O ódio nosso de cada dia

Grafiti contra judeus e árabes, Agen, França

Grafiti contra judeus e árabes, Agen, França

“Judeus, pro gás!” “Morte aos judeus!” “Cortem as gargantas dos judeus!”

Ao ler essas frases, ao imaginá-las sendo lançadas em alto som em meio à multidão, pensamos logo tratar-se de um texto sobre o Holocausto. Mas não, este não é mais um artigo sobre os tempos sombrios de uma Europa arrasada pelas guerras, pelo ódio e pelo Holocausto. É um artigo sobre o tempo presente; sobre um mundo onde a democracia liberal saiu vencedora; um mundo “livre” e cheio de promessas de prosperidade e felicidade.

Somente em 2014, a França teve oito sinagogas depredadas, um mercado kosher e uma farmácia destruídos e e roubados. Na Alemanha, coquetéis molotov foram atirados numa sinagoga em Wuppertal. O Cidi, sistema de monitoramento de antissemitismo dos Países Baixos, registrou 70 ligações de indivíduos de origem judaica apreensivos por sua segurança em apenas uma semana durante o mês de julho. A média normal é de três a cinco ligações. Na Bélgica, uma mulher deixou uma loja após ser impedida de efetivar uma compra sob a crua alegação: “não vendemos pra judeus”.

Esses são apenas alguns casos reportados pela mídia e que já indicam um crescimento do antissemitismo na Europa nos dias atuais. Se em tempos ainda recentes expressões abertas de antissemitismo e apologia ao Holocausto eram largamente rechaçadas, em alguns países inclusive proibidas por lei, o cenário com o qual nos deparamos hoje é de um processo gradual de normalização do antissemitismo, em que tais manifestações parecem estar se tornando mais aceitáveis ou menos chocantes.

Diante disso, é importante perguntar e refletir sobre as causas do aumento da violência e do sentimento de ódio contra os judeus. Quais as raízes de tanto ódio? De onde vem tanto ressentimento? Seria simplesmente um ressuscitar de antigos preconceitos sufocados pelo tempo? Ou haveria algo mais, relativo ao contexto atual, aos arranjos sociais do tempo presente?

Tendência à simplificação

A mídia e muitos intelectuais têm constantemente apontado o papel ou o efeito gerado pelo acirramento dos conflitos no Oriente Médio no aumento das manifestações de antissemitismo na Europa. Segundo Mark Gardner, diretor do Community Security Trust, organização civil de assistência à comunidade judaica, as recentes manifestações surgem como explosões de revolta e raiva coletiva após conflitos dramáticos como a Segunda Intifada (2000), a guerra com o Líbano (2006) e os conflitos com o Hamas (2009, 2012 e 2014).

Um grupo de acadêmicos da Universidade de Stanford, entre eles Russell Berman e Amir Eshel, ressalta o impacto do conflito nas comunidades imigrantes de origem árabe e muçulmana. Mais do que uma reação e uma postura crítica às políticas de Israel, as quais muitas vezes partem dos grupos europeus nativos, esses autores questionam a eficácia das políticas de imigração na Europa. Em sua análise, as sociedades europeias têm de achar um meio de contornar o fracasso de suas políticas de imigração no tocante à integração social e cultural dos novos grupos.

Berman e Eshel acrescentam ainda outros fatores, como o crescimento da extrema-direita, o papel da mídia, de figuras públicas e de programas educacionais públicos e privados no combate aberto ao antissemitismo. “Os líderes europeus têm de falar aberta e enfaticamente contra o aumento do antissemitismo. Eles têm de estar dispostos a aplicar a lei”, diz Berman.

O chamado a olhar o problema de frente é urgente. Ainda mais se levarmos em conta o espaço que  partidos de extrema-direita e o discurso de ódio vêm ganhando no cenário político recente. Nas eleições de 2009 para o Parlamento Europeu, partidos extremistas obtiveram resultados alarmantes: o britânico BNP, 8,3% dos votos; o austríaco FPÖ, 12,7%; o dinamarquês DPP, 14,8%, e o holandês PVV, 17,9%. A extrema-direita é um seio histórico de antissemitismo, muitas vezes encoberto por uma retórica nacionalista e xenófoba.

A Carta de Direitos Fundamentais, documento que garante o respeito à dignidade humana, liberdade, igualdade e solidariedade dentro da União Europeia (UE), é de 2010 –  movimento bem posterior às iniciativas norte-americanas de combate ao ódio. Nos EUA, o Departamento de Justiça e o FBI vêm monitorando e investigando grupos extremistas desde os anos 1970. Instrumentos legais de combate ao ódio, como o agravante penal caso identificado motivo de ódio, datam de meados dos anos 1990, assim como os programas de treinamento e preparo de agentes da lei.

Na UE, o órgão criado para garantir a aplicação da Carta, Agency for Fundamental Rights, desempenha uma função meramente sugestiva, coletando informações, produzindo relatórios e propondo ações, mas sem qualquer poder deliberativo que possa avançar no sentido de uma política unificada de combate ao ódio.

Tal quadro nos leva a indagar sobre o porquê da delonga, da indiferença ou da dificuldade em se tomar uma posição aberta de combate ao antissemitismo e às manifestações de ódio de uma forma geral. É importante superarmos o impulso simplificador e estreito de atribuir tais atitudes a indivíduos ignorantes, sádicos e truculentos, como se a resposta pudesse se reduzir à maldade intrínseca de alguns sujeitos ou grupos sociais. Essa tendência é o avesso da resposta, pois transforma as vítimas em novos algozes, em novos promotores do ódio.

Proibidas, mas …

Melhor saída é pensar o preconceito, a discriminação e o ódio a grupos sociais determinados como um fenômeno social e procurar entender o que, em nossa história recente, vem contribuindo para o aumento dessas manifestações. As crises econômicas, as políticas de austeridade neoliberais e as novas formas de precarização e flexibilização do trabalho levaram a uma queda significativa na qualidade de vida de amplos setores sociais. Comunidades imigrantes das mais diversas origens foram particularmente afetadas nesse movimento de rebaixamento social. Soma-se a isso o fato de estarem se estabelecendo em regiões – Europa e EUA – com um histórico de racismo e discriminação que remonta ao período da colonização. Tais países não foram e ainda hoje não são exatamente receptivos a elementos externos, mantendo estruturas racistas, mesmo que proibidas por lei. Sendo assim, crises e contextos mais agudos de angústia social são justamente os momentos nos quais se observa o fortalecimento de “bodes expiatórios”, da tendência a imputar a um grupo social determinado a culpa pela mazela social geral.

Esse diagnóstico é compartilhado por alguns analistas ao olhar para as comunidades de imigrantes muçulmanos. Mark Gardner entende as manifestações de antissemitismo como expressões de um sentimento de alienação e abandono social. “Frequentemente tem mais a ver com isso do que com Israel. Muitos poderiam muito bem atear fogo numa delegacia como numa sinagoga. Judeus são simplesmente identificados como parte do establishment.” Peter Ulrich, pesquisador da Berlin Technical University, fala de uma rebelião dos excluídos, sujeitos que não são integrados socialmente em razão da continuidade de estruturas sociais racistas. É assim descortinada uma dimensão mais complexa do antissemitismo e do antissionismo, pensados para além da permanência cultural, mas  também como resposta radical à insatisfação e ao descontentamento com respeito à marginalização social.

Há ainda um outro elemento muito particular do tempo presente: a apatia política e o crescimento da indiferença e da banalização da injustiça. Recentemente, alguns intelectuais vêm se debruçando sobre esse fenômeno paradoxal da democracia contemporânea. O mundo globalizado que estreitou distâncias e alargou significativamente o acesso à informação é também um mundo extremamente alienado e apassivado diante do ódio e da injustiça. Grupos e crimes de ódio crescem e ganham força justamente no contexto de vitória mundial da democracia e do mundo livre. As promessas de emancipação, prosperidade e felicidade exaltadas pelo liberalismo não se concretizaram. Vivemos num mundo cada vez mais desigual, mais empobrecido, mais violento e cheio de ódio.

Mas qual a saída? Aí reside o tendão de Aquiles da política contemporânea. Os indivíduos e grupos políticos organizados (partidos, associações, ONGs, etc.) parecem tomados pela desesperança, pela falta de fé na mudança. E o desespero e a insatisfação desvinculados de uma proposta política se expressam justamente na forma da violência desordenada e em manifestações de ódio. Ao olharmos novamente as tentativas europeias e norte-americanas de combate ao ódio, podemos notar que as estratégias existentes buscam enfrentar apenas as dimensões legal e educacional do problema, na forma da condenação moral, repressão legal e criação de programas pedagógicos. Essas medidas são importantes, nos ajudam a vencer muitas batalhas. Mas não ganharemos a guerra fechando os olhos para a raiz social e política do ódio.

Nós, como filhos de uma sociedade cheia de ódio, e que cada vez mais naturaliza o preconceito usando como justificativa o direito à livre opinião ou gosto pessoal, não estamos livres de em algum momento manifestarmos ódio. Em alguma medida, carregamos preconceitos dentro de nós. O senso comum está cheio deles. Assim, é necessário um esforço individual e coletivo no sentido de, por um lado, olharmos para dentro de nós mesmos e encararmos o ódio nosso de cada dia, e, por outro, lutarmos por políticas públicas que atuem no combate à desigualdade e à indiferença, atacando as raízes sociais do ódio.

152 – janeiro/fevereiro de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

é professora de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense.

Seja o primeiro a comentar