Sionismo: como usar

Declaração Balfour em carta a Rothschild - 2-11-1917

Declaração Balfour em carta a Rothschild – 2-11-1917

O mínimo em comum entre as diferentes correntes do sionismo é a defesa do direito de existência do Estado de Israel. Esta defesa não deve ser confundida com o apoio político aos governos israelenses. O Estado fica; os governos passam.

Igualmente não significa apoiar um Estado judeu excludente. O Netaniahu quis obrigar o Lula a depositar flores no túmulo de Herzl durante sua visita oficial. O então presidente brasileiro declinou do convite, primeiro, porque estava de olho no mundo árabe; segundo, porque a homenagem seria uma extensão indevida da ideia de reconhecimento. Reconhecer Israel já é de bom tamanho. Um país é formado por seus cidadãos, segundo a versão democrática, e não por promessas de Deus a Abraão.

Um corolário derivado desta definição sionista é afirmar o direito à autodefesa do Estado. Mas o que significa esse direito? Qual o limite desse conceito? Hoje em dia correntes políticas extremistas israelenses propõem sua extensão ilimitada: autodefesa seria, previamente, um vale tudo, inclusive tomar territórios, julgados pela opinião pública internacional como alheios. Com atitudes desse gênero abandonam por completo aquilo que foi uma tradição e prática sionista consubstanciadas na presença equilibrada de um sionismo prático e outro político.

As duas maiores e decisivas vitórias de Israel não se deram, ao contrário do que se propala, nos campos de batalha. A construção do Estado provém de dois atos políticos constitutivos fundamentais: a Declaração Balfour e a resolução da ONU pela partilha da Palestina, duas cartas externas que construíram a legitimidade do Estado de Israel na comunidade das nações, fato memorável alcançado por aqueles que nos antecederam.

Majoritariamente o sionismo sempre considerou que a legitimidade não nasce somente e exclusivamente de uma autodeclaração. Não é gratuita e nem se pode impô-la. Constrói-se por camadas e camadas de consensos. É fruto de ação política. Ela se realiza pelo reconhecimento de sua existência e de suas fronteiras, principalmente pelos vizinhos. Legitimidade se ganha, mas também se pode perder.

Obscurantismo

O problema israelense, desde a Declaração Balfour, não é somente uma existência, garantida pelas armas, mas também uma aceitação a ser construída através da ação política. Sem esta percepção a questão da aceitação se transformará somente em um problema de existência, opção militar e guerras sem-fim senão pior (se já não o é).

O maior desafio da política israelense não é somente vencer todas as guerras, mas resolver todas ou grande parte das pendências com povos e nações vizinhas. A guerra não é um fim em si. Sem a busca desta finalidade – a aceitação – , a única realidade que restará serão os conflitos armados permanentes e insuportáveis.

A experiência política passada não é a de desprezo aos parceiros, às pressões, à opinião pública e a uma postura ética. O Estado de Israel, através de diferentes governos, sempre se curvou, por decisão própria ou por coerções irresistíveis, ao realismo político do momento. Nesta caminhada louca atual rumo ao isolamento é cabível supor que o governo israelense esteja pondo em risco a existência do Estado. Pode-se constatar, infelizmente, que povos só acordaram de demagogias impingidas quando seus resultados funestos apareceram. Os caminhos para o precipício, as marchas da insensatez, muitas vezes não são obstados antes de as desgraças acontecerem e as mentes acordarem de um sono profundo e sempre tardio.

Todo o cabedal político sionista está sendo corroído por um obscurantismo estúpido, disfarçado em pensamento estratégico que propõe sempre o adiamento do inadiável, na doce ilusão de que o “por enquanto” e o “comer pelas bordas” possam ser um status quo permanente. A degeneração mais visível na boca de muitos se transformou na expressão  “não importa o que os goím dizem, mas o que os judeus fazem”, um etnocentrismo medíocre, não levando em conta o panorama mundial, a questão da aceitação.

O protagonismo e as responsabilidades das atuais posições governamentais israelenses são encobertos, no entanto, pelo marketing de um sofrimento holocáustico, apocalíptico, permanente, eterno e a-histórico, causado somente pelos outros, omitindo-se o governo israelense e suas ações como sujeito ativo do impasse atual, distanciando-se da presunção de que uma paz construída é melhor do que a guerra.

Aperfeiçoamento moral

O sionismo majoritariamente procurou sempre se escudar moral e eticamente. Sempre se apresentou de certa forma como a consequência laica do messianismo judaico, sua concretização em termos humanos e não divinos. Mas será que ele se bastou na promessa do retorno, da posse da terra?

O retorno messiânico só se daria, biblicamente, se houvesse de antemão a realização de um aperfeiçoamento moral e religioso do povo hebreu, isto em termos teológicos. Mas podemos deduzir, em termos laicos, a construção de outra sociedade, no mínimo, melhor, pacífica e mais justa. Para Isaías seria a Torá se irradiando de Sion em Jerusalém, mas também o tempo da paz e do apaziguamento dos conflitos, em que o leão conviveria com a ovelha, etc.

Se a diáspora foi um castigo, o retorno seria um prêmio, sempre referenciado pelo comportamento do povo, isto é, o aperfeiçoamento ético-religioso antecedendo ao retorno. Uma mudança comportamental através da qual se realizaria sua consequência, o ressurgimento nacional e a reaquisição de um território. A lógica messiânica nunca foi a concessão gratuita desta volta; ela não é um fim em si; a terra não se justifica por ela mesma, nem é santa ilimitadamente. O verdadeiro fim seria, em termos modernos, o aperfeiçoamento moral. O grande objetivo seríamos nós, nossa integridade, nosso aperfeiçoamento ético e nossa contribuição para o legado moral do judaísmo.

De certa forma o sionismo se apropriou historicamente desses dois componentes: retorno e aperfeiçoamento moral. A nova Israel seria uma sociedade modelo, equitativa, farol para os povos, etc., fazendo jus à reconstrução da pátria e à expectativa de normalização da vida nacional. Na imagística, sempre se fez acompanhar dos halutsim, os novos  homens , os kibutsim, a nova sociedade, e os judeus, am sgulá. Essa imagem de Israel, ao seu tempo, também contribuiu para inspirar, despertar ou manter simpatias em relação ao novo Estado. Toda essa força moral, no entanto, desapareceu da mesma forma como desaparece, pouco a pouco, a teoria da dissuasão militar. A imagem do Estado de Israel se degrada pelos seus governos.

Em suma: as visões realistas, do ponto de vista político, foram, até determinado momento, aquelas que pavimentaram a possibilidade de criar o Estado de Israel e de manter sua existência. A situação atual, com ênfase na colonização, com o desprestígio das posições políticas israelenses no universo das nações, ao lado do reconhecimento gradativo da Palestina como Estado nacional autônomo, expressam a dissociação doentia entre a maioria política dominante e o critério de razoabilidade e viabilidade. Perdeu-se o fio da meada que atava esses empreendimentos a uma tradição política sionista anterior.

Boletim nº 152 – janeiro/fevereiro de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

Henrique Samet

Doutor em História e professor na Faculdade de Letras da UFRJ. É colunista do Boletim ASA. Visite o blog: http://www.henriquesamet.com/

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