidos de documentários que refletem as problemáticas do homem judeu das primeiras ondas imigratórias ou do início do século 20.

Esse padrão de judeu – de características urbanas, pequeno ou médio comerciante – foi divulgado por muitos comediantes judeus de destaque nas produções locais. Personagens cômicos como Don Jacobo, tio Josey, e outros, protagonizados pelos atores Adolfo Stray, Tato Bores e Norman Erhlich, foram verdadeiramente paradigmáticos, vistos com simpatia por toda a sociedade e muito aplaudidos.

Os filmes desse novo cinema representam a experiência judaica de um ponto de vista ainda inexplorado: a busca por respostas às velhas perguntas, algumas incômodas, que inquietam as comunidades minoritárias. São elas a questão de conservar as tradições ou renová-las de modo a não perderem nem o sentido nem a essência, os casamentos mistos (com pessoas não judias, entre pessoas do mesmo sexo), a distância entre gerações, as formas de relacionamento com integrantes do poder, da cultura dominante e da comunidade, os conflitos pessoais, as situações sociais e políticas concretas (o atentado contra a AMIA em 1994, a crise de 2001/2, a emigração para Israel, o sionismo).

Famílias judias

A atual cultura judaico-argentina é basicamente urbana, embora mantenha reminiscências rurais mitológicas originadas na lembrança da imigração para as colônias agrícolas do interior do país, considerada por muitos como um acontecimento épico. Los gauchos judíos (Jusid, 1974) e Un amor en Moisesville (Daniel Barone, 2001) são claros exemplos dessa postura algo apologética e, de qualquer forma, falham  ao apresentar personagens clássicos e conflitos convencionais sem se aprofundar nas contradições objetivas que ocorreram, uma vez que se centram na redenção dos imigrantes integrando-se na cultura argentina. Talvez a maior dificuldade resida na ausência de uma problematização certeira e menos superficial do que foi de fato o processo de colonização agrária, o tipo de vínculo que se criou no interior das colônias entre a empresa colonizadora – a Jewish Colonization Association (JCA) – , os colonos, os peões, suas respectivas famílias e os demais habitantes daquelas paragens, a existência ou passagem de personagens paradigmáticas (o dr. Noe Yarcho, o poaleissionista Leon Jazanovich), o surgimento e desenvolvimento de instituições de alto conteúdo social e de grande influência (as cooperativas). Terminam assim numa concepção açucarada do que realmente ocorreu, sem ignorar ou menosprezar a força e transcendência dessa empresa, dos pontos de vista coletivo e individual. No entanto, há hoje uma série de documentários mais ricos em relação a esse tema. Definitivamente, ainda não vimos nenhuma produção que expresse essa representação de maneira justa, digna, convincente e artisticamente plausível.

Também não se alcançou uma produção cinematográfica que represente a contribuição da comunidade judaica à formação do movimento operário, se considerarmos que foram muitos os ativistas sindicais judeus que lhe deram origem.

Nesses filmes pode-se perceber o poder residual da imagem do imigrante pobre, sem meios e sofredor. Entre 1988 e 1996 quase não há registro de imagens de judeus na filmografia argentina, salvo em La memoria del água (Hector Faver, 1994), estreado pouco depois do atentado à sede da AMIA e onde um sobrevivente do Holocausto repassa uma série de acontecimentos importantes de sua vida momentos antes de morrer.

No cinema de 1990 –   auge do mais franco neoliberalismo, gerador de uma verdadeira catástrofe institucional, política, cultural e social – , a instituição família é apresentada como incapaz de funcionar, enquanto referência estável, sobre um imaginário urbano e doméstico em decomposição, onde as narrativas de famílias judias, como os filmes de Burman Esperando al Mesías (2000), El abrazo partido (2004) e Derecho de familia (2006) e o de Gabriel Lichtman Judíos en el espacio (2005), propõem que o reencontro é  possível e significativo.

Nem adesão nem repulsa

Nos filmes de ficção da atualidade, produzidos a partir de 1995, os personagens judeus são cidadãos comuns que enfrentam os conflitos cotidianos de uma classe média ilustrada ou semi-ilustrada, com certa capacidade econômica e certa sociabilidade: amor, família, trabalho e subsistência financeira. Não há, porém, muitos filmes que abordem a problemática do antissemitismo ou a participação política dos judeus, exceto uma ou outra menção colateral. No geral, as tramas se desenvolvem no presente ou num passado recente, sem procurar explorar o passado histórico, ainda que este apareça em algumas pinceladas. Podem ser mostrados certos costumes e rituais – refeições, cerimônias, festividades, festas – , mas a vida judaica é focalizada como acessório.

