O romanceiro sefaradi

la mora cautiva

la mora cautiva

O romanceiro sefaradi nasce dos judeus espanhóis que viviam na Península Ibérica e que adaptaram canções populares comuns nas três culturas, até que em 1492 são expulsos por decreto do rei e da rainha de Aragão e Castela. Os romances são poemas narrativos, interpretados em forma de declamação ou de canto, ou com intercalação de canto e declamação. Suas raízes são profundamente hispânicas, e muitos refletem as experiências da Espanha medieval, com personagens históricos, reais ou imaginários. A partir da expulsão, novos temas vão surgindo, tais como os de elaboração própria sobre temas bíblicos ou sobre acontecimentos históricos mais recentes. Vamos deixar estes últimos para outra ocasião.

De onde vem o termo “romance”? A România era formada pelos territórios onde se falava o latim. A língua latina oferecia duas modalidades bem definidas: o latim clássico (latine loqui), falado e escrito pelos mais cultos, e o latim vulgar (romanice loqui), que servia unicamente de expressão oral para a classe média e a popular. De romanice resultam os termos “românico” e “romance”. No século 5° da Era Comum, o Império Romano se fragmenta, por causa da invasão germânica. Começam, então, a surgir reinos independentes, e o latim vulgar inicia um processo evolutivo do qual resultam as chamadas línguas romances, das quais derivam as línguas neolatinas. As composições de cunho popular, transmitidas oralmente, cantadas e declamadas nessas línguas, também são chamadas de romances. É só no início do século 19 que a palavra romance passa a designar o gênero literário narrativo, no qual são representados aspectos da vida pessoal, familiar ou social de uma ou várias personagens. Tanto os romances medievais, quanto os do século 19 estão repletos de situações amorosas; assim, a palavra ganhou também a conotação de relacionamento afetivo, envolvimento amoroso.

Mesmo romance, versões diferentes

Qual a origem dos romances? Os romances se originam das canções de gesta. Quando os jograis e jogralesas cantavam as façanhas de um personagem histórico, os ouvintes pediam que repetissem os fragmentos mais interessantes, que aprendiam e repetiam. Os primeiros romances são, pois, trechos de poesias épicas, transmitidos por tradição oral. Daí as diferentes versões recolhidas de um mesmo romance: cada cantor ou recitador vai modificando, seja alguma palavra, seja alguma situação, de acordo com sua lembrança ou imaginação. Além das variações nas letras, as melodias também podem ter diferentes versões.

Todo esse conjunto adquire um especial desenvolvimento ao longo do século 15 e, com a introdução da imprensa na Espanha, alcança uma difusão prodigiosa. Na metade do século 16 são reunidos em coleções chamadas Cancioneros de romances ou Romanceros. Esses romances se caracterizam por serem épico-líricos, cheios de força e vigor, mas ao mesmo tempo muito sentimentais.

Os sefaradis do norte da África, por sua proximidade geográfica com a Península, foram receptores de muitos romances e canções, que se espalharam por toda a geografia do exílio sefaradi. No noroeste da Espanha também foram recolhidos muitos romances com a mesma temática do que vamos examinar – Una tarde de verano – , mas em sua versão cristã, com o título La cautiva ou Don Bueso (ou Don Boyso) y su hermana. A melodia, a letra e o título vão depender do informante da região em que foi recolhido. Outros títulos são: La hermana cautiva, Al pasar por Casablanca, Volviendo de Casablanca, El día de los torneos, e outros mais. Unânimes são a maneira de interpretá-lo e a sua origem:

1) unanimidade geral – as melodias dos romances não são harmonizadas, mas cantadas por uma pessoa ou em uníssono (o que se aplica a qualquer gênero judeu-espanhol);

2) unanimidade particular – Una tarde de verano é uma adaptação da balada medieval Don Bueso (Don Boyso) y su hermana. Este romance corresponde à temática do que se define como romance mourisco ou fronteiriço: um cavalheiro acredita que conquistou o coração de uma moura, mas descobre que se trata de sua irmã, levada pelos mouros, tempos atrás.

Esta é uma das versões sefaradis, recolhida no Marrocos (utilizo a grafia estabelecida pela revista Aki Yerushalayim):

Una tarde de verano pasi por la moreria
I vi una mora lavando al pie de una fuente fria
Yo le dishe, mora linda, yo le dishe, mora beya
Desha bever mis kavayos esas aguas kristalinas
No soy mora, el kavayero, ke soy de Espanya nasida
Me kautivaron los moros dia de Paskua florida
Si kieres venir konmigo a Espanya te yevaria
I la ropa, el kavayero, donde yo la desharia?
Lo ke es de seda i grana en mis kavayos se iria
I lo ke no vale nada por el rio tornaria
Al yegar a akeyos montes la ninya yora i suspira
Por ke yoras ninya linda, por ke yoras, ninya beya?
Yoro por ke en estos kampos mi padre a kasar venia
Kon mi ermanito Aleksandro i toda su kompaniya
Abrid puertas i ventanas, balkones i galerias
Ke por traer una espoza vos traigo una ermana mia.

Algumas das diferenças entre o ladino e o espanhol estão assinaladas pelas palavras em negrito:

1) pasi = pasé (passei)

2) I = Y (e)

3) dishe, desharia = dije, dejaría (disse, deixaria)

4) beya, kavayos, kavayero, yevaria, yegar, yora = bella, caballos, caballero, llevaría, llegar, llora

5) bever = beber

6) Espanya, ninya = España, niña.

7) kasar, espoza = cazar (caçar), esposa.

8) ermanito, ermana = hermanito, hermana.

9) vos = os

O indício muito evidente de que a versão original é cristã consiste na referência à ocasião em que a jovem foi levada pelos mouros: Pascua florida. Trata-se da festa central do cristianismo, o domingo da Ressurreição, que, na Europa, costuma cair na primavera, o que também explica o adjetivo florida. O texto sofreu um processo de descristianização pela substituição do substantivo cristiana, que aparece nos romances recolhidos em diversas regiões da Espanha, pela expressão de Espanya, no verso que diz “No soy mora, el kavayero, ke soy de Espanya nasida”.

Três grupos brasileiros cantam este romance, com a mesma melodia, mas com ligeiras variantes.na narrativa. O Coral Israelita Brasileiro só muda o primeiro verso (Al pasar por Casablanca, em lugar de Una tarde de verano); o Coral da ASA acrescenta uma estrofe, na qual a jovem questiona sobre sua honra, e o rapaz promete respeitá-la; o Grupo Angeles y Malahines de Cultura Sefaradi canta a versão transcrita acima, que é a mesma interpretada pela cantora Fortuna.

Para conferir:

1) Versão com o Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines:

2) Versão com letra e música distintas: Al Pasar por Casablanca, com o grupo tcheco BraAgas:

3) Versão com letra e música distintas: El día de los torneos, (em espanhol – versão cristã), com o Quinteto Alalumbre Folk:

Boletim nº 152 – janeiro/fevereiro de 2015 – ANO 26

Especial para a ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

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