Todos os genocí­dios

Daniel Silber, Daniel Filmus, Jorge Elbaum-abertura do ciclo Genocídios em B.Aires, IFT

Daniel Silber, Daniel Filmus, Jorge Elbaum-abertura do ciclo Genocídios em B.Aires, IFT

Um grupo de instituições tanto da sociedade civil quanto do Estado lançou em Buenos Aires o ciclo de conferências sob o sugestivo título de “Um genocídio – todos os genocídios” como parte de uma série de atividades dentro do Capítulo Argentino da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (AIMH).

Porque nos doem as injustiças cometidas contra todos os povos, porque é importante recordar para que não volte a acontecer, porque é necessário exercitar a memória, porque é o nosso legado – diz a convocação.

As entidades organizadoras são o ICUF (Ídisher Cultur Farband- Federação de Entidades Culturais Judaicas da Argentina), o grupo AMOS (ambas da comunidade judaica), La Lorca (organização de filhos e netos de espanhóis republicanos exilados), a Unión Cultural Armenia, a Liga Argentina por los Derechos Del Hombre (entidade mais antiga nesse campo no país, criada em 1937), a Asamblea Permanente por los Derechos Humanos (surgida em 1975, no calor do aparecimento do bando subversivo Alianza Anticomunista Argentina, que perpetrou numerosos atentados e assassinatos de militantes e dirigentes sociais, políticos, estudantis e sindicalistas de esquerda) e o INADI (Instituto Nacional contra la Discriminación, la Xenofobia y el Racismo).

O painel da jornada inaugural, realizado no IFT (Ídisher Folks Teatro – Teatro Popular Judío), teve intervenções do secretário de  Assuntos Relativos às Ilhas Malvinas e Ministério de Relações Exteriores e Culto e ex-ministro da Educação, Daniel Filmus, do embaixador argentino ante a AIMH, Jorge Elbaum, e de minha parte, na qualidade de presidente do ICUF).

 “Um genocídio – todos os genocídios” está se distribuindo por instituições de todo o país desde setembro e terminará neste mês de novembro em Buenos Aires, Lanús (Grande Buenos Aires), em Santa Fé, Rosário, Córdoba e Mendoza.

Na primeira etapa, os temas abordados foram de uma amplitude muito grande,  tratando de questões como o genocídio dos armênios, dos povos originários da América, de Ruanda e dos ciganos, assim como do terrorismo de Estado durante as décadas de 1970 e 80 na América Latina e do genocídio econômico instrumentalizado através dos projetos neoliberal / conservadores.

Personalidades reconhecidas no meio cultural, universitário, político, acadêmico, social e diplomático local e nacional, os palestrantes abordam cada uma das questões com base no humanismo militante e  no compromisso histórico de trazer elementos teóricos e conceituais para dar combate cultural a esse flagelo que fustiga a Humanidade.

Resistência

Na inauguração, o professor Silber afirmou que para o ICUF “é uma verdadeira conquista ter encontrado esse acolhimento e isso nos dá a segurança da justeza deste empreendimento. Dificuldades, uma ou outra incompreensão, ausências e críticas são favas contadas. Não nos assustam, pelo contrário, obrigam-nos a melhorar e a organizar novas atividades que contemplem e superem as falhas…”.

Referindo-se aos participantes, assinalou que “justamente  saber que há outras organizações que pensam e atuam mais ou menos de modo similar, compartilhando  um mesmo corpus ideológico e uma ética comum, foi o que nos levou a coordenar  e acumular esforços em prol de um objetivo coletivo: trabalhar a partir de todos os ângulos possíveis a construção de uma consciência cidadã de convivência como diferente, respeitosa, democrática, solidária…”.

O embaixador Elbaum destacou os mais de 25 anos da AIMH com a participação de 31 países, sendo a Argentina o único da América Latina e Caribe, com a particularidade de contar com a intervenção não só do Estado (através dos ministérios da Educação, Justiça e Relações Exteriores), mas também de numerosas instituições da sociedade civil.

Ele trabalhou a ideia  da não sacralização do Holocausto como ícone somente do passado e a sua vinculação ao presente, marcando a memória como ferramenta para que não se repitam fatos tão degradantes. Assinalou que se houve um Holocausto é porque antes houve um genocídio armênio ou um assassinato maciço de opositores políticos durante a Guerra Civil Espanhola e o franquismo. Também se referiu não só às vítimas, mas também aos assassinos, mostrando a amplitude das cumplicidades de grande parte das populações na consumação dos genocídios, já que sem o apoio tácito e/ou explícito de milhões de pessoas comuns que não se rebelaram ou impugnaram a barbárie, os ditadores, por mais fortes que tenham sido, sozinhos não poderiam ter feito o que fizeram.

O secretário Filmus sublinhou a importância da educação na tomada de consciência da sociedade acerca do significado profundo dos genocídios, destacando que é importante não só o que se menciona nos currículos, mas também o que se omite (por exemplo, a ausência dos povos originários da América e seus padecimentos com a conquista).

Lembrou que há mais de quinze conflitos bélicos em curso no mundo e que o chauvinismo, em suas variadas expressões, avança em muitos dos países centrais, estigmatizando imigrantes e outras minorias.

Ele advertiu que a questão do genocídio não se baseia na quantidade de vítimas, mas na concepção que o guia e em quê os genocidas buscam legitimidade para seus feitos, resumindo as palavras de Theodor Adorno em seu célebre “Educação após Auschwitz”.

Destacou, finalmente, a importância da resistir e de honrar a resistência, lembrando Primo Levi, segundo quem o simples fato de estar limpo no campo de concentração era uma forma de resistir, de manter a dignidade como pessoa frente à desumanização e à coisificação pretendida pelo nazismo.

Encerrando o painel, o professor Silber disse que “O monstro é o capitalismo, são as políticas neocoloniais que alienam e sustentam os que oferecem soluções apocalípticas. O inimigo dos povos é aquele que não tem inconveniente em sacrificar seres humanos, depredar regiões, submeter culturas, saquear recursos naturais desde que seja para alcançar os seus objetivos. É o imperialismo que mostra assim a sua cara mais feroz e voraz, destruindo estados, deixando vazios que incitam os exaltados a dar lugar aos fundamentalismos… É fundamental que estendamos pontes mais permanentes que sejam capazes de superar a conjuntura. O momento obriga a depor certas falsas contradições e desenvolver com mais profundidade e inteligência o permanente que nos une e nos comove. Sonhamos e trabalhamos para fazer da nossa uma pátria solidária, liberada, equitativa, integrada, inclusiva, democrática, que vá muito além do circunstancial. Por isso apostamos numa confluência do popular, do democrático… e para isso é que nos convocamos em ocasiões como esta. Estas jornadas não são um fim em si mesmas; são uma colaboração, uma reflexão, mas também um pretexto para nos conhecermos e avançar  rumo a uma unidade, plural e complexa, de conteúdo transformador, para uma democracia avançada…”

A ideia, após um balanço dessa experiência da qual participam instituições de diversas origens, trajetórias e orientações, é prosseguir o Ciclo no ano que vem abordando tópicos como a situação da mulher, a Guerra da Tríplice Aliança contra o Paraguai, Palestina, Hiroshima – Nagasaki, bem como ampliar o espectro tanto de instituições como de palestrantes e estudiosos.

A iniciativa já está caminhando. A esperança é que cresça e que mais atores se comprometam com ela.

Boletim nº 151 – novembro/dezembro de 2014 – Ano 26

Especial para ASA

Daniel Silber

Professor na província de Santa Fé (Argentina). É colunista do Boletim ASA.

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