Cinema & tragédia

Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock

Eu tinha dez ou onze anos quando minha mãe, muito séria, me informou  que nós iríamos ao cinema. Nada de estranho, afinal, sempre fui um companheiro das idas de dona Rachel ao cinema, sobretudo para assistirmos a Jeanette MacDonald e seu inseparável boyfriend Nelson Eddy nas operetas que faziam o encanto do público, naqueles anos 1940. Só que o jeitão dela, muito sério, num dia comum da semana, me pareceu esquisito. Mas, enfim, mãe é mãe, e lá fomos nós ao Cine Colonial (hoje Sala Cecilia Meireles), na Lapa.

Jamais esqueceremos era, talvez, o nome do documentário. Que tratava, exatamente, do Holocausto, dos campos de concentração. Eu já tinha ouvido falar dos crimes nazistas, mas não havia ainda realizado o tamanho e visto as imagens da tragédia. Foi um choque. Mas didático. Foi a forma que dona Rachel encontrou para conversar comigo sobre  a hecatombe que se abateu sobre o povo judeu, naqueles sombrios anos.

Já adulto, tomei conhecimento de Memória dos Campos, o documentário de Alfred Hitchcock sobre o Holocausto.  A película, realizada em 1945 para mostrar aos alemães as atrocidades nazistas e vetada pelos aliados devido à brutalidade das suas imagens, finalmente foi mostrada ao público, há muito pouco tempo. Está, inclusive, na internet.

Em 1945, Alfred Hitchcock ficou horrorizado ao ver as imagens da chegada das tropas aliadas aos campos de concentração, no fim da Segunda Guerra Mundial. Ele ficou uma semana sem conseguir voltar aos estúdios londrinos. Em seguida, empenhou-se na produção do filme, que editaria as imagens chocantes para mostrar aos alemães a dimensão dos horrores do Holocausto.

No entanto, as autoridades britânicas consideraram o filme tão forte que não permitiram o seu lançamento oficial. Numa época em que as potências vencedoras estavam interessadas em reconstruir a Alemanha, em integrar cientistas como Von Braun,  uma obra que  apontasse o dedo e atribuísse responsabilidades à população alemã em geral, de forma tão poderosa, não seria a melhor solução.

O jornal The Independent conta que as bobinas de Memória dos Campos, como se chamou o filme, ficaram durante anos armazenadas no Museu Imperial da Guerra. Em 1984, uma versão incompleta foi projetada no Festival de Cinema de Berlim. No ano seguinte, foi transmitida nos EUA, pela cadeia de televisão pública PBS. Foi apenas para os 60 anos da libertação da Europa do poder nazista, que se completaram em 2005, que o museu decidiu restaurar o filme de forma a mostrá-lo, oficialmente, ao mundo.

Afinal, que filme é este?

São imagens da chegada das tropas aliadas aos campos de concentração, sendo recebidas pelos sobreviventes e, em seguida, recuperando os debilitados e encontrando os corpos dos que morreram por doença ou extermínios em massa.

Filmadas por soldados britânicos e soviéticos, as imagens revelam campos de concentração como Auschwitz, Bergen-Belsen (cerca de metade do filme), Buchenwald e Dachau.

Toby Haggith, curador principal do Museu Imperial de Guerra, descreve ao jornal inglês que um dos comentários mais comuns entre os que viram as primeiras versões era que o filme “era terrível e brilhante, ao mesmo tempo”.

Alma ferida

“Este local continua a ser uma ferida na alma da Europa e do mundo”, disse o presidente da Polônia, Bronislaw Komorowski, no decorrer da cerimônia do Dia da Memória do Holocausto, em 2005, em Auschwitz, onde os nazistas mataram mais de um milhão de pessoas, na sua maioria judeus.

Também nessa ocasião, o Museu do Holocausto expôs ao público pela primeira vez portas que foram utilizadas nas câmaras de gás.

“Temos perante nós portas. Portas em madeira maciça, através das quais passaram pessoas nuas, humilhadas e aterrorizadas. Dezenas de milhares de famílias transpuseram estas portas e nunca mais voltaram”, lembrou na ocasião o diretor do Museu do Holocauto, Piotr Cywinski.

Auschwitz-Birkenau é o mais importante símbolo do Holocausto, a campanha de genocídio da Alemanha nazista, durante a guerra, que visou sobretudo judeus, mas também ciganos, comunistas e homossexuais.

As tropas soviéticas, que fizeram recuar os alemães, chegaram a Auschwitz-Birkenau a 27 de janeiro de 1945, que é assinalado como o Dia Internacional da Memória do Holocausto.

Boletim nº 152 – janeiro/fevereiro de 2015 – ANO 26

Especial para a ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

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