Os bons tempos da TV em preto & branco

Sara me pede que eu escreva sobre autores judeus que tiveram seus trabalhos encenados na televisão brasileira. Tudo isso porque, comentando um artigo do Jacques Gruman, lembrei que eu adaptei para a televisão uma história clássica de I.L.Peretz, Bontzie, o taciturno. É verdade, naqueles tempos, idos de 1960, entre outras mil e uma atividades, eu ganhava a vida escrevendo e adaptando peças para a televisão – geralmente nas TVs Rio e Continental, no Rio – , gravadas ao vivo e, depois, fitas enviadas para a TV Paulista, canal 5 (hoje Globo) e outras praças deste nosso imenso Brasil.

Até o golpe de 1964, nossas TVs tinham espaço para teleteatros, uns mais outros menos ambiciosos. Basta mencionar o Grande Teatro Tupi e a TV de Vanguarda para recordar esses bons tempos das nossas emissoras. Foi só depois do golpe e do surgimento da Globo no cenário que os teleteatros simplesmente evaporaram – em favor, diga-se de passagem, do crescimento e da qualidade das telenovelas.

Mas não foi isso que a editora deste magazine me pediu. Dando tratos à bola, e consultando, também, o tio Google, pude levantar alguns nomes que foram destaque na pequena telinha.

Revivendo bons momentos

Começando, já em 1951, pela “A vida por um fio”, de Lucille Fletcher, dirigida por Cassiano Gabus Mendes, na TV Tupi de São Paulo. Lembro que a Lia de Aguiar estrelava essa peça, baseada no filme Sorry, wrong number, em que eu me apaixonei pela Barbara Stanwick. Quem adaptou o texto foi o Walter George Durst.

Ainda em 1951, a TV Tupi apresentou “A herdeira”, do lendário autor comunista norte-americano Clifford Odets, num elenco em que despontava a Berta Zemmel. Únzere mentschen…

Mas pra não ficar apenas na esquerda judaica, logo em seguida o Grande Teatro Tupi apresentou “O grande Gabbo”, de Ben Hecht, simpatizante fervoroso do Irgun…Quem adaptou a peça foi o Walter George Durst,  e lá no elenco estavam o incrível Lima Duarte e nossos queridos e saudosos Jaime Barcelos (Jaimovich) e Henrique Martins. Outras peças dele, “A boa sorte”, na TV de Vanguarda, e “Crime sem paixão”, num horário vespertino da emissora associada.

Ideia geral

Bueno, não vou ficar alinhando muitos nomes e comentários, mas dar uma ideia geral das peças de autores judeus e, claro, de um ou outro artista que apareceu na telinha. Assim, um texto do George Cukor escrito para a televisão norte-americana foi encenado, acho que em 1958, pela Tupi: “Um rosto de mulher”. A direção foi do Sérgio Cardoso. No elenco, o próprio, mais a Nydia Licia e o Rubens de Falco.

Stefan Zweig (que agora volta à moda), compareceu com várias peças nas nossas TVs dos anos 1950: “Carta de uma desconhecida” e “Corações insatisfeitos”. Houve mais algumas, mas não lembro e não consegui descobrir nas minhas rápidas pesquisas.

Um ligeiro parêntese pra falar de uma figura extraordinária da nossa televisão e, claro, da presença judaica nos teleteatros do período heroico da TV, Silas Roberg. Ele esteve na TV brasileira desde o seu começo, em 1950, escreveu e dirigiu alguns dos melhores momentos da dramaturgia televisiva, ultrapassou o período do golpe de 1964 e encerrou sua carreira esplêndida na TV Cultura de São Paulo. Só pra citar uma peça dele, “Vamos fazer alguma coisa”, de 1958, na Tupi. No elenco, Dionísio Azevedo, Geraldo Louzano, Wania Martini , Neide Pavani, Osvaldo de Souza; Walter Negrão; Elke Tavares.

Silas foi casado com a jornalista Lyba Fridman, que trabalhou comigo na revista Radiolândia e, muitos anos depois, na Bloch (Amiga, Manchete etc).

Fecho o parêntese. Sigo em frente nas minhas lembranças e pesquisas.

Samuel Rawet – com certeza vocês sabem – foi um contista, dramaturgo, ensaísta e engenheiro brasileiro. Para muitos críticos literários, talvez o maior contista brasileiro de seu tempo. Pois bem, na TV Tupi de São Paulo ele emplacou vários trabalhos, como “A noite que volta” e “Os enamorados”, em 1958, e “Cuidado com as crianças”, no ano seguinte.

