Lili Jaffe: viva e autora de um diário

O que os cegos estão sonhando? Com o Diário de Lili Jaffe (1944-1945) 
Noemi Jaffe
Texto final de Leda Cartum

São Paulo, Editora 34, 2012

237 páginas

Entre os muito poucos sobreviventes do Holocausto, um dia alguns dentre eles chegam a decidir escrever sobre as experiências que tiveram naquele período. Suas memórias podem ser encontradas, quando publicadas, em vários idiomas e países, onde eles passaram a ter uma sobrevida, depois dos riscos que atravessaram e da morte da qual escaparam. Entre esses que resolveram relatar por escrito o que lhes aconteceu, encontra-se Lili Jaffe (de solteira, Lili Stern), que veio para o Brasil, onde constituiu família. Sua filha Noemi e sua neta Leda inserem seus textos neste livro que relata, pelo diário de dona Lili, o que foram os dois anos em que ela resistiu ao horror nazista. A obra está, pois, dividida em três partes: o Diário, que ocupa quase as cem primeiras páginas do volume, os Comentários, que somam 36 capítulos (número cabalístico, possivelmente proposital) da filha Noemi Jaffe, conceituada professora de Literatura Brasileira, escritora e crítica literária, e um Texto da filha da mesma e neta da sobrevivente. São três gerações, uma de origem europeia,  brasileiras as duas últimas, todas três vinculadas, neste livro, pelas lembranças do que ocorreu com Lili, a avó e mãe.

O diário é construído como se tivesse sido escrito no “calor do momento”, isto é, quando Lili Stern era deslocada entre campos de concentração e um de extermínio, em trabalhos forçados, ao lado de outros tantos milhares de mulheres, jovens e adultas, à espera da morte. Mais afortunada do que muitas, ela estava ainda viva quando a guerra acabou, e seu diário, escrito anos depois, guarda a atmosfera tenebrosa reinante durante sua passagem pelos campos, incluindo-se o de Auschwitz. Este, reconhecido por sua fama caliginosa, pode ser o pretexto do título do livro – O que os cegos estão sonhando – pois a cegueira moral que infringiu nosso conceito de humanidade prevaleceu durante todo o período do Holocausto (e ainda prevalece em inúmeras partes do mundo). De outro lado, o título pode nos tapear, no sentido dos que pensam que cegos não sonham, pois não veem imagens que poderiam ser transferidas aos sonhos. Nós, os que não passamos pelo Holocausto, não o vimos, mas podemos senti-lo pelas palavras descritivas de quem passou por aquele período – e o sobreviveu. (Escrito em sérvio, idioma materno da sobrevivente, foi traduzido ao português por Aleksandar  Jovanovic.)

Ao colocar suas memórias no papel, Lili Jaffe deve tê-las revivido. Daí o recurso estilístico de manter o ambiente local, por mais terrível que tenha sido, como se o tivesse sentido ontem ou na semana passada. As datas e os nomes dos locais colocados acima das descrições das lembranças invocam a sensação de recentidade, que acaba por nos incluir a todos nós, leitores, no ano 1944, quando ela foi internada, à idade de 17 anos, no seu primeiro campo. Para a data de 4 de junho de 1944, em Auschwitz, ela escreve:

“Mandaram-nos sair dos vagões sem os pacotes. Separaram homens e mulheres. Papai com meu irmão. Nós cinco numa outra fileira. Mamãe, minha priminha de quatro anos, meu primo de oito e eu.[sic] Fila longa. Ouvimos um alemão gritar de longe: direita, esquerda…  … À meia-noite, chegamos no campo de concentração. Caminhamos muito até chegar a um banheiro. Entramos. Dentro estava cheio de alemães e alemãs que tiraram de nós tudo o que tínhamos ainda. Em seguida, precisamos ficar nuas e entrar num outro lugar. Havia somente mulheres ali, que cortaram os nossos cabelos. Tentei escapar entrando num outro recinto. Mas o mesmo destino me aguardava lá. Sentia muito pelo meu cabelo, mas, quando pensava em meus pais, não sentia nenhuma outra dor.  …. Procurava por conhecidos e então vi papai e meu irmão, que me indagavam onde estava mamãe. No momento em que tentava lhes responder, vieram uns alemães e me levaram dali. Não se enxergava nada em volta. …. Havia entre nós quem chorasse e gritasse e esses eram levados para um outro lugar, sei lá para onde.”