O mesmo se pode dizer acerca de uma das maiores tragédias vividas pela comunidade argentina, que foi o atentado contra a sede da AMIA em Buenos Aires e que é mostrado em apenas alguns documentários. Anita (com Norma Aleandro, direção de Marcos Carnevale, 2009) conta a história de uma jovem com síndrome de Down cuja vida muda para sempre quando  a sede da AMIA é expodida. Anita não entende o que está acontecendo. Só lembra que sua mãe havia saído. Assustada, sai correndo e algumas pessoas a colocam dentro de um ônibus que faz com que se perca no local do atentado, totalmente desorientada. O filme 18 J  reúne dez episódios de dez diretores diferentes. Sem golpes baixos, mas com certa tensão constante, consegue ir ao fundo de cada um sem cair em crises de choro. As diferentes expressões da dor são mostradas nos silêncios, nos corpos dançantes, nas imagens lentas, nos olhares perdidos. Há pouco da explosão em si, o que aparece são diferentes histórias sobre como era a vida de cada um naquele momento, ou como passou a ser depois. É uma homenagem à memória das vítimas e dá um empurrão a mais na necessidade de encontrar a verdade, como disse um dos diretores: “Temos que saber a verdade para continuar vivendo.” O interessante de ambas as produções é que foram dirigidas por não judeus.

O judeu se naturalizou dentro da produção cinematográfica e televisiva. Em numerosas obras aparecem personagens ou situações vinculadas à comunidade sem que isso signifique nada especial ou tenha qualquer traço de adesão ou repulsa; simplesmente o judeu é incorporado como um condimento a mais da sociedade argentina. Assim como houve época em que no cinema aparecia o cortiço com o napolitano ou o galego, hoje o ambiente urbano, basicamente da capital, incorpora elementos judeus.

O cinema argentino hoje não insiste na identificação étnica entre os atores e os personagens, não constrói ideias pré-existentes acerca da fisionomia e do gestual judaico, motivo pelo qual atualmente atores não judeus interpretam personagens judeus e vice-versa.

Definitivamente, a filmografia atual reflete o que ocorre na sociedade. Os judeus são / somos parte integrante do povo argentino: sofrem as suas derrotas, gozam as suas vitórias, sonham as suas esperanças como qualquer um.

Alguns filmes argentinos de temática judaica:

– 18-J (2004), VÁRIOS DIRETORES

– CARA DE QUESO “MI PRIMER GUETTO” (2006)

– DERECHO DE FAMILIA (2005)

– DIASPORA (2003) – DOCUMENTÁRIO

– EL ABRAZO PARTIDO (2003)

– EL HIJO DE LA NOVIA (2001)

– EL NIDO VACÍO (2008)

– ESPERANDO AL MESÍAS (2000)

– HACER PATRIA (2006)

– HUMANOS EN EL CAMINO: AMIA A LOS 12 AÑOS (2006) – DOCUMENTÁRIO

– JEVEL KATZ Y SUS PAISANOS (2005)

– JUDÍOS EN EL ESPACIO O ¿POR QUÉ ES DIFERENTE ESTA NOCHE A LAS DEMÁS NOCHES? (2005)

– JUDÍOS POR ELECCIÓN (2011)

– LEGADO (2001)

– LOS GAUCHOS JUDÍOS (1974)

– MI PRIMERA BODA (2011)

– POBRE MARIPOSA (1986)

– SERES QUERIDOS (2004)

– SIETE DÍAS EN EL ONCE (2001)

– SOL DE OTOÑO (1996)

– TANGO, UNA HISTORIA CON JUDÍOS (2009)

– TERROR EN BUENOS AIRES: ATENTADO A LA AMIA (2004) – [DOCUMENTÁRIO]

– UN AMOR EN MOISÉS VILLE (2000)

– UN CRISANTEMO ESTALLA EN CINCO ESQUINAS (1998)

– UN POGROM EN BUENOS AIRES (2007)

– VIENTOS DE AGUA (2005) – COPRODUÇÃO COM ESPANHA (TRATA INDIRETAMENTE DA IMIGRAÇÃO JUDAICA PARA BUENOS AIRES)

Boletim nº 152 – janeiro/fevereiro de 2015 – ANO 26

Especial para a ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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