Outra grande figura no rico cardápio do Grande Teatro Tupi, “A canção sagrada”, de Paddy Chayefsky. No elenco,  Riva Nimitz, Lélia Abramo, Vera Gertel, Francisco de Assis, Xandó Batista, Arnaldo Weiss, Oduvaldo Viana Filho, Flavio Migliaccio, Henrique César, Milton Gonçalves, Nelson Xavier, Fausto Fuser. É mole?

Falei da Riva, lembro o Oscar Nimitz, jornalista e autor teatral. Ele adaptou “O viajante”, de Rupert Brooke, mas também  emplacou diversos trabalhos originais seus, como, por exemplo, “Um aniversário de casamento”, que escreveu e dirigiu na Tupi. Saudades de Oscar.

Arthur Miller também está na minha lista, começando por “Todos eram meus filhos”, na TV de Vanguarda, e seguindo com  “Panorama visto da ponte”, no teleteatro Brastemp, em 1963.

Falei do Oscar Nimitz, lembrei o Zevi Ghivelder. Meu antigo companheiro de muitas jornadas na imprensa, inclusive na saga de Menorah, publicou vários romances e também escreveu para a televisão. No Studium 4, em 1961, ele apresentou sua peça “A voz”, com a Márcia Real em destaque.

Não menos interessante, a presença de Pedro Bloch na telinha. Irene, por exemplo, fez muito sucesso na TV de Vanguarda, também em 1961. Outro grande sucesso foi “Os inimigos não mandam flores”.

Irene Nemirovski também escreveu seu teleteatro, “A festa de Rosine”.

Felipe Wagner (aliás, Szafran, irmão da Ida Gomes), foi ator, mas também escreveu suas peças, como  “Sem razão para matar”, no Grande Teatro Tupi.

Meu saudoso irmão, Moysés Weltman, escreveu vários teleteatros originais, sobretudo nas TVs Tupi e Continental, como “O jovem dr. Ricardo” e as aventuras dos “Três Mosqueteiros”, além, é claro, de algumas versões do seu “Jerônimo, o herói do sertão”.

Enfim, fica aqui este panorama da presença de autores judeus na televisão brasileira. Lamentavelmente, muito pouca coisa pode ser revista, hoje em dia, sobretudo no Arquivo Multimeios do Centro Cultural São Paulo. Quem possui um razoável acervo é a TV Cultura de São Paulo, que há pouco tempo andou reprisando a série do Teatro de Cacilda Becker.

Por último, mas não menos importante, Tatiana Belinky. Essa adorável criatura, junto com seu marido, Júlio Gouveia, desde 1948 fazia teatro para crianças. Com o advento da televisão, os dois passaram a apresentar suas adaptações e originais na TV Tupi.  Eram roteiros escritos por ela, a maioria adaptados das literaturas nacional e internacional.

A partir dos anos 1950, Tatiana e Júlio levaram para a televisão o “Sítio do Pica-pau Amarelo”, de Monteiro Lobato, com cerca de 350 capítulos. Quem conheceu e acompanhou o “Sítio” de Tatiana passou a fazer parte do incrível e fascinante mundo de Dona Benta, Narizinho, Pedrinho, Emília, Visconde e Quindim. Inesquecível.

De resto, pra mim, resta a saudade dos bons tempos da televisão em preto&branco, televisão de muito talento.

Boletim nº 151 – novembro/dezembro de 2014 – Ano 26

Especial para ASA

Henrique Veltman

Carioca, jornalista, 80 anos, torcedor do Ameriquinha. Antropólogo por formação, comunista por deformação. Sionista, ateu graças a Deus. Vários livros publicados (os últimos, Do Beco da Mãe a Santa Teresa; A História dos Judeus no Rio de Janeiro; A História dos Judeus em São Paulo; Histórias de Vovó Rachel – A Criação do Mundo). Novelista de rádio e televisão. Casado, avô de quatro netas e bisavô de quatro bisnetos. Hoje, editor de Opinião do jornal DCI Diário Comércio Indústria & Serviços de São Paulo. É colunista do Boletim ASA. E-mail: hbveltman@gmail.com

1 Comentário

  • Responder abril 6, 2016

    Valdir Galdi

    Peço-lhes por gentileza, que seja lembrado nesta biografia um dos
    grandes trabalhos desse grandioso diretor Silas Roberg, na direção da
    novela Marcelino Pão e Vinho, no ano de 1958, na antiga TV Tupi de S.Paulo .

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