O significado de Auschwitz hoje

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Que seja para sempre um brado de desespero e uma advertência à Humanidade este lugar, onde os nazistas assassinaram cerca de um milhão e meio de homens, mulheres e crianças, sobretudo judeus, de diversos países da Europa

As palavras acima foram extraídas dos relatos de Primo Levi, sobrevivente de Auschwitz e um dos mais célebres expoentes da literatura de testemunho do Holocausto. Conservam grande valor pela beleza e dimensão trágica que revelam, mas, sobretudo, por seu caráter atemporal. Pois, o que veiculam é a ameaça sempre presente de que venhamos a perder, por nossos atos, aquilo que nos torna propriamente humanos. Primo Levi as traz como parte de suas lembranças do dia 26 de janeiro de 1945, véspera da libertação de Auschwitz – o maior complexo de campos de concentração existente sob o Terceiro Reich. Desde então, 27 de janeiro é celebrado em diversas partes do mundo como um dia dedicado à memória das vítimas do Holocausto, bem como à resistência daqueles que sobreviveram a uma das experiências mais brutais de que se tem notícias.

Em janeiro de 2015 comemora-se o 70º aniversário da libertação de Auschwitz. Neste mesmo ano, completam-se dez anos da resolução da Organização das Nações Unidas (ONU) que instituiu 27 de janeiro como o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto. Passados 70 anos, o que ainda nos liga a Auschwitz? Por que a memória e o testemunho persistem como recursos privilegiados diante das experiências que ali tiveram lugar?

Quem visita Auschwitz hoje tem acesso a instalações e objetos originais dos tristes dias que conferiram fama ao lugar. Cada bloco do antigo complexo foi transformado em um espaço dedicado à memória das vítimas. Assim, é possível visitar os antigos alojamentos, o Bloco da Morte (para onde eram levadas as pessoas envolvidas nos movimentos de resistência – os quais, cabe ressaltar, foram muitos), a sala de banhos e desinfecção, o crematório e a primeira câmara de gás estabelecida em Auschwitz. Mas se a morte é uma presença marcante em cada um desses espaços, trata-se de uma presença que se pretendia silenciosa, destinada a apagar os traços daqueles cuja vida, para os nazistas, “não valia a pena ser vivida” (P. Cohen, Arquitetura da Destruição, Coleção 2ª Guerra Mundial, DVD, Continental).

Atualmente é de amplo conhecimento quem eram estes últimos: opositores políticos, homossexuais, ciganos, pessoas com deficiências físicas ou mentais e, principalmente, judeus. No entanto, frequentemente se negligencia um importante elemento ideológico que conferia sustentação à identificação desses grupos como os inimigos por excelência da raça alemã: a crença absoluta no processo histórico como regido por leis naturais imutáveis. Leis estas que assegurariam a suposta superioridade da raça ariana a partir de um processo de seleção natural. Eis uma concepção que ainda hoje nos choca por sua vertente eugênica, totalitária, sem, contudo, nos apercebermos daquilo em  que ela nos toca de perto ao fazer eco a um dos maiores desafios da atualidade: o fundamentalismo.

Sobre este ponto é importante ressaltar que, se a faceta religiosa constitui hoje sua expressão mais flagrante, o fundamentalismo, por definição, abrange qualquer ideologia, movimento ou ação humana em que se verifique a submissão excessiva e literal a uma doutrina, tomada como verdade absoluta. E, embora esta perspectiva não tenha surgido com o Terceiro Reich – suas raízes são tão antigas quanto as primeiras religiões –, experiências como as de Auschwitz nos colocam diante dos efeitos extremos que podem advir de um discurso não dialetizável, assentado na divisão inexorável entre nós e eles, que não deixa outro recurso senão a eliminação pura e simples do próximo, não mais tomado como um semelhante.

É só o começo

Em que pese a exortação à eliminação dos seres considerados inferiores, cujos traços deveriam ser banidos da própria História (pois comportavam seu desvio), o empreendimento nazista pode ser identificado como uma guerra contra a memória. Uma guerra travada, sobretudo, no campo simbólico: tratava-se de negar aos judeus (e a tantos outros) sua condição humana. Ora, conforme traz Primo Levi, parte significativa de nossa existência repousa no lugar que nos é dado pelo Outro(aqui, o conceito de Outro tal como introduzido pela psicanálise, a partir dos trabalhos de Jacques Lacan), a partir de um laço de discurso. Repousa, igualmente, na possibilidade de estabelecer com as pessoas e as coisas uma relação irredutível a um valor utilitário e imediato – mas eminentemente afetiva e simbólica. Tais relações conferem à nossa existência seu caráter humano.

Quer se tratasse da foto de um ente querido, de um simples par de sapatos, de uma boneca, ou ainda, da própria casa, das relações de amizade e parentesco e mesmo do olhar compassivo do próximo, o nazismo buscou negar aos judeus e a outros grupos aquilo que confere suporte a uma existência: os vestígios materiais e simbólicos que, para além de nossa presença física, perpetuam nossa existência no mundo. Muitos desses objetos encontram-se atualmente em exibição em Auschwitz – únicos vestígios de histórias que, de outra forma, estariam alijadas do processo de inscrição simbólica que confere a cada um de nós um lugar. Por isso cada lembrança ligada à experiência dos campos, cada testemunho de uma vida ali subtraída assinala o fracasso do projeto nazista e reinscreve no registro da Humanidade aquilo que este projeto buscou apagar. Atualmente, por razões diversas, milhões de pessoas permanecem na fronteira – por vezes, literal – desse registro. Perderam o acesso aos referidos objetos e relações que nos inscrevem no registro do vivo. Experimentam uma realidade decerto muito diferente daquela experimentada em lugares como Auschwitz. Mas, como nos tempos de outrora, ainda hoje corremos o risco de, diante delas, permanecer indiferentes.

Nesse sentido, o 70º aniversário da libertação de Auschwitz adquire especial importância por se tratar da última data redonda celebrada em presença de um amplo grupo de sobreviventes, conforme nos lembra Piotr Cywinski, diretor do Auschwitz-Birkenau Memorial and Museum (Auschwitz-Birkenau Memorial and Museum,  http://www.auschwitz.org/ ).

A instituição prepara uma programação especial para 2015, a qual pode ser acessada pelo site 70.auschwitz.org criado especialmente para o evento. Conforme traz Cywinski: “Até agora foram eles [os sobreviventes] que nos ensinaram a olhar para a tragédia das vítimas do Terceiro Reich e a total destruição do mundo dos judeus europeus. Suas vozes se tornaram o mais importante alerta contra a capacidade humana para a humilhação extrema, desprezo e genocídio. Neste dia, temos que entender que os sobreviventes, os ex-prisioneiros, fizeram tudo o que puderam para nos fazer perceber que a estrada para as mais terríveis tragédias é surpreendentemente simples. Em breve, contudo, não serão as testemunhas daqueles anos, mas nós, as gerações pós-guerra, que transmitiremos esse conhecimento horrível e as conclusões esmagadoras que dele resultaram”. Frente à responsabilidade que então se coloca às futuras gerações, podemos afirmar que Auschwitz hoje não significa o fim, mas o começo. Começo de um trabalho de sustentação, a cada vez, daquilo que confere às nossas existências seu caráter propriamente humano.

Boletim nº 152 – janeiro/fevereiro de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

é psicanalista e historiadora.

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