Vestido xadrez azul

O tom dos diários permanece assim sombrio e aterrador (e muito mais sinistros adjetivos poderiam aqui ser aplicados) até que, enfim, chegou o final da guerra. A Cruz Vermelha levou Lili para a Suécia, onde foi muito bem recebida pela população e conduzida a casas particulares, onde serviam, a ela e a outras moças também sobreviventes, verdadeiros banquetes, seguidos de presentes como roupas, sapatos, adornos e objetos de higiene pessoal. O diário tem um final feliz, não só pelas boas-vindas ao mundo dos vivos, como os suecos lhe fizeram, mas por ser uma das poucas pessoas que chegaram a ver suas memórias publicadas.

Os comentários da sua filha Noemi são reflexões sobre textos pinçados no diário da mãe. Ela faz observações coerentes com suas percepções de possíveis problemas de comunicação, como foi o caso de a mãe se ter vestido com a própria roupa com a qual havia dado entrada no primeiro dos campos. Suas observações são todas tituladas, e esta, “Destino”, recorta uma passagem do Diário, em que Lili escreveu: “Quando eu cheguei no campo, estava com um vestido xadrez azul, de saia rodada. Os alemães pediram para nos despirmos e fizeram uma montanha com todas as nossas roupas. Depois da desinfecção, devíamos pegar, ao acaso, qualquer roupa do meio daquela pilha. Peguei justamente aquele meu vestido xadrez” (p. 97). Dentre as observações da sua filha Noemi, destaca-se:

“Há muitas coisas na sua história que são impossíveis de compreender, quando pensadas separada e detalhadamente. Então os alemães permitiram, depois da desinfecção, que as prisioneiras vestissem uma roupa qualquer? Não foram todos imediatamente se vestir com o uniforme de prisioneiros? … Nada disso tem a menor importância. É maravilhoso que ela o tenha encontrado, que ele seja azul e xadrez e até mesmo que ela não saiba rememorar exatamente esta, como tantas outras histórias” (p. 97).  Para Lili, o reencontro com seu vestido em meio ao monturo de roupas alheias, foi um bom sinal do “destino”. E parece que ela não se enganou. O destino a presenteou com a vida, entre a montanha de mortos, graças ao final da guerra.

Em 2009, Noemi e sua filha Leda, também formada em Letras, visitaram os campos por onde sua avó e mãe tinha sobre-existido. O relato de Leda pode representar alguns pensamentos da segunda geração descendente dos sobreviventes. É uma geração que carrega também as lembranças dos seus avós e luta por entender aqueles tempos, principalmente tendo em vista o tempo presente, quando manifestações públicas de desagrado coletivo são um tanto fáceis de ser efetuadas. Não, na Europa não foi assim.  Os judeus foram encurralados e metidos em vagões de gado, destituídos de sua dimensão humana. É isto que a geração atual luta – quando quer – por entender. Como pode isto acontecer numa Europa tão civilizada e tão sofrida por guerras contínuas, quase no decorrer de toda sua civilização? Já não tinham experimentado antes o horror de uma guerra? Mas esta foi bem diferente… foi contra inimigos armados – os Aliados, com algum atraso de alguns… – e contra uma massa desarmada, os judeus, os ciganos, os homossexuais, os cegos, os paralíticos, os surdos, os mudos, os mancos, os gêmeos, as ruivas, os negros… Aconteceu, sim, e aconteceu principalmente porque o mundo não acreditava que estivesse acontecendo. Como reflete Leda, todos acordavam cedo para ir ao trabalho, tomavam o café da manhã, voltavam para o aconchego de suas casas ao final do dia, enquanto nos campos de extermínio, não muito longe deles, multidões eram levadas à morte por armas de fogo, cercas elétricas, espancamentos ou por pura exaustão, depois de um dia de trabalho escravo. Aconteceu, sim, na Europa do século 20. Ainda há pouco.

Boletim nº 152 – janeiro/fevereiro de 2015 – Ano 26

Especial para ASA

Regina Igel

Professora-titular e coordenadora do Programa de Português da University of Maryland, College Park (EUA). É colunista do Boletim ASA.

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