Música de Hanucá (e elucubrações gastronômicas)

IMAGENS- Almendrikas-Miel-y-almendrasAlmendra, amêndoa, amande, mandorla, almond, mandel, … Seja em que língua for, a amêndoa tem um significado: assim como é preciso quebrar sua casca para chegar ao fruto saboroso, também é preciso penetrar a superfície das pessoas ou das coisas, para perceber a verdadeira joia que elas podem ser. Quebrar a casca resistente e saboreá-la significa descobrir um segredo e dele participar. Almendrika – gosto muito dessa forma por sua sonoridade e por ser tão caracteristicamente sefaradi, com seu diminutivo tão carinhoso.

Neste espaço, pretendo conversar um pouco sobre a música sefaradi; mas, antes, gostaria de relembrar o significado de Sefarad e sefaradi.  Sefarad é o nome hebraico da Península Ibérica em sentido lato e da Espanha, em sentido estrito. Sefaradi, sefardita ou sefaradita se referem aos judeus descendentes dos judeus espanhóis expulsos da Península no final do século 15 e que conservaram as características culturais hispânicas, muito especialmente o dialeto castelhano, ao qual foram acrescentando elementos das línguas dos países por onde foram passando ou se estabelecendo. Não vou me aprofundar nessas questões histórico-sociais, porque, como escrevi acima, o que desejo é falar da música sefaradi, ou seja, da música que os judeus descendentes dos judeus expulsos de Sefarad cantam hoje em dia. No boletim ASA de setembro/outubro de 2007 (nº 108) há um artigo meu – “A língua sefaradi” – no qual conto tudo sobre a sua trajetória.

É difícil documentar a evolução da música sefaradi, devido à falta de fontes escritas. Não há como duvidar de que a música sefaradi nasce dos judeus espanhóis que viviam na Península Ibérica. Com a expulsão, levam suas tradições e a música cantada no castelhano medieval (kastiyano viejo), misturado com o hebraico, o aramaico e, com o correr do tempo, com as línguas dos lugares por onde vão passando ou se estabelecendo. Esse repertório, que hoje conhecemos como música tradicional sefaradi, chegou até nós por via oral, passando de geração em geração. Mas, como qualquer outro povo, os sefaradis adaptam canções do seu entorno ou compõem novas canções. Um exemplo é a canção composta para Hanucá, de 1983, chamada Ocho Kandelikas (Oito Velinhas), à qual vou voltar a me referir mais adiante. Mas houve um tempo em que era costume cantar umas Koplas de Hanuka, de cuja melodia não se tem documento, mas de cuja letra restaram algumas estrofes, das quais reproduzo uma:

“Alsaron sus korasones

I sus ojos a el Dio

Salieron komo leones

Kon fuerza ke El les dio”

 (Levantaram seus corações/ E seus olhos a Deus/ Saíram como leões/ com a força que Ele lhes deu).

 Há outra canção, também antiga, da qual existe uma gravação com Avraham Perrera, com palavras em turco, ladino e hebraico:

“Da’kil tas toma’l tas

Las muchachas meten bas

En shabat de Hanuka

Lead’lik ner shel Hanuka

La gayina de la kuzina

Dale a gostar a la vizina

Ke le sea milizina

En shabat de Hanuka

Lead’lik ner shel Hanuka”

(Traga o prato, coloque a comida/As meninas brincam/No Shabat de Hanuka/ Vamos acender as velas de Hanucá// A galinha da cozinha/ Dê à vizinha para provar/ Que para ela seja um remédio.)

De origem ashquenazi, o hino Maoz Tsur, em hebraico, passou, em décadas recentes, a ser entoado tanto por sefaradis quanto por mizrahis. Foi escrito no século 13, na Alemanha, por um autor do qual só se conhece o nome: Mordehai.

Já nos nossos dias, vários autores compuseram canções relativas à Festa das Luzes: Judy Frankel, Yehuda Hatsvi, Medi Kohen-Malki … Mas a mais conhecida, cantada e gravada é a já citada Ocho Kandelikas, composta por Flory Jagoda (Bósnia, 1923).  Com letra e música bem acessíveis, de fácil memorização, logo se tornou um sucesso internacional:

“Hanuka linda sta aki, ocho kandelas para mi (bis)

Una kandelika, dos kandelikas, tres kandelikas,

kuatro kandelikas, sinko kandelikas, sesh kandelikas

Ocho kandelas para mi.

Munchas fiestas vo fazer kon alegrias i plazer (bis)

Una kandelika, dos kandelikas (…)

Los pastelikos vo komer, kon almendrikas i la miel (bis)

Una kandelika, dos kandelikas, (…)”

(Hanucá linda está aqui, oito velas para mim/uma velinha, duas velinhas, três, quatro, cinco, seis, sete velinhas, oito velinhas para mim// Muitas festas vou fazer, com alegrias e prazer// Os docinhos vou comer, com amendoazinhas e mel.)

Na estrofe “Los pastelikos vo komer, kon almendrikas i la miel”, é preciso tomar cuidado com a palavra pastelikos. Pastel, em ladino, tem o mesmo significado de pastel, em espanhol, que é diferente do significado do “pastel” do português do Brasil, que, por sua vez, também difere do “pastel” do português de Portugal. A base é a mesma (massa de farinha de trigo), mas, enquanto o pastel brasileiro é frito e salgado, os outros são cozidos e, em geral, doces. Os pastelikos da canção devem ser entendidos como “docinhos” e, mesmo que tenham a forma triangular, serão cozidos, feitos no forno. Um docinho tradicional sefaradi é o travados, recheado com nozes ou amêndoas, com calda à base de mel. Para quem quiser fazer e experimentar, mais abaixo vai um link para uma receita à moda de Rodes. Há variações: depende do país, às vezes de cidade e, até mesmo, de cada nikochera (dona de casa) sefaradi.

Um reflan (refrão, provérbio) sefaradi diz: “Pasteliko i banyo, no manken todo el anyo” (Docinho e banho, que não faltem todo o ano).

Para terminar, um agradecimento à Sara Gruman e à sua feliz inspiração – a sugestão do nome “Almendrikas” para nossa coluna.

Links:

Para Da’kil tas toma’l tas – Avraham Perrera:

https://www.youtube.com/watch?v=Vhnzdi7s2Wc

Para Ocho kandelikas – com Estreyikas d’Estambol (coro infantil):

https://www.youtube.com/watch?v=mf3wWzLdVeY

Para Ocho kandelikas – com Flory Jagoda:

https://www.youtube.com/watch?v=BeS46weU4ZI

Para a receita de travados:

http://esefarad.com/?p=15562

Boletim nº 151 – novembro/dezembro de 2014 – Ano 26

Especial para ASA

Cecilia Fonseca da Silva

Licenciada em Letras Neolatinas e especialista em Filologia Hispano-americana, é autora de livros didáticos de Espanhol e membro do Grupo de Cultura Sefaradi Angeles y Malahines. É colunista do Boletim ASA.

1 Comentário

  • Responder dezembro 7, 2015

    Janine Martins de Castro Santos

    Parabéns Cecília por este artigo. Profundo e interessante. Sou professora aposentada da Universidade Federal de Uberlândia, mestra em Educação. Como registro no meu poema O diamante lapidado, o seu diamante / alma/ é perfeito, pq. VC já lapidou várias facetas. Bj.

Deixe uma repost