O foco é a participação comunitária

Posse-Reprodução-Comunidade na TVNem bem tomou posse, no início de outubro, a nova Diretoria Executiva da Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro – FIERJ precisou emitir uma nota de repúdio a um clássico da vida urbana: a pichação de uma suástica no monumento a Zumbi dos Palmares.  Quase simultaneamente, teve encontros com os dois candidatos que viriam a disputar no segundo turno o governo do Estado, Pezão e Crivella – um começo “animado” para o presidente Paulo Maltz e seus vices Evelyn Milsztajn e Herry Rosenberg. Além de sua chapa, que obteve nas eleições de agosto 2399 votos contra os 1487 da chapa adversária, elegeram-se para o Conselho Deliberativo os 36 candidatos mais votados de um total de 76. Natural do Rio, 55 anos, o advogado Paulo Maltz é ativo na comunidade judaica desde o fim dos anos 1990, tendo atuado no Monte Sinai, no Grande Templo, na própria FIERJ (como conselheiro, diretor jurídico e vice-presidente) e na Confederação Israelita do Brasil – CONIB. Na entrevista a seguir, por e-mail, ele fala de pobreza, gestão patrimonial, antissemitismo, intolerância dentro da comunidade e Israel, entre outros temas.

ASA – À parte o fato saudável de ter havido disputa entre duas chapas, em quê as recentes eleições foram diferentes das anteriores?

Paulo Maltz – Creio que o conflito no Oriente Médio contribuiu para uma maior participação da comunidade nas eleições. Além disso, houve uma proposta séria de inclusão da juventude e uma grande utilização dos meios eletrônicos de convocação dos eleitores. Some-se a isso a candidatura ao Conselho de um grupo novo de líderes comunitários, com propostas de mudanças.

ASA – Na sua avaliação, o que está bom e o que está ruim na nossa comunidade?

PM – Devemos pensar o que pode ser melhorado. O que foi bom no passado pode não ser bom hoje e vice-versa. Podemos melhorar a comunicação interna e externa e melhorar a gestão patrimonial, entre outras. O mais importante é melhorar a participação comunitária.

ASA – Pode esclarecer em que consiste melhorar a gestão patrimonial?

PM – Em primeiro lugar, aproveitar os espaços ociosos de uma instituição para a utilização de outra instituição e, em segundo lugar, fazer um cadastro imobiliário da comunidade e regularizar o que não estiver regularizado.

ASA – A ex-presidente Lea Lozinsky contou a este Boletim, logo após iniciar a sua gestão (2008), que, numa reunião no Palácio Guanabara a respeito de programas sociais, uma assessora da ex-secretária Benedita da Silva perguntou, admirada, “Mas tem judeu pobre?”, ao que ela respondeu: “Existe pobreza, e muita. Vocês não chegam a saber porque a comunidade tira esse ônus dos ombros do Estado.” Como está  o quadro da pobreza na nossa comunidade e o que o novo Executivo pretende fazer para combatê-lo?

PM – O empobrecimento da comunidade é um fato. Que o digam as instituições assistenciais que não dão conta de ajudá-los. Com maior participação comunitária e melhor gestão patrimonial poderemos melhorar a ajuda aos carentes. Não adianta criarmos um “Bolsa Família” judaico. Temos que reincluir os que podem trabalhar em algo produtivo e assistir os que não podem trabalhar.

ASA – É a segunda vez nesta entrevista que o senhor menciona a necessidade de maior participação comunitária. Como, objetivamente, o senhor pretende alcançá-la?

PM – A missão é fazer com que mais membros da comunidade passem a frequentar as instituições e participar de eventos comunitários. Acredito que primeiro esta Diretoria da FIERJ terá de mostrar que veio para fazer a diferença e diferente. Com este cacife, poderemos pedir maior participação.

ASA – A sua chapa se elegeu com o argumento, entre outros, de que representava um amplo espectro da sociedade judaica, dado que os vices Herry Rosenberg e Evelyn Milsztayn têm origem respectivamente no Lubavitch e na ARI. No entanto, há outras correntes religiosas e também judeus não religiosos. Onde se encaixam estes nos planos da sua Diretoria?

PM – O fato é que não tive e não tenho uma corrente religiosa específica, inobstante entender aceitar todas elas. Pessoalmente, frequento o Lubavitch. O meu papel é de mediador dessa multiplicidade de correntes e apoiar  todas que me procurarem com bons projetos de interesse realmente comunitário.

ASA – Denúncias de antissemitismo na comunidade maior ensejam reações instantâneas das nossas instituições-teto. Não se vê, contudo, a mesma presteza ante a intolerância crescente dentro da comunidade em relação aos que defendem ideias diferentes das oficiais, que são explícitas, mas não  necessariamente majoritárias. Um exemplo foi o assédio e constrangimento sofridos por jovens judeus – e até a violência física – durante a manifestação  convocada pela FIERJ, em agosto, por motivo do conflito na Faixa de Gaza. Qual é a sua posição a respeito?

PM – Nossa comunidade é plural e deve ser vista como tal. As manifestações individuais são livres. Todavia, quando falamos em nome de um todo, entendo que devamos ter um discurso único. Para isso fazemos reuniões preparatórias para sairmos às ruas e nos mostrarmos. Nada justifica a violência, mormente a interna corporis. Se a FIERJ é a voz da comunidade para fora, deve ser tão respeitada quanto aqueles que divergem. Fomos eleitos defendendo, repito, o pluralismo.

ASA – Candidatos judeus a vereadores e deputados alegam em suas campanhas que para combater o antissemitismo é necessário que se elejam judeus. O senhor concorda?

PM – Não. Melhor que sejam judeus. Todavia temos inúmeros exemplos de não judeus que defendem mais o Estado de Israel e o judaísmo do que os judeus. Acho que, quando alguém de fora da comunidade nos defende, tem mais impacto. Por outro lado, apenas os políticos judeus têm a sensibilidade e conhecimento do que foi ser perseguido e morto no Holocausto. Temos que trabalhar com todos os que pensam em liberdade religiosa e em direito de sobrevivência. Temos igualmente que tentar informar e educar os que nos perseguem e nos combatem apenas porque somos judeus.

ASA – A FIERJ tem defendido automaticamente toda e qualquer posição dos governos israelenses no conflito com os palestinos. A sua Diretoria seguirá a mesma linha?

PM – A FIERJ representa a comunidade judaica do Rio de Janeiro. A defesa do Estado de Israel e de sua política de governo é obrigação da Embaixada e do Consulado. Todavia, como judeus estamos intimamente ligados a Israel e defenderemos a sua existência a qualquer preço, custe o que custar. Não podemos prescindir do Estado de Israel. Nossa segurança na galut depende da existência de Israel forte.

ASA – No encontro com a diretoria da ASA antes das eleições, o senhor criticou a forma como funciona o Conselho Deliberativo da FIERJ. Disse que, mantida essa forma de funcionamento, melhor seria substituí-lo por outro organismo. Explique melhor a sua posição.

PM – Na gestão de Sarita Schaffel como presidente da FIERJ foi apresentado um Plano de Governança que modificava completamente a organização da FIERJ e do Conselho. Este plano foi rejeitado pelo Conselho da época. Agora, com o Conselho renovado, como nova e independente direção, incumbe a eles, os conselheiros, estudar e propor mudanças. O Executivo da FIERJ não tem ingerência no Conselho, apenas apresenta as propostas para serem debatidas e aprovadas ou não.

ASA – O  que não funciona no Conselho e o que, em linhas gerais, propunha o Plano de Governança?

PM – O plano era extenso e, em resumo, propunha reduzir o número de conselheiros eleitos e fazer com que os presidentes das instituições comparecessem às reuniões. Propunha ainda a criação de grupos de discussões setoriais. Entendo que a baixa participação dos conselheiros eleitos e a falta de representação das instituições que não se faziam presentes por seus presidentes, aliadas à falta de temas relevantes para serem debatidos e votados, foram motivos do seu esvaziamento e, com isso, da perda de importância comunitária.

ASA – Qual será a sua primeira decisão como presidente?

PM – Não existe uma primeira decisão. Existem várias formas de ver os mesmos problemas. Pretendemos trabalhar com uma Diretoria comprometida e jovem, ouvir e ser ouvido e decidir em consenso.

ASA – Qual é a sua mensagem para os associados da ASA, os leitores deste Boletim e a comunidade judaica em geral?

PM – Gostaria de ver a ASA mais engajada nos problemas comunitários. Mais participativa. Comparecendo às reuniões do Conselho através de seu presidente e discutindo em conjunto o que entende ser o melhor para a comunidade. Gostaria de poder utilizar a ASA como sede de eventos comunitários, independente de ideologias. Quero agradecer por esta entrevista e por terem me dado a oportunidade de comparecer à reunião de sua diretoria e expor meu programa e pedir votos. Finalizando, ainda em tempo, quero desejar a todos um Shaná Tová Umetucá.

Boletim nº 151 – novembro/dezembro de 2014 – Ano 26

Especial para ASA